O adeus  rainha 

Chantal Thomas


Digitalizado e corrigido por Vera Lcia Figueiredo em maio de 2010

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Orelhas:

Os ltimos dias do Antigo Regime francs, que precederam sua queda pelos revolucionrios em 1789, so relembrados pela senhora Laborde, uma fiel sdita e Leitora
oficial da rainha Maria Antonieta. De seu ponto de vista privilegiado, de dentro dos aposentos reais, em Versalhes, ela se tornou testemunha dos acontecimentos trgicos
e pitorescos que antecederam a Revoluo Francesa.
Sua narrativa no  maniquesta, mas de quem pertence a um universo limitado e que tem dificuldades em viver dentro desse imenso palcio, desconfortvel, insalubre,
perigoso, mas que para toda a Frana  uma ilha paradisaca.
Chantal Thomas escreveu um romance histrico por excelncia. Atenta aos detalhes concretos (todos os nomes so verdadeiros), imprimiu  narrativa uma viso pessoal
e feminina.

Chantal Thomas nasceu em Lyon, na Frana, em 1945.  romancista e ensasta, tem estudos publicados sobre Sade, Casanova, Thomas Bernhard
e Maria Antonieta.
Depois de tantas obras eruditas, a passagem para a fico tornou-se uma "obrigao" para Chantal, que j foi aluna de Roland Barthes e  considerada grande especialista
no sculo XVIII francs. O adeus  rainha  seu primeiro romance e ganhou, em 2002, o prmio literrio Femina. Publicou em seguida Souffrir (Payot, 2004), ensaio
sobre a sociedade atual e as dores da alma.
Atualmente,  diretora de pesquisas no CNRS - Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris.

Contracapa:

"Era uma hora absurda para uma sesso regular de leitura, mas a Rainha logo estabelecera o hbito de me chamar a qualquer
momento. [...]
Os efeitos particulares de minha voz no eram minimamente necessrios, e eu esperava, com o corao palpitando, ser mandada de volta s sombras errantes daquela
noite.
Se isso no aconteceu, foi sem dvida porque a Rainha, em sua ansiedade, preferiu me juntar  obra de tirar
as jias dos engastes. A partir da, na confuso reinante, a Rainha passou a me tratar indiferentemente como leitora e camareira. [...]
- Quero partir - repetia a Rainha. - Para a realeza, para ns,  questo de vida ou morte. O Rei no deve
permanecer um dia a mais em regio sobre a qual perdeu o controle."

O adeus  rainha

Chantal Thomas

Traduo de Jorge Bastos

A GIRAFA

Copyright (c) 2005 A Girafa Editora Ltda.
Copyright (c) Editions du Seuil, 2002

Ttulo original: Les adieux  la reine

No  permitida a reproduo desta obra, parcial ou integralmente, sem a autorizao expressa da editora e do autor.

Produo editorial: Fabiana Werneck Barcinski e Beatriz Antunes
Traduo: Jorge Bastos
Preparao: Ibraima Dafonte Tavares
Projeto grfico: Design Editorial
Capa: H. Theo Mller/ designeditorial.com

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro,SP,Brasil)

Thomas, Chantal
O adeus  rainha / Chantal Thomas; traduo de Jorge Bastos.
So Paulo: A Girafa Editora, 2005.

Ttulo original: Les adieux  la reine.
ISBN 85-89876-32-2

1. Romance francs I. Ttulo.

05-5162                     CDD-843

ndices para catlogo sistemtico:
1. Romances: Literatura francesa 843

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Observao: As notas do tradutor foram inseridas no texto, logo aps a referncia, para facilitar a leitura.


Viena, 12 de fevereiro de 1810

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Eu me chamo Agathe-Sidonie Laborde, um nome quase nunca pronunciado, quase um segredo. Moro em Viena, no bairro dos imigrantes, num apartamento da Grashofgasse.
As janelas do para um ptio pavimentado, circundado no trreo por pequenas barracas, como a de um comerciante de livros velhos, a de um fabricante de perucas, a
de um impressor, a de um reparador de violas. H tambm um vendedor de especiarias bem embaixo do meu prdio. O lugar  animado, sem ser barulhento demais. Nos dias
claros, sempre flutuam no ar, junto com aromas do Oriente, notas musicais. As roseiras que sobem pelas paredes do um charme de jardim a esse recanto vienense. Mas
em pleno inverno, como estamos agora, as roseiras no tm flores e o barulho das barracas no chega mais at aqui. Para mim, de maneira geral, os rudos da vida
se apagaram, seja qual for a estao. Este inverno terrvel que me cerca, esta neve perptua e o sentimento de luto que ela traz parecem a manifestao de minha
idade avanada, o sinal externo do profundo e definitivo inverno que me invade.
Hoje, 12 de fevereiro de 1810, festejo meus sessenta e cinco anos. Festejar no  o termo mais apropriado para descrever a reunio que se deu em meus aposentos,
com algumas pessoas de minha idade, franceses exilados, sobreviventes como eu do colapso daquele mundo chamado Antigo Regime. A neve caa sem parar. Meus fiis amigos
chegaram bastante molhados, uma vez que, infelizmente, a necessidade de usar bengalas os impedia de carregar guarda-chuvas. Dos infortnios da velhice, esse  um
dos menores! Colocamos as roupas encharcadas para secar diante da lareira. As senhoras retocaram o cabelo e a maquiagem e me ofereceram presentes: flores de seda
spera, um leque e uma minscula caixinha oval, que me pediram para s abrir depois que todos tivessem ido embora. Mantive sobre as pernas as flores e o leque, enquanto
tomvamos caf e comamos doces. Como de hbito - e em unssono com a Europa inteira -, falamos de Napoleo. Com raiva,  verdade, mas uma raiva contida, diferente
daquela de grande parte da sociedade vienense, cheia de verdadeiro dio. Ns o vimos chegar aqui
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no ltimo ms de julho, depois de vencer as batalhas de Essling e Wagram. Suportamos os bombardeios, o cheiro de sangue, de morte, de carnificina, o horror dos
milhares
de feridos espalhados por todos os cantos da cidade, cujos gritos de dor e estertores de agonia se tornaram a trilha sonora de nossas atividades cotidianas. Passamos
tambm pela espionagem, a rapina, a violncia por que passa um territrio ocupado. Mas esse exrcito vinha da Frana, e para ns era difcil detest-lo. Enfrentvamos
a arrogncia de seus soldados sem poder consider-los inimigos. Esses jovens que falavam nossa lngua, que podiam ser filhos dos nossos filhos, ao mesmo tempo nos
eram estranhos, dolorosamente estranhos. No s pela hostilidade com que nos tratavam, mas tambm por seus modos. "Todos andam como ele", algum observou. E era
verdade: todos andavam rpido demais. Tesos, batendo os calcanhares, pareciam autmatos. Os oficiais de Napoleo imitavam seu jeito de andar e copiavam o modo brusco
como se dirigia s pessoas (apenas o sotaque, at agora, ningum procurara imitar). Sem prembulos, o Imperador faz as perguntas mais diretas. Ele no conversa;
atira  queima-roupa. Nosso modelo era a conversa de salo, com suas aluses, seus subentendidos, sua arte de fazer o interlocutor brilhar, de nunca impor a prpria
erudio, de produzir tiradas inteligentes e divertidas a partir do nada. O de Napoleo  o interrogatrio policial. Deve ter tima lembrana da "conversa" com Friedrich
Staps, o estudante que tentou assassin-lo com uma faca de cozinha em Schnbrunn, em outubro.
- Arrepende-se?
- No.
- Tentaria outra vez?
- Sim.
Se no tivesse que conden-lo  morte, de bom grado continuaria mais um pouco esse dilogo. O rapaz se assemelhava a ele, da mesma forma que Charlotte Corday a Marat.
Os terroristas se atraem... Civilizao do punhal, da baioneta e do canho. Antigamente, um homem se orgulhava de ser corts. No se vangloriava
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se porventura fosse  guerra ou precisasse se dedicar a atividades militares. Por essa razo, nunca um soldado se apresentaria de uniforme na corte. Ele antes
trocaria de roupa, mesmo que trouxesse a notcia de uma vitria e viesse colocar aos ps do Rei a bandeira arrancada ao inimigo. Como exemplo disso, nenhum homem
de bem hesitaria entre a fita azul da Ordem do Esprito Santo e a fita vermelha da Ordem de So Lus. A fita azul era a que dava mais orgulho.
Durante a comemorao de meu aniversrio, enquanto nos aquecamos diante do fogo bem vivo, a ouvir satisfeitos o crepitar da lenha suspensa nas ferragens da lareira,
lamentamos os ltimos projetos do Imperador, os quais, por serem pacficos, no se juntavam  lista j colossal de seus crimes. Segundo alguns, ele pretende passar
um ms a cada vero no Palcio de Versalhes, apesar de ach-lo pequeno e disforme, "um monstrengo horroroso", que, alm do mais, custa uma fortuna manter. Decidiu
passar ali temporadas, depois de haver tido a petulncia de declarar: "Por que a Revoluo, que tanta coisa destruiu, no demoliu o Palcio de Versalhes?". Mas,
segundo outros boatos, Napoleo planeja pr abaixo os bosques e as esttuas e substitu-los por monumentos comemorativos de suas vitrias... Voltamos a nos servir
de bolo, excelente, e continuamos a lamentar... Monumentos a suas vitrias! Como se j no bastasse querer desposar a sobrinha-neta da rainha Maria Antonieta, Maria
Lusa, a Austraca, como ele, com elegncia, a chama, quer ainda ocupar o palcio.1 
* 1 Napoleo se casaria. de fato, ainda em 1810, com Maria Luisa de Habsburgo, filha do imperador da ustria, depois de anular o casamento com a primeira esposa, 
Josefina, com quem no tivera filhos. Nesse ano, o imprio napolenico, iniciado em 1804, estava em seu apogeu.*

Ele coloca seu N em tudo. Ordenou que gravassem a inicial em todos os fuzis de
caa de Lus XVI, logo ele, que no sabe a diferena entre uma caada a cavalo e uma caada ao coelho. "Quando se caam reis, no se caam cervos", ironizou o prncipe
de Ligne. Caso no consiga a irm do czar, pergunto-me se Viena aceitar semelhante horror, se o prncipe de Matternich vai entregar a pobre arquiduquesa ao carrasco
de seu pas. No inferno da guerra, diante da ameaa de bandos armados, da pilhagem, da banalizao dos estupros e dos assassinatos, a pretenso de Napoleo  legitimidade
 quase o que
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mais me choca... quase... pois o que realmente me choca, entristece, desola no est nas palavras indignadas que proferimos nem nas sesses de execrao a que nos
entregamos to regularmente. O que me aterra est naquilo que calamos. Na maneira hipcrita como obedecemos  ordem de silenciar a respeito de Lus XVI e Maria Antonieta,
em Viena e em todas as cortes estrangeiras. Mas  certamente aqui, em Viena, que a ordem  respeitada com mais rigor. Quem no se curva a esse absurdo e pronuncia
os nomes proibidos causa um terrvel incmodo. No que concerne ao pobre Lus XVI, o deslize  grave mas supervel; no caso de Maria Antonieta, no entanto,  imperdovel.
 em sua casa, em sua famlia, em sua cidade que a lembrana  mais ferozmente reprimida. E disso, dessa segunda morte, no se pode acusar Napoleo. Pelo contrrio...
Ns, com nossas lamrias ruidosas, contribumos com essa obra de anulao. Eu disse ruidosas?  exagero. Gostaria que ainda fssemos capazes disso.
Junto ao fogo, ainda h pouco, formvamos um semicrculo. Estvamos quase de braos dados, de tal maneira as poltronas estavam prximas. Enquanto falvamos da misria
de sobreviver entre escombros, uma amiga disse: "Sobrevivendo pelo menos ainda vivemos"; mas pronunciou as palavras to baixo que foi difcil acreditar... Mal chegramos
ao fim da tarde, quase noite. Era hora de os convidados voltarem para casa. Nesse momento, um grupo de crianas comeou a cantar no ptio. Suas vozes chegavam at
ns extraordinariamente claras. Cantavam com o mesmo vigor e a mesma alegria que empregavam ao correr ou ao patinar no gelo...
De novo sozinha, abri meu ltimo presente. Ele estava envolto em tantas camadas de papel que a princpio pensei ser apenas isso, uma superposio de papis coloridos.
Mas quando encontrei a caixinha de prata, uma maravilha se revelou. Tratava-se de um presente em forma de milagre: um pingente esmaltado em que estava pintado, em
miniatura, um olho azul ardente, quase turquesa,
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brilhante como uma gema; na pupila, uma nfima umidade, como uma gota de orvalho. Fechei a mo e deixei vir, a partir do azul dos olhos, o rosto inteiro da Rainha,
seu rosto para mim...
Um dos pactos de nossa comunidade de sobreviventes  no pronunciar nomes, e quando estou acompanhada tambm o respeito. Mas, sozinha, por que temer as palavras,
os fantasmas que ressuscitam e o desconhecido com que, s vezes, nos confrontamos?  verdade que no meu caso os fantasmas ocupam todos os espaos. Tanto na vida
real quanto nos sonhos, sejam estes novos ou recorrentes. Como naquele que chamo Sonho do Grande Degrau. Ele apresenta algumas variantes, especialmente em relao
aos rostos, que podem estar mais ou menos afastados; o conjunto geral, no entanto,  sempre o mesmo. De p, distribudos em amplos degraus, perfilam-se vrios personagens
da corte. As roupas so soberbas, mas to engomadas que impedem os movimentos. Alguns se apoiam em bengalas, outros no. No formam grupos. Cada personagem est
isolado, ligeiramente separado do vizinho. Todas as silhuetas so, portanto, absolutamente ntidas. Permanecem ali,  beira do nada. O Sonho do Grande Degrau me
assombra. Tenho a impresso de que seus personagens me esperam, que esto sempre por perto, invisveis, mudos - que eles so, de fato, reais, enquanto os poucos
sobreviventes que freqento constituem uma iluso. Seu olhar me oprime. Tento me distrair, bordo, escrevo cartas, leio jornais, livros, toda publicao em francs
que me cai nas mos, mas nada alivia a presso. Eles me esmagam com o peso de seu vazio. O Sonho do Grande Degrau tornou-se familiar sem que a insatisfao que o
acompanha se acalmasse. Pois os rostos so quase decifrveis, mas no completamente. Sei que os conheci, mas no consigo dar-lhes um nome.
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Vivi em Versalhes e era Leitora da rainha Maria Antonieta; ou melhor,
Leitora-Adjunta. Era uma funo bem modesta, que se tornara ainda mais simples pelo pouco interesse da Rainha pela leitura. Meu protetor, senhor de Montdragon,
chefe de mesa da corte, recebeu-me com extrema gentileza, sem deixar, no entanto, de me advertir. Foi num dia do fim de dezembro, um dia de pleno inverno como o
de hoje, mas sem neve. Havia uma luminosidade cortante, quase metlica. Os troncos negros das rvores se recortavam contra o cu muito azul. Dentro do palcio, aventurar-se
pelos espaos que separavam as lareiras acesas - e as zonas enfumaadas, irrespirveis e cegantes que elas produziam-era como ficar preso dentro de um bloco de gelo.
Quem no se mantinha em movimento corria o risco de morrer. Envolto em uma pelia de lobo, o senhor de Montdragon me examinou. Respondi  primeira pergunta timidamente,
sacudindo os dedos para evitar que eles adormecessem, e ele me julgou apta para a funo. "A senhora tem uma bela voz", disse, "bastante baixa e fcil de esquecer."
Um pouco depois, observando meu incmodo, acrescentou: "Vamos, cara senhora, esfregue as mos,  a maneira mais segura e franca de aquec-las". Ento pude me regozijar,
em silncio, com o fim da entrevista. Meu protetor explicou em que consistiam as obrigaes de Leitora-Adjunta da Rainha. "Resumindo, posso qualific-las como nulas.
A senhora sabe ler, ao menos?", perguntou-me de repente, tomado de preocupao. " bem verdade que de agora at que a Rainha a solicite a senhora teria tempo suficiente
para aprender, e mesmo que ela descobrisse que  analfabeta, com certeza no levaria a mal. Sua Majestade  infinitamente boa com todos  sua volta. Ningum imagina
at que ponto  capaz de exercer, em sua Casa, a virtude da pacincia... Quanto aos detalhes das obrigaes, a senhora de Neuilly, Leitora da Rainha, a instruir,
se puder, pois quando vem a Versalhes est sempre ocupadssima, como pode imaginar, com visitas, solicitaes..." Eu no imaginava nada. Tinha os olhos e o esprito
ofuscados pelo ouro ao meu redor. Parecia-me ter entrado no reino da Beleza. Agradeci
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ao senhor de Montdragon, ele deu por finda a entrevista. Sem perceber quanto Versalhes podia parecer algo do outro mundo para uma recm-chegada, deixou-me ali no
pequeno gabinete coberto de seda amarela. Perturbada pela timidez e ao mesmo tempo entusiasmada com o incrvel esplendor que se anunciava, permaneci sentada em um
sof, esperando. Aventurei-me, afinal, a sair, a dar alguns passos, e parei diante da porta envidraada de uma imensa galeria. A impresso de ter sido transportada
para um palcio todo de ouro e pedras preciosas se prolongava. Se me dissessem que as ardsias do telhado do Palcio de Versalhes eram, na verdade, placas de nix,
eu acreditaria...
Cheguei em 1778, ano da primeira gravidez da Rainha: a felicidade esperada havia oito anos e para a qual convergiam as oraes de todas as parquias, de todos os
conventos e do mais longnquo monastrio de Frana. Esse foi, aos olhos do povo, o ano de seu verdadeiro ingresso na realeza, a nica justificativa para o lugar
que ocupava. Como todo mundo, eu estava a par do feliz evento, e no ms da minha chegada - dezembro - a Rainha j estava no nono ms de gestao. Sabia tudo isso
e
tambm que, como Leitora, eu teria um dia a oportunidade de estar em sua presena. No entanto, a primeira viso que tive de Sua Majestade mergulhoume em incrvel
estado de xtase. Como se ela tivesse acontecido pelo maior dos acasos, contra todas as probabilidades.
A Rainha, imensa, enorme, trajava um amplo vestido de l branca e trazia a cabea estranhamente envolta em uma espcie de turbante de seda azul-vivo decorado com
camafeus e plumas de pavo; caminhava com passadas vigorosas  frente de um grupo de mulheres exaustas de tentar segui-la. Andava como se estivesse no campo, mas
como se encontrava em uma galeria fechada e seu ritmo era acelerado - algo que mais tarde descobri ter sido recomendado pelo mdico -, alcanava a outra extremidade
com apenas alguns passos, girava e retomava o percurso com a mesma avidez
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devoradora de espaos... A surpresa me deixou estatelada. Minhas
pernas tremeram, meu rosto pareceu ferver. A apario tinha um aspecto inaudito, um elemento fantstico que marcaria para sempre todas as imagens que a sucederam.
Pareceu-me ver uma chama em movimento.
Permaneci onze anos nesse palcio, "nesse canto", como diziam, sem nunca me habituar, mas incorporando sua estranheza como uma necessidade vital. Onze anos! Parecem
to distantes quando penso agora, tendo em vista tudo que me separa daquela poca: o rastro de sangue da Revoluo. Mas tambm bastante prximos, sem dvida porque
a vida ali no se assemelhava a nada. O tempo, puramente cerimonial, passava de forma prpria, segundo marcaes singulares. Sua verdadeira diviso no se dava em
termos de anos, meses ou semanas, mas de jornadas. Havia uma Jornada Perfeita, cujo transcorrer fora determinado mais de um sculo antes por Lus XIV: Oraes, Pequeno
Despertar, Grande Despertar, Missa, Almoo, Caa, Vsperas, Ceia, Grande Deitar, Pequeno Deitar, Oraes, Pequeno Despertar, Grande Despertar... Cada dia, desde
ento, devia repeti-la. Os dias se sucediam idnticos em Versalhes. No geral, essa era a Regra. Mas a realidade no cessava de trazer obstculos. A repetio nunca
se dava com completo sucesso. Estvamos condenados ao declnio. A vida em Versalhes s podia seguir se degradando... Das pequenas modificaes aos tropeos, das
reformas s subverses, at chegarmos aos dias de julho de 1789, que assistiram  capitulao do Rei e  disperso da corte - ao desmantelamento, em menos de uma
semana, de um conjunto de ritos que eu pensara definitivos. De qualquer maneira, aquela primeira viso da Rainha, que pintura alguma ou escultura de deusa foram
capazes de sobrepujar, transportou-me para um mundo eterno. Em Versalhes, os dias se sucediam e se pareciam. Era a Regra, e eu acreditei nela.
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No entanto, eu no era eu a nica obnubilada. Quando se dizia "corte", era da corte de Versalhes que se falava. Ela era o modelo para o qual todas as capitais -
So Petersburgo, Berlim, Roma, Londres, Madri, Varsvia, Viena etc. - tinham os olhos voltados. Ningum ignorava que, apesar dos esforos ruinosos para se secarem
os brejos, o Palcio de Versalhes fora construdo em local insalubre, e assim continuava. No se ignoravam as epidemias, as febres e o mau cheiro. Com o calor, este
se espalhava pelas salas. "Fenmeno completamente natural de exultao das cadeiras higinicas", dizia-se ao visitante de passagem, prestes a passar mal. E as mulheres
viravam a cabea, como as cabritas ao tentarem se livrar de algum liame. Para afastar o odor ftido, agitavam um pouco mais os leques. Exultao! As pessoas sufocavam!
E observavam com horror, na pele branca do colo de uma elegante dama, pstulas semeadas pelas picadas de insetos.
Maria Teresa, esposa de Lus XIV, engolia as aranhas que caam em seu chocolate quente.
Maria Leszczynska, esposa de Lus XV, esperneava, cercada por camundongos. No incio do casamento, seus gritinhos (a Rainha se empoleirava numa poltrona e se recusava
a descer) encantavam Lus XV. At que ele se cansou da pobre Maria e de seus temores e a abandonou, dando de ombros: "Estou lhe dizendo, senhora, no h o que fazer".
Maria Antonieta tinha particular horror s pulgas e aos percevejos. Empreendia contra eles uma batalha metdica, auxiliada por produtos que mandava vir de Viena
em cofrezinhos que mais pareciam tesouros. Tal pavor era posto na conta de suas extravagncias de estrangeira, como o hbito de se lavar antes de se maquiar...
Aceitvamos tudo calados: picadas, mordidas, espinhas, estados mrbidos, inchaos estranhos, tumores suspeitos. Agentvamos sem reclamar as mltiplas agresses
ao corpo, inclusive aquela que para mim era particularmente odiosa (embora a maioria dos cortesos no se incomodasse tanto), a inconcebvel populao de ratos,
que pululavam graas aos restos de alimentos esquecidos em
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todos os cmodos, atrs dos mveis, entre os lenis, ou que apodreciam
naturalmente nas despensas ou nos braseiros instalados nos vos das janelas e embaixo de escadas. Os ratos adoravam Versalhes.  noite, faziam uma barulheira
infernal e conquistavam certas dependncias, cujos soalhos e mveis devastavam... Podia-se tambm reclamar da asfixia; do lado de fora, por causa das emanaes vindas
do que sobrara dos pntanos; no interior, pela quantidade de gente apertada em espaos demasiado exguos. O Palcio de Versalhes era um bom exemplo de lugar sufocante.
Nenhum desses inconvenientes, no entanto, tinha importncia para ns e para o resto do mundo, que invejava nosso lar.
Estvamos em Versalhes.
Ali reinava a Fortuna; ali, por indicao de um ministro ou de um corteso, um destino podia ser revirado da noite para o dia. Tanto para o bem quanto para o mal.
Ali predominava a melhor inflexo, ali se faziam as melhores reverncias.
Ali se ditava a Moda. Pouco importava que as rendas fossem esburacadas pelos camundongos: os buracos passavam a ser considerados um ponto novo e criativo.
Ali, mesmo nas partes menos freqentadas do parque, na mais distante alia, na orla de um bosque, um detalhe de beleza sempre podia surgir: o convite ambguo de
uma esttua, uma braada de flores e um vaso de frutas esculpidos na pedra, recortados contra o cu.
Ali, sobretudo, vivia a Rainha.
Certas manhs, na semiconscincia que precede o despertar, enquanto posso fazer perdurar esse estado de suave confuso, finjo que ainda estou l, tenho a impresso
de encostar o dedo na parede do quarto, revirar na cama, sentir de novo o espesso volume do cabelo contra o travesseiro, e imagino que ela respira, alguns quartos
alm do meu.
O encanto de Versalhes me subjugava. E no s a mim. Sem dvida no era mais o lugar sagrado que fora quando Lus XIV
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empunhava o cetro. Mas Versalhes continuava a fascinar. Em qualquer canto, bastava iniciar uma frase por "Estive na corte..." para todos reterem a respirao, olhar
de forma diferente. Hoje ningum imagina a que ponto o amor-prprio podia ser ferido "nesse canto". A humilhao que representava para um corteso a constatao
de que no seria chamado para a Ceia do Rei no Pequeno Gabinete, aps ter esperado horas em uma antecmara. Sua vergonha era palpvel. Eu a podia ler no rosto e
no caminhar dos que eram dispensados e voltavam aos coches pelos ptios internos para escapar dos olhares. O que no via era a alegria com que os escolhidos cruzavam
a porta entreaberta para penetrar no santurio. Mas podia imagin-la... E mesmo depois, durante o Consulado, quando a corte se juntava em torno de Josefina, e Bonaparte
se apresentava como um republicano modelo, mesmo assim a paixo por Versalhes no se extinguira. To logo as noitadas oficiais terminavam, conferiam se as portas
estavam bem fechadas e diziam entre si: "Falemos da antiga corte, vamos dar uma volta por Versalhes, conte-nos, senhor de Montesquiou, lembre para ns, senhor de
Talleyrand...". E os mais moos aproximavam as cadeiras para ouvir as histrias... Da mesma maneira que ns, aqui.
 essa magia que desejo lembrar e assinalar, enquanto certa propaganda procura estigmatizar Versalhes como um poo sem fundo de despesas inteis, um teatro morto,
uma paisagem de poeira e cinzas, j obscurecida pelo pressentimento do fim. Marionetes com cabeas empoadas, velhotes, fantoches fadados a desaparecer... Do ponto
de vista dos vencedores, os derrotados no tinham uma existncia digna de seu nome, nenhum futuro. A arrogncia dos jovens seria comovente se no desembocasse com
tanta facilidade na violncia.
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Estou convencida - e no sero as ltimas imagens que levo deste
mundo que vo me persuadir do contrrio - de que a humanidade no progride. Ela apenas dispe as coisas de outra forma, a partir de convenincias e aspiraes diferentes.
O sistema de castas tinha defeitos, mas o modelo da opresso pelo dinheiro no me parece melhor. Essa obsesso de enriquecer... Agora existem bancos. Ao que parece, 
so pequenas fortalezas situadas no centro de certas capitais, mas que, vistas de fora, em nada se distinguem de uma casa normal.  curioso tentar imaginar. Sem 
dvida j vi bancos sem saber o que eram... Meus pais eram pobres. Quando minha me, sem sombra de reprovao e movida to-somente pela preocupao de conservar 
vivos alguns dos filhos, atrevia-se a mostrar a meu pai a penria da famlia, ele, que era piedoso e nos amava, sorria. Desviando os olhos de nossa misria, dirigia-os 
a uma lucarna e dizia: "A vida  mais do que comida e o corpo, mais do que roupas. Olhem os pssaros no cu: no semeiam, no colhem, no juntam em celeiros, e o 
Pai celeste os nutre! No valem vocs muito mais? E por que se preocupar com vesturio? Observem como crescem os lrios-do-campo: no labutam nem fiam". Minha me 
tambm olhou pela janela sem vidros. Tinha o mesmo sorriso... Os lrios-do-campo so pisoteados e repisoteados pelos soldados. Se existe algum progresso em nossos 
dias, ele se limita s armas. Mata-se mais rpido e em maior quantidade... Houve quarenta mil mortos apenas na batalha de Essling, quarenta mil mortos em trinta 
horas de combate! O esprito vacila. Sim, as mquinas de matar se aperfeioam. Afora isso, no vejo o que...
O Palcio de Versalhes, smbolo sagrado, alvo de tantos desejos, foi abandonado em julho de 1789, diante das primeiras ameaas. Tudo se passou muito rpido. Louis 
Sbastien Mercier, um democrata parisiense, com o agravante de ser tambm homem de teatro, mas de esprito honesto, desses tomados por intuies acertadas, escreveu: 
"A Revoluo podia ter terminado em 18 de julho, quando
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Lus XVI assumiu e beijou a insgnia nacional na varanda da Cmara Municipal". Devo concordar que ele tem razo. Tudo foi decidido entre o sbado, 11 de julho, data
da demisso de Necker, e a sexta-feira 17, dia da chegada do Rei a Paris e da negao da realeza. Em 16 de julho, o governo Breteuil foi destitudo e Necker chamado
de volta. No mesmo dia, a corte fugiu... Tarde demais Lus XVI compreendeu que a derrota era irremedivel. Em 1792, ele confessou ao conde de Fersen: "Devia ter
partido em 14 de julho. Deixei passar o bom momento e ele nunca mais se apresentou".2 
* 2 Sem dvida, Lus XVI no percebeu a dimenso do processo revolucionrio iniciado em 1789. Com o xodo da nobreza, ele se manteve no trono, mas se recusou a sancionar 
a Constituio de 1791, fugindo, afinal, com toda a famlia real, em junho desse ano, em direo  Alemanha. Preso em Varennes, na estrada para Metz, foi levado 
de volta a Paris e acabou jurando fidelidade  Constituio. Uma insurreio em 10 de agosto de 1792 derrubou a monarquia, e a Conveno Nacional, republicana, condenou 
o casal real  morte. Foram ambos guilhotinados em 1793 (em 21 de janeiro e 16 de outubro, respectivamente). As execues provocaram uma coalizo europia contra 
a Frana revolucionria, em que comearia a brilhar a estrela de Napoleo Bonaparte.*
 
De fato, no houve mais oportunidade, mas os que estavam  sua volta perceberam
rapidamente o que estava acontecendo. A corte, os amigos, os parentes se dispersaram num piscar de olhos. Os prncipes e os cortesos partiram para Londres, Turim,
Roma, Basilia, Lausanne, Luxemburgo, Bruxelas... Eu mesma fui levada de roldo nessa debandada. Parti sem pensar, sem perguntar o que fazia. Apenas obedeci... sem
dvida... Isso serve de consolo? "As cerimnias do Deitar do Rei andam bem desertas", queixara-se a Rainha. De repente, o palcio inteiro ficou deserto. Abandonamos
o navio nos primeiros estalidos. Fugimos.

Gostaria de relatar essa derrota to rpida, total, mas secreta. Uma derrota, de certa maneira, amortecida... Um silncio consternado, alguns apartes, ordens, gentis-homens
que se disfaravam de criados e coches a galope pelos caminhos. No havia lua na noite de
16 de julho de 1789, e, quando me voltei para Versalhes, o palcio havia desaparecido, escondido pela floresta ainda mais escura que o cu... Gostaria de contar
essa histria de desero. Para acalmar os intrusos de minhas noites e suavizar o isolamento em meu quarto, este reduto de silncio, de viglia e de escrita do qual
nunca me ausento e que chamo, em meus momentos, Palcio de Solido. Hei de acolher tudo que me vier  lembrana, fragmentos de um mundo nufrago que no destruirei
uma segunda vez, com uma rasura. No cesso de virar e revirar certos fatos, de metamorfose-los ao
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sabor de meus devaneios, enquanto outros, talvez mais essenciais,
se apagam. Tenho a seguinte desculpa: falo de muito tempo atrs - de um tempo que no levou a nada e muito menos a este sinistro sculo XIX, do qual, por simplismo
numrico e artifcio retrospectivo, ficou reduzido a simples antecmara.

Versalhes, 14 de julho de 1789

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A PRIMEIRA MISSA (SEIS HORAS DA MANH)

A manh estava bastante fria para um ms de julho,  o que eu me dizia, acho, em cima de um escabelo, com a cabea enfiada pela janela em mansarda do meu quarto,
perscrutando o cu chuvoso. Vesti-me rapidamente. Calcei meias de inverno e coloquei, por cima da saia de algodo espesso com que havia dormido, um vestido roxo-escuro,
quase negro. Acrescentei um casaco cinzento e um fular e peguei um guarda-chuva grande. No precisava me preocupar com o missal, que estava sempre no bolso do vestido;
ele s se deslocava quando a roupa era trocada. Apressei-me na direo da igreja de Saint-Louis, para a primeira missa. Conhecia o caminho de cor, mas mesmo assim
me perdi; continuei pela rua de la Chancellerie em vez de virar  direita na rua ds Rcollets. Um erro pequeno no que dizia respeito  distncia, mas ao me aproximar
do mercado percebi sua gravidade. Um grupo de miserveis vegetava por ali, em meio  podrido e  sujeira. Gente disposta a tudo para melhorar o cotidiano constitudo
de dejetos e imundcies que nem os ces comeriam; acontecia de brigarem pelo leo em que se embebiam as mechas dos lampies de rua. No os podia ver, mas os pressentia, 
amontoados junto s barracas, espalhados, enfiados em tudo que pudesse servir de abrigo, ou simplesmente caindo de bbados  beira do regato. Andei o mais rpido 
que pude. Escorreguei em algo que me pareceu serem cascas de legumes e soltei a orla do vestido, que, demasiado longo, se enlameou na horrvel mistura de detritos
e sangue que banhava aquele aglomerado de barracas. Bem prximo de mim algo se mexeu, ouvi um roa-roa e vozes baixas de homens. Eu deveria ter tomado mais cuidado
e no atravessar sozinha, numa infindvel manh cinzenta, aquele trecho malfadado do Parque dos Veados.
Quando alcancei a igreja de Saint-Louis, tinha o corao disparado e me entreguei com fervor s rezas. Recomendavam-nos muitas oraes pela salvao do reino e pela 
alma do Delfim, aquela pobre criana morta no dia 4 de junho. O Rei havia encomendado
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mil missas pela alma do filho. Eu rezava exaltada, com o confuso sentimento de haver uma ligao entre a morte do filho mais velho do Rei e algo inquietador que
ameaava a Frana. Apesar do horrio matinal, a igreja estava cheia. Ao longo das fileiras, silhuetas escuras, ajoelhadas, falavam em voz baixa. Os crios iluminavam
o local; era deles, e no dos vitrais, que vinha um pouco de luz. O padre subiu ao plpito. No era o padre Jean-Henri Gryer, proco de Saint-Louis, mas o reverendo
Bergier, confessor da Rainha, do conde de Provena, irmo do Rei, e de sua esposa. Quanto no sabia-e calava-esse padre! Eu tentava distinguir em suas palavras uma
outra mensagem, sutil, que indiretamente revelasse o que escutara em segredo de confisso. Mas ele,  claro, nada deixava passar. Em seu tom seco e excepcionalmente
modesto, fez a apologia de So Boaventura, cuja festa acontece em 14 de julho.
Para voltar ao palcio, peguei o caminho certo, ao longo da Horta do Rei e depois pela rua de la Surintendance. O trajeto parecia mais seguro, mas na verdade abalou-me
ainda mais. Nessa parte antiga, onde nasceu o vilarejo de Versalhes, haviam agora se instalado muitos deputados do terceiro estado.3 
* 3 No Antigo Regime, anterior  Revoluo, era a categoria social que englobava quem no pertencia  nobreza nem ao clero, ou seja, o povo.*

A perspectiva de cruzar com
aqueles
homens em seus trajes tristes, que falavam entre si como se brigassem, no era nada atraente. No entanto, controlei a apreenso e consegui percorrer toda a rua sem
nada ver. Somente quando alcancei a primeira grade do palcio senti-me segura o bastante e recobrei o sentido da viso. Estava acontecendo a troca da guarda no Ptio
Real. Acompanhei, cantarolando, a msica das trombetas e dos tambores; peguei de passagem uma jarra de gua no sto de Alice, a jovem camareira da senhora de Bargue
(que tinha a sorte de ter uma fonte em seus aposentos), e cheguei ao meu quarto para uma grande toalete. Troquei as meias de l por outras de filosela e o falar
por um xale escocs preto-e-branco. Penteei-me com esmero. Queria tambm ordenar melhor as leituras que selecionara para a Rainha. Na vspera eu havia sido prevenida
de que ela me solicitaria nesse dia.
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SESSO DE LEITURA NO PETIT TRIANON: FLICIE, DE MARIVAUX, FLORES E LUARES DE VERO, A RAINHA E O "CADERNO DE ADORNOS" (DAS DEZ S ONZE HORAS DA MANH)

A Rainha havia dormido no Petit Trianon, embora as teras-feiras fossem tradicionalmente reservadas  visita dos embaixadores, o que implicava em sua presena no
palcio. Aparentemente, no entanto, ou no haveria visita dos embaixadores ou a Rainha no se sentia disposta a receb-los... Devia dirigir-me diretamente a seu
quarto. Para mim, isso era uma alegria. Na privacidade eu conseguia prender mais sua ateno. Era evidente que se sentia mais feliz no Petit Trianon do que no Palcio
de Versalhes. Em Trianon, percebia um bom humor e uma gentileza particulares no gesto com que acenava para que eu me sentasse. No palcio, as sesses matinais de
leitura se davam pouco antes das visitas para o Grande Despertar. Em geral, a Rainha ainda estava em trajes ntimos, sentada no leito imenso e teatral. Acenou-me
para que atravessasse o cercado; eu abri a portinhola e me sentei em um tamborete estreito,  direita da cama. Podia sentir que estava angustiada, mal desperta
e completamente desatenta. Em pensamento,  provvel que j estivesse mergulhada na primeira cerimnia do dia. Um pouco da imagem rgida, segura, distante e voluntariosa
que ela se propunha representar comeava a ganhar terreno. Era como se as fileiras de cadeiras e de banquetas de armar, dispostas com antecedncia para as damas
que viriam assistir a seu Despertar, a vigiassem; era como se os olhos do pblico j a observassem e julgassem seu desempenho. No palcio, as sesses de leitura
eram sempre apressadas, oficiais, impostas. Indispunham a Rainha e faziam-me sentir miservel por dentro. Todavia, no Petit Trianon, o "buqu de flores" que o Rei
lhe ofertara, tudo se passava de outra forma. De fato, o senhor de Montdragon me dissera que a caracterstica que predominava na proximidade da Rainha, na atmosfera
de sua Casa, era a da suavidade. Quem conhecia tambm a Casa de Monsieur4 e de Madame e tambm a do conde de Artois
* 4 No caso, o conde de Provena. O tratamento se tornou comum e passou a ser empregado para todos os homens, mas no incio era um ttulo concedido aos senhores 
de classe elevada. Em sentido absoluto, "monsieur" referia-se especificamente ao irmo caula do rei.* 
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ou de sua mulher, percebia a diferena. Em seus domnios, a Rainha evitava dar ordens. Ela sugeria, indicava, pedia cada coisa como um favor que se podia lhe prestar
e pelo qual seria infinitamente grata. Era dona de perfeita polidez com o menor de seus servidores e jamais se mostrava impaciente ou rude. Maternal e facilmente 
brincalhona com seus jovens pajens, falava com criadas em tom de amizade e at de cumplicidade. Seria uma vontade de aproximao, um intervalo de esquecimento do 
que representava? De forma alguma, e, alis, ningum se equivocava, mas era nessa toada afetiva, afetuosa, que desejava viver. A suavidade que demonstrava nos gestos, 
no tom de voz e no modo como se relacionava com os outros era um prolongamento da extrema elegncia de tudo que a cercava - trajes, mveis, objetos de decorao. 
Quando cheguei a Versalhes, acreditei entrar no reino da Beleza. Aprendi, ao conhecer os domnios da Rainha, que essa beleza podia assumir aspecto mais pessoal, 
sutil, delicado.
Minha visita era esperada. Subi a escada de mrmore que levava ao primeiro andar, onde se situava o quarto. Ainda me lembro da curva da escada, dos vasos de faiana 
azul e branca pousados nos degraus e cuja viso me enchia de vontade de ir um dia  Holanda (adoro os moinhos de vento), o corredor um tanto estreito, que faria 
duas pessoas se esbarrarem ao se cruzar, as portas em que estavam escritos com giz - como nas vilegiaturas em Marly, Fontainebleau e Saint-Cloud, quando se instalavam 
em alojamentos requisitados aos moradores aqueles que no tinham conseguido lugar no palcio - os nomes dos raros amigos estimados, dignos de passar a noite no Petit 
Trianon. Havia tambm, nos cantos, cubculos improvisados para os criados, com tbuas sobre as quais punham um magro colcho, que era enrolado e escondido to logo 
acordassem. No Petit Trianon, como no Grand Trianon e no palcio, o dia apagava os vestgios da noite. Mas no em seu quarto, no no territrio privado que ela marcava
com sua doura, com seu
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perfume. Ali, noite e dia misturavam-se, prolongavam-se, entrecruzavam-se.
Isso era verdadeiro sobretudo no quarto do Petit Trianon, um ambiente muito particular que em nada se parecia a um cenrio oficial. Ele dava para um
brejo e para o Templo do Amor, que escondia parcialmente o primeiro plano de uma pequena floresta de canios. Floresta? Assim ela chamava aquela dezena de canios
cujos sons eram, para mim, responsveis pelo encanto do quarto do Petit Trianon. Som de gua, dos canios, das canes das rendeiras, costureiras, fiandeiras e passadeiras 
que trabalhavam na rea de servio e que a Rainha gostava de ouvir. Do que eu me lembro, essa era a verdadeira msica do Petit Trianon e no a dos numerosos concertos 
que ali se sucediam. Era a msica do jardim e das vozes de mulheres. E quanto aos perfumes? Vm de fora, como a msica. So leves e mudam, na primavera, com as floraes 
do jardim. Mas h um que persiste e atravessa, idntico, todas as estaes do ano: o do caf trazido  Rainha para o desjejum. Quando eu chegava na hora em que ele 
estava sendo servido, ela acenava para que me oferecessem. E o sabor desse caf escuro e fortssimo, que tinha para ela o gosto do despertar, unia-se em minha garganta 
ao gosto de minha prpria vida. Pensando bem, havia outro perfume, com aroma forte e suave, ainda mais marcante em minhas visitas ao Petit Trianon. Mas receava respir-lo, 
tal a proximidade com o corpo da Rainha e os cuidados que ela lhe dedicava. Era o de uma pomada de flor de jasmim que ela passava na raiz do cabelo. A pomada tinha 
o mrito de impedir-lhe a queda e at mesmo faz-lo crescer. Toda mulher desejava obt-la, mas o senhor Fargeon, do Cygne des Parfums, em Montpellier, fervorosamente
garantia a exclusividade para a Rainha.
Quando me permitiram entrar, a Rainha tomava caf. O fundo branco e florido da tapearia do quarto, os enormes buqus de dlias em vasos de cristal, a transparncia
dos vus finamente bordados, tudo levava a esquecer o dia cinzento. No entanto, nada disso teria tido efeito sobre mim sem o charme de seu sorriso, um sorriso que
era apenas um esboo quando entrei, mas que, ao me aprumar aps
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a reverncia, tingiu com o mais vivaz dourado a forrao das paredes, as divisrias, os tapetes, os espelhos, a escrivaninha, o cravo e at mesmo as malvas-rosas,
ajuntadas em braadas ao redor das cortinas entreabertas do leito.
Que delicadeza a sua de fazer a viagem at Trianon para ler
para mim. E to cedo! Como agradecer?
- Faria viagens muito maiores se fosse esse o desejo de Vossa Majestade, e com igual urgncia.
- Bem sei que a senhora  totalmente devotada. E  um grande conforto ter tantas pessoas de boa vontade a me prestar servios.
A camareira estendeu-me uma xcara de caf. Emocionada, engoli-o quente demais. A mesa estava pronta, assim como o tamborete em que, aps um sinal, me sentei. Minha
garganta queimava. Comecei mal, com a voz sem dvida mais rouca que o normal, o que me ps pouco  vontade. Tinha pensado em ler primeiro algo leve como A vida de
Marianne, pois a Rainha gostava de Marivaux;5 em seguida continuaria com um relato de viagem e, para terminar, algumas pginas de um texto piedoso (trechos dos sermes
de Bossuet ou das oraes fnebres de Flchier), que a Rainha ouvia desde que chegara a Versalhes, obedecendo s recomendaes da me, a imperatriz Maria Teresa.
* 5 Marivaux, morto em 1763, era benquisto na corte, sobretudo por suas peas de teatro. Criou-se a expresso "marivaudage" para designar sua frmula de sucesso, 
que girava em torno das ambigidades das relaes. A vida de Marianne  a autobiografia de uma rf pobre que se eleva  condio de grande dama depois de passar 
por vrias mazelas. Voltaire o ironizou, mas o romance  um marco para o que viria a ser o realismo psicolgico.*

A Imperatriz morrera havia nove anos, mas eu observava que suas ordens, ao invs de perderem fora, mais se fortaleciam. A Rainha as obedecia, mesmo que desse mostras
de faz-lo contra a vontade.
Na mesma frase em que elogiou minha excelente escolha, a Rainha disse que, j que para mim sem dvida no fazia diferena, preferia uma pea de teatro. Marivaux,
justamente, mas no A vida de Marianne e sim Flicie, pea bem curta e agradvel, verdadeiramente mgica. Ela compreendia melhor o teatro que os romances. Os personagens
do teatro tinham uma presena que os dos romances no alcanavam. Para mim, fazia diferena. Tudo que lhe dizia respeito fazia diferena. Mas no ousei dizer. Confusa
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e ruborizada, fui buscar na biblioteca o volume pedido. Recusara os textos que eu preparara; senti-me ofendida. Ao mesmo tempo, estava orgulhosa de ler uma pea
de teatro com ela, fazer-lhe as rplicas. Era uma boa maneira de penetrar naquele templo de intimidade, o lugar secreto por excelncia, que era a sala de teatro
do Petit Trianon. Tentei imaginar o azul das poltronas de veludo,  a fragilidade dos ornamentos em papel mach azul e dourado. Eu o imaginava como um teatro de
bonecas, na medida da paixo da Rainha pelo minsculo, por redues,  por miniaturas, por tudo que fosse pequeno. Pequeno. Ela pronunciava essa palavra de maneira
deliciosa, endurecendo muito a primeira slaba e fundindo o restante num suspiro, como se a boca abarcasse o ar. Pequeno, tudo que diz respeito a Marianne  pequeno
(por exemplo, a Rainha gostava de me ouvir ler: "Pulo toda a educao que recebi na primeira infncia, tempo em que aprendi a fazer no sei quantas roupinhas de
mulher...") mas havia recusado A vida de Marianne. Pegamos Flicie. A Rainha era a fada. Eu representava Flicie, a mocinha. Comecei:
"FLICIE: Reconheo que faz belssimo dia.
HORTENSE (a fada): Tambm passeamos h bastante tempo.
FLICIE: E o prazer de vossa companhia, que sempre foi grande, nunca se fez sentir to sensivelmente.
HORTENSE: Acho que me amais de fato, Flicie."
Enquanto eu respondia com toda a minha alma e um ardor que tentava controlar, percebi que a Rainha lia de forma monocrdia. Pronunciava as palavras sem qualquer
entonao. Lia os trechos com os olhos cerrados, aparncia concentrada, como se estudasse verbos irregulares. Esquecera-se completamente de mim. Entregue ao esforo
de memorizao, murmurava as palavras para si mesma. Calei-me. Em seguida, novamente se ps a falar em voz alta e retomamos o texto...
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A fada perguntava  mocinha com qual dom queria ser agraciada. "A beleza", ela respondeu. A fada lhe concedeu e Flicie se extasiou.
"HORTENSE: Vs vos alegrais, mas talvez vos devsseis preocupar.
FLICIE: Vamos, senhora, no tereis com que vos arrepender.
HORTENSE: Assim espero, mas  ddiva  que vos acabo de conceder quero acrescentar ainda uma coisa. Seguireis no mundo e quero vos tornar feliz. E para poder
assegurar o tipo de felicidade que melhor  vos convm, preciso conhecer a fundo vossas inclinaes. Vedes o lugar em que estamos?  o mundo.
FLICIE: O mundo! Pensei que estivssemos ainda em nossa terra."
Nesse ponto a Rainha quis parar. Tinha visto, junto aos livros que eu colocara na mesa, o ltimo nmero do Magazine das Novas Modas Francesas e Inglesas. Era a
leitura que queria. Tratava de gorros e acessrios para grandes trajes de corte:
"Os vestidos so guarnecidos com fios entrelaados de ouro ou de prata, mas os ornamentos preferidos hoje em dia so os acessrios em tule ou fil, com guirlandas
de flores variadas, unidas com presilhas em forma de lagos de amor". Devo ter usado um tom levemente interrogativo, pois a Rainha me ordenou, descontente, que prosseguisse.
"Acrescentam-se borlas  chinesa ou cornucpias de flores e frutas midas sobre o fundo do tecido. Os vestidos tambm podem ser guarnecidos, quando o fundo  liso,
com flores e plantas como girassis, lrios, jacintos, junquilhos,pilriteiros." Ela estava extasiada. Mas foi no captulo dos bordados que sua respirao pareceu
suspensa: "Dos peitilhos de cambraia bordada em diversas cores nossas damas rapidamente passaram para os vestidos bordados. Essa moda dos bordados  por demais agradvel
para que no se dediquem a aperfeio-la".
Os bordados eram a grande inovao daquele ms de julho. Como que tomada por sbita inspirao, a Rainha endireitou-se nos travesseiros com um vigor que no vinha
demonstrando ultimamente. Pediu o "Caderno de adornos". A sesso chegara ao fim
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e ela passava agora para a alada de Rose Bertin. Enquanto eu juntava e arrumava em minha grande sacola de pano os volumes que trouxera, a Rainha j mergulhava na
contemplao do precioso "Caderno". Com os olhos pregados nas amostras de tecido coladas nas pginas, ausentava-se do mundo. Escolhia seus vestidos. Era como se
em seu insacivel desejo por sedas, veludos, tecidos estampados e panos fabulosos inventados para ela, o sentido da viso no lhe bastasse e precisasse acariciar-lhes
com os dedos, senti-los em contato com a pele, com o olhar vazio, em devaneio. Distrada, tirou o gorro rendado de dormir. O cabelo delicado, muito louro, espalhou-se
como nuvem sobre o travesseiro, enquanto um forte aroma de jasmim invadiu o quarto. Um dos ombros desnudou-se. Eu permanecia imvel, subjugada... Simplesmente no
conseguia ir embora. No sei bem o que queria da Rainha, mas queria sempre mais. Forcei-me, afinal, a sair, mas antes a olhei pela ltima vez: ela escrutava, completamente
absorta, seus pedacinhos de pano. Parecia de novo ter quinze anos, idade com que fora para a Frana. Quinze anos... se no menos.

ALMOO EM PEQUENA VENEZA (UMA HORA DA TARDE)

Fui almoar  beira da gua, numa daquelas tabernas instaladas ao longo do brao norte do Canal Grande, em falsos vilarejos de pescadores que, depois do rei Lus
XIV, se perpetuaram e passaram a ser chamados Pequena Veneza. Camponeses vestidos como marinheiros (quando no estavam a representar a farsa da vida marinha, cultivavam
os campos) serviam peixes, transportados a toda a brida dos portos da Mancha. Perguntei a um deles se a pesca fora boa. Lanou-se numa narrativa sobre pontos perigosos,
mudanas bruscas de vento, um naufrgio evitado por um triz. Havia outros clientes na varanda da taberna, alguns dos quais eu conhecia de vista. Divertiram-se com
a histria da tempestade em mar alto e entraram
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no jogo com a facilidade prpria dos moradores do palcio, que passam da realidade para a fico num timo de segundo.
- E agora? - perguntei depois de terminar o almoo, aprontando-me para ir embora.-Seria imprudente ir ao mar?
Apontei para a calma superfcie do canal.
- Um pouco, mas posso chamar um marinheiro experiente, velho lobo do mar que j passou por maus bocados.
Um jovem gondoleiro apareceu e eu tomei lugar na banqueta coberta por um tecido mido. O rapaz vinha de uma famlia veneziana instalada em Pequena Veneza havia mais
de um sculo, os Palmerini. Conhecia toda a histria da frota do Canal Grande, mas eu no tinha mais vontade de ouvi-la. "Prefiro que cante uma cano." Ele comeou
uma, em italiano, e logo o triste tom cinzento do cu quase invernal clareou. Afastei-me assim de Trianon e cheguei  outra margem do canal, do lado da Mnagerie.6
* 6 Outro palcio dentro do Parque de Versalhes. O termo "mnagerie" significa "lugar onde se guardam animais exticos".* 

No era o que eu havia realmente planejado, mas no me incomodei, pelo contrrio. O senhor de Laroche, seu Capito-Guardio, era uma pessoa pitoresca. Alm disso,
era para mim uma presena amiga. E eu estava inteiramente predisposta, na tarde ociosa, a uma visita cordial.

VISITA AO CAPITO DE LAROCHE, CAPITO-GUARDIO DA MNAGERIE: "NO FALEMOS MAIS DISSO" (DAS DUAS S QUATRO HORAS DA TARDE)

No havia em lugar nenhum algum como o capito de Laroche. Ele era sem dvida o fenmeno da Mnagerie, e no resisto  tentao de descrev-lo. Fingamos observar
os animais, mas era a ele que, na verdade, amos ver... guardada a devida distncia. Era prefervel estar com ele ao ar livre.
Grande, moreno, de boa figura, sempre agaloado e com fitas honorficas, coberto de anis e de diamantes como um financista, Laroche era o ser mais ftido que se
possa imaginar. Era possvel
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detectar sua presena de olhos fechados, a vrios passos de distncia. Ele fedia como um rebanho de bodes, como um amontoado de porcas na pocilga, como javalis no
lameiro. Comparado a ele, o trecho pantanoso do parque conhecido como "lago fedorento" era um blsamo. Aparentado ao rico e antigo ramo provenal dos Moizade, de
incio seguiu a tradio familiar, voltada  carreira diplomtica.
A Frana teria perdido todos os aliados. O fedor de Laroche caa como uma bomba. Era preciso se afastar rpido ou vomitar. Aquilo que na juventude j era pavoroso
assumiu propores descomunais com o passar dos anos. No dia de sua apresentao, tendo fracassado o projeto de agarr-lo  fora e dar-lhe um banho (ele quebrou
o brao de um criado e partiu em pedaos a dentadura de outro), contentaram-se em aspergir-lhe barricas de perfume e enfiar-lhe nos ps um grosso par de sapatos,
na v esperana de conter-lhe a pestilncia. O choque entre seu odor pessoal e esses perfumes foi de estarrecer. Quando entrou o "debutante", o Rei (que nessa poca
era Lus XV) deu um passo para trs e se desviou, bem no momento em que o jovem, ainda agitado pelos entreveros por que acabara de passar, estendia a face direita
para a saudao ritual. Ele comprimiu entre as mos o belo rosto, num gesto costumeiro, mas que naquele dia anunciava, alm de uma crise de melancolia particularmente
tenaz, uma formidvel enxaqueca. Para que o incidente no se repetisse e para no ferir a suscetibilidade de uma famlia prestigiada na corte, algum teve a idia
de estabelec-lo na Mnagerie, onde, esperava-se, as emanaes do jovem Laroche se misturariam com as das grandes feras. Foi nomeado Capito-Guardio da Mnagerie
de Versalhes - posto cobiado porque, alm de as tarefas implicadas no serem extenuantes, dava o direito e at mesmo o dever de se alojar no pequeno palcio octadrico
construdo por Mansart sob as diretrizes de Lus XIV. Ao que dizem, antes da
chegada do capito, a Mnagerie, edificada na extremidade de um dos braos do canal,
do outro lado do Grand Trianon, era um local agradabilssimo. Havia no trreo um grande salo com um embrechado perpetuamente refrescado pelo regatozinho que corria
entre
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as plantas. Era o lugar ideal para encontros em dias quentes e fins de tarde tempestuosos, to freqentes em Versalhes. Conversava-se, jogavam-se charadas e adivinhaes
e dizia-se no haver lugar como aquele - com o rudo da gua nos ouvidos e a maciez do musgo recobrindo as paredes irregulares tal qual uma tapearia - para que
o esprito flusse e se expandisse de felicidade. Laroche pusera fim  diverso. Como Versalhes estava constantemente superpovoado, sempre havia, apesar de tudo,
quem viesse se hospedar ali. Mas, de um lado, s aceitavam se fosse por perodos curtos; de outro, procuravam instalar-se no no palacete da Mnagerie, mas em pequenos
pavilhes contguos; ou seja, procuravam estar o mais longe possvel do covil do capito. Creio me lembrar que naquele ms de julho estavam hospedados o senhor de
Lally, a senhora de Gouvernet e uma tia. Quando cheguei e pus os ps em terra firme, no encontrei nenhuma dessas pessoas. Vi apenas o Capito-Guardio. Postado
na entrada de seus domnios, sob uma arcada de buxo. Fumava um cachimbo. Como sempre, estava cheio de energia, que lhe advinha, segundo ele, dos hbitos de higiene,
pois "a cada vez que nos lavamos, perdemos um pouco de ns". Seus anis projetavam fulgores mais luminosos que as mornas cores do cu. A seu modo, Laroche era um
sol. Estava convencido disso, mas no cometia o pecado do orgulho, pois era um vassalo sincera e fanaticamente fiel a Lus XVI, cujas cerimnias do Deitar muitas
vezes alegrou.
- Bom dia, bela amiga-saudou de longe.-Veio pedir notcias do avestruz? Tambm os patos no vo nada bem... mas com eles  normal, a gua de Versalhes  pssima.
Eu no tinha mais idade, mesmo em 1789, para ser chamada "bela amiga", mas era esse o tom entre mim e Laroche. Conhecia sua galantaria inocente e - por que esconder?
- no posso dizer que a proibia, embora jamais a tenha incentivado.
Ao mesmo tempo em que o embrechado do salo ressecava, matando o esprito das reunies, do lado de fora definhavam os
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habitantes do lugar. Laroche era um sol... e um flagelo. Primeiro foi o elefante que se afogou em um laguinho. Quase uma poa. Como o acidente era surpreendente,
revelou-se, aps rpida percia, que a vtima estava bbada quando
tombou para no mais se levantar. Segundo Laroche, que lamentou muito a perda de um de seus animais favoritos, o elefante precisava de cinco litros dirios de vinho
da Borgonha. Naquele dia, ele os havia bebido rpido demais e em pleno sol. Laroche chorou muito. O que no contou foi que, a partir da, outorgou para si o direito
sobre as cinco garrafas de vinho! O elefante morrera, aquele gigante to delicado, to expansivo, terno, inteligente! Um animal que tem "o nariz na mo", gostava
de repetir o capito, citando o senhor de Buffon, a quem admirava. Alis, se tantas vezes era visto a deambular em torno da entrada do Gabinete do Rei, era pelo
prazer de entrever a esttua de Buffon que havia ali (de incio no pensara ser uma esttua, mas o prprio Buffon, empalhado!).
Depois do elefante foi o leo que comeou a perder a juba e a se sentir mal. O leo era menos terno que o elefante, mas prestigioso. Fora-nos mandado com grande
pompa pelo Senegal, presente de seu Mui Selvagem Rei ao homlogo Mui Cristo. Estendera-se para ele, tratado ao mesmo tempo como embaixador e cativo, um tapete vermelho
que abria caminho desde a grande escadaria de mrmore at o Salo de Apoio, onde o Rei, na ocasio, mandara colocar o trono. O leo chegou trancado em uma jaula
incrustada com pedras preciosas, arrastada por trs escravas mais negras do que po queimado. A primeira trazia um bilhete do rei de seu pas alfinetado como um
rolinho no complexo edifcio da cabeleira tranada. Ele afianava a Lus XVI que as mocinhas eram de sua propriedade e que ele podia, como preferisse, mant-las
em seu servio, d-las de presente ou com elas alimentar o leo. Lus XVI mandou-as tambm para a Mnagerie, e as trs passaram a viver ali, freqentemente abraadas,
passando o tempo a despentear e pentear uma  outra, falando uma lngua que se desmanchava em risadas e cuja estridncia causava arrepios.
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Seus gestos riscavam o horizonte circunscrito da fauna de Versalhes. Comunicavam-se com nosso mundo apenas para conseguir que lhes trouxessem fastuosos tecidos.
Enrolavam-nos no corpo sem os costurar. Essas sesses de toalete eram os raros momentos de calma em sua existncia. Nessas horas, cochichavam e se olhavam em silncio.
Recolhiam-se em si mesmas de tal maneira que se poderia, sem blasfmia, imaginar que tivessem uma alma e que rezassem... Outro momento de calma era quando observavam,
da margem, as embarcaes partirem para Trianon. Olhavam as grandes barcas em forma de gndolas, os iates, as fragatas e balsas carregados de cortesos. Diante daqueles
olhos atentos, repletos de paisagens desconhecidas, os cortesos se calavam e passavam a observ-las tambm. Uma certa atmosfera de mtua petrificao se formava
entre as trs africanas e os convidados da Rainha. E entre as africanas e a prpria Rainha? Nada se passava, estava convencida disso e assim continuo pensando. Mas
havia alguma coisa, no sei o qu, um certo ponto de semelhana naquela paixo pelos tecidos, no deslumbramento que aquele tipo de contato provocava. Um ponto obscuro...
um ponto de amor?
Sim, quando lembro da Rainha naquela manh, com as amplas mangas rendadas, toda rosada e frgil, fixando retalhos de tecido, estampilhas de seus mais belos vestidos,
 a palavra "amor" que me vem  cabea.
Tambm o leo morreu. Laroche sentiu-se tremendamente impotente. Solicitou uma audincia ao Rei. O jovem Lus XVI, que era chamado o Virtuoso, mas gostaria de merecer
a alcunha de Severo (nunca soube se conjuntamente ou no lugar da primeira), ouviu a petio de Laroche - dar fim  hecatombe da Mnagerie. Mesmo demonstrando boa
vontade, Lus XVI no o tranqilizou. Mostrou-se evasivo. Em Versalhes, o calor trazia as doenas. Muitas pessoas tambm passavam mal, algumas morriam. Falou
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de um certo senhor de Las, que teve uma fratura exposta ao cair
do cavalo. Agonizava num pavilho de caa. A famlia o havia transportado para l com a finalidade apenas de no ouvi-lo mais gritar.
- Os homens ao menos podem dizer o que os incomoda. Meus animais, no entanto, suplicam com olhinhos moribundos, sem poder indicar o que os atormenta. Vou perder
o urso-polar gemeu o senhor de Laroche, apertando um leno. - Sua Majestade consegue entender meu sofrimento?
- No - respondeu o Rei. - No consigo.
Talvez para se punir pela insensibilidade, Lus XVI largou o ramo de tomilho que mantinha sob o nariz, inclinou-se na direo do homem desesperado e encheu os pulmes
com o seu cheiro. Ento - oh, mistrio da divina essncia real -, ao invs de sentir-se incomodado, o Rei sentiu-se bem. Endireitou os ombros, que viviam um pouco
cados sobre os braos molengas e compridos demais, e sorriu.
- Gosto muito de si, senhor de Laroche - pronunciou com a caracterstica dico entrecortada. - Venha, vez ou outra, a meu Deitar, ficarei contente. Quanto aos animais
da Mnagerie, no se preocupe tanto com eles. O mundo est cheio de animais. Deus prov sua existncia em quantidades imensas e sem economizar na renovao das
espcies.
Os ursos-polares, por exemplo, pululam no Grande Norte.
- Resigno-me diante do inevitvel. Meu urso-branco vai mal, muito mal, e nada posso! Pois bem, basta! No falemos mais disso.
A partir desse momento, o senhor de Laroche no comentou mais, na corte, o estado de sade dos animais. S se referia a eles na prpria Mnagerie. Mas guardou daquela
conversa a mania de dizer, sob qualquer pretexto, "No falemos mais disso", mania que virou alvo da zombaria dos cortesos, que depois acabaram incorporando a frase
em suas conversas. Em certos dias parecia-me s ouvir "No falemos mais disso".
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Laroche aproximou-se, seu fedor submergiu-me (recitei a orao dos agonizantes: "Suplico,  Deus, perdoai-me pelo prazer que busquei nos perfumes e nas boas fragrncias,
que me tornaram demasiado delicada e me fazem fugir dos maus cheiros..."). Em voz mais baixa, perguntou o motivo de minha visita. O avestruz, realmente? No, no
era pelo avestruz. H muito tempo no nos vamos, sentia falta... Ficou satisfeito e respondeu com algum cumprimento. Tambm estava contente de ter com quem passar
as horas vazias daquela tarde.
- Tudo bem l em cima? - perguntou, apontando para o palcio.
- Nada vi de estranho. Dois teros dos cortesos esto resfriados, o restante espirra e se assoa para se pr no mesmo diapaso. Mas no sou a pessoa mais bem informada.
Quase no largo meus livros e no sou convidada para as Sesses Reais.
- Dada a utilidade delas, ainda bem! So muitas as armadilhas que as pessoas prximas preparam contra o esprito naturalmente justo de nosso Rei. Sesses Reais!
S de pensar, fervo de indignao. A simples idia de se ousar aconselhar um Rei to sbio quanto o nosso j  uma insolncia. O senhor Necker,7 por exemplo. 
* 7 Jacques Necker (1732-1804), banqueiro de origem sua, chegou a Paris em 1747. Dedicou-se  poltica, chegando a ministro das Finanas em 1777. Tentou controlar 
os gastos reais e praticar uma poltica de transparncia. Publicou a Prestao de contas ao Rei em 1781 e foi demitido pela primeira vez. Em 1788 foi chamado de 
volta, por presso popular. Foi demitido outra vez em 11 de julho de 1789 e novamente chamado em 16 de julho. Desanimado com o desenrolar da Revoluo, abandonou 
a vida pblica em 1790, voltando  Sua com a filha,
a conhecida escritora Madame de Stal.*

Pode-se
imaginar indivduo mais pretensioso? Um fazedor de contas mais infame? Ouvi seu discurso na abertura dos Estados Gerais.8 
* 8 No Antigo Regime, os Estados Gerais eram uma assemblia poltica convocada para resolver problemas pblicos que reunia representantes das trs ordens, ou estados:nobreza, 
clero e povo (terceiro estado). Foram convocados pela primeira vez em 1302 e reuniam-se apenas em situaes muito delicadas para o pas. A Assemblia dos Estados 
Gerais de 1789, reunida em Versalhes em
2 de maio com crescente ascenso do terceiro estado, deu incio  Revoluo, que seria oficializada com a tomada da Bastilha, em 14 de julho.*

Quase me pus a bramir! Nmeros, nmeros,
nmeros! Durante duas horas. Nem ele agentou. Ao fim de meia hora precisou que um leitor prosseguisse. Nunca vi coisa igual, o orador  o primeiro a saltar fora
diante do castigo que impinge  platia.
- E no mais ver. Pelo menos no o prprio Necker.
- Como assim? Ter aprendido a ser mais interessante?
- Duvido muito, mas de qualquer maneira Necker no conta mais. Foi mandado embora. No sabia? Foi despedido no sbado.  a grande novidade.
- Meus animais andam muito mal informados. E, com isso, eu tambm. Quem diria, Necker mandado embora!  coisa que d prazer ouvir. Conte-me os detalhes do caso.
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- Sei apenas que dia 11, sbado, s trs horas da tarde, seu
amigo, o conde de La Luzerne, ministro da Marinha, levou-lhe uma carta da parte do Rei. Sua Majestade pedia que se demitisse e deixasse a Frana discretamente.
- Eu o teria jogado na priso.
- O senhor fala como o baro de Breteuil. Ele queria que Necker fosse preso.
- A tal sesso de abertura dos Estados Gerais foi um suplcio. Um discurso de duas horas, daquele inepto! Centenas e centenas de nmeros. No se deve nunca perdoar
aos chatos. Mas, cara amiga, a senhora se mostra bem modesta. Est, na realidade, magistralmente informada. No  nos romances da senhora de La Fayette, de Marivaux
ou da senhora de Tencin que se encontra esse tipo de informao.
- O senhor est sendo gentil. Todo mundo est ao corrente. S se fala disso. Minha cabea d voltas com essas coisas. Felizmente, o senhor Moreau gosta de me explicar
o que acontece. Aquilo que posso compreender, pois da altura em que ele contempla a Histria, no distingue as ninharias nem as anedotas. Capta apenas o essencial.
- E o que diz o senhor Historigrafo de Frana da demisso desse joo-ningum?
- Ele a desejava, como todos. No entanto, continua a dizer: "Isso vai acabar mal". Mas  coisa que ele repete h muito.
Laroche ensombrou-se, mas por pouco tempo; rapidamente teve uma grande idia.
- Se Necker foi mandado embora, seu cargo est livre! Eu daria um excelente ministro das Finanas. Cortaria  maravilha, tanto o suprfluo quanto o necessrio. Comearia
pelo necessrio; quando chegasse a suprimir o suprfluo, os franceses j teriam h muito perdido as foras para protestar.
- Tome cuidado. Quem muito quer cortar as despesas corre o risco de ser cortado do governo. Foi o que causou a queda de Necker. O gosto pela economia, a ansiedade
excessiva nas questes de abastecimento, a timidez diante dos nimos acirrados em
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Paris, a hesitao em bater forte e rpido. Dava a impresso de vacilar, no ser direto...
Laroche ps-se a rir - um riso brusco, caracterstico. Tinha isso em comum com o Rei; no o poder de julgamento, como pensava, mas o riso.
- Veja como a chuva que caiu esses dias deixou tudo verde por aqui - acrescentou, virando-se para os prados que ladeavam a Mnagerie.
Naquela direo havia uma grande herdade explorada por rendeiros donos de esplndido rebanho, com vacas que pastavam em meio a gamos e cabritos monteses e produziam
para a corte parte do leite que esta consumia. A outra parte vinha da herdade do Petit Trianon. Esse lado do parque dava uma impresso de abundncia e de verdor.
Lembrava a Sua, segundo o senhor de Besenval, que era de origem sua. A mim, que nasci  beira-mar, no lembrava nada.
O capito deixou de lado a viso rural. Ignorou tambm a Faisanderie,9 ao lado da herdade, e voltou-se para a estrada de Saint-Cyr, alm da Mnagerie.
* 9 Local de criao de faises. No Parque de Versalhes, um palacete foi construdo para essa finalidade.*

- Ningum passa por essa estrada. Para que serve? De vez em quando  restaurada por forados. Eles trazem um pouco de animao por algumas semanas. At que cantam
bem, os tratantes! Depois desaparecem. No se v mais ningum.
- No passam por ali cavaleiros?
- Qual nada! Para quem nasceu nobre a estrada  uma restrio  liberdade. Preferem atravessar os campos.  como na alfndega. Para entrar em Paris um jovem bem-nascido
no diminui o passo. Pelo contrrio, ele o acelera e manda s favas o guarda que tem a ousadia de o querer parar. Era assim na minha juventude, no deve ter mudado.
- Nunca vou a Paris. Deus me livre!
- Eu tambm no. Que faria l? Por isso falo de quando era jovem.
- E se comportava como os jovens bem-nascidos?
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- Claro! Sempre entrei em Paris a galope. Posso ainda ouvir
os gritos dos transeuntes. O guarda no se atrevia a me parar. Vingava-se nos mais miserveis. Enfiava a lana com raiva no feno das carroas, para descobrir viajantes
clandestinos.
- Descobrir?
- Ou desancar! O Rei  bom demais... Sacrifica-se pelo povo.  uma corja intil que no o merece. Ele manda construir estradas, cidades, d ordens para a fortificao
dos portos e lana navios ao mar. Mais sbio seria nada fazer. Nada construir nem consertar. Deixar que desmoronassem... Eu serei o ministro da Ignorncia. Ministro
da Ignorncia Crassa... "Quando todos os grmens forem liberados e levados a seus lugares primitivos, Deus espalhar uma ignorncia absoluta pelo mundo inteiro,
para que todos os seres que o compem se conformem com sua natureza e nada desejem de estranho ou de melhor; pois nos mundos inferiores no haver meno nem conhecimento
do que se encontra nos mundos superiores, para que as almas no desejem o que no podem possuir e para que tal desejo no se torne fonte de angstias." Basilides,
filha.  ainda mais forte que Buffon... "Para que todos os seres que o compem se conformem com sua natureza e nada desejem de estranho ou de melhor." Vo ter dificuldade,
l em cima, para encontrar um substituto para Necker. Bom, como a senhora me garante que tudo est tranqilo, eu acredito.
- Mais do que tranqilo, sereno.
- Ento est tudo muito bem. Para mim, o nico ponto negro continua sendo o mal-estar de meu avestruz... No entanto, no ouvi o Rei caar, nem ontem e nem hoje.
Tudo est bem, mas o Rei no foi  caa... Ora, no falemos mais disso.
- Falemos, sim - insisti, tomada por certa apreenso, pela mesma sensao de estranheza que tivera de manh, nas ruas de Versalhes.
Mas o senhor de Laroche j mudara de assunto.
- Como vai o Deitar do Rei?
- Triste, ao que parece. Pouco freqentado.
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O capito assumiu um ar triunfante. Colocou esse abandono na conta da ordem que o havia excludo. No culpava o Rei. Compreendia que o golpe viera de baixo e que
Lus XVI cedera s presses dos outros partcipes. Sobretudo dos pajens, que no podiam, como os outros, abrir discretamente uma janela e ali ficar. Fizeram uma
queixa e ela foi levada aos ouvidos do Rei pelo Primeiro Camareiro. Lus XVI acedeu. Alis, ele no tinha mais nimo para rir. As brincadeiras de Laroche, que s
vezes arrancava a peruca e a jogava sobre o dossel da cama ou morria de rir fazendo ccegas nos que sentiam ccegas, no lhe faziam a menor falta...
- Como ramos no Deitar! - disse Laroche.
E me conduziu at os macacos. Ali, parecendo presa de um delrio, jogou-se ao cho, soltando gritos. Os macacos pulavam de um lado para outro na jaula, penduravam-se
com um brao, davam cambalhotas. Passada a crise, o Capito-Guardio ergueu-se como se nada tivesse acontecido e declarou solenemente:
- Muito a estimo, senhora, pois a senhora  a senhora na maior parte do tempo.  uma qualidade rara e notvel. Quando um rei  rei? Ele sempre  rei,  claro. Mas
em algumas situaes ele  mais rei do que em outras.  exatamente o rei que foi criado para ser. Aquele que nenhum outro poderia ser em seu lugar. No que diz respeito
a Lus XVI, logo compreendi, e freqentemente pude confirmar, que ele  mais rei  noite, momentos antes de ser despido para o Deitar, quando esvazia os bolsos e
deixa o canivete na mesa-de-cabeceira. Nesse gesto ele mostra toda a sua realeza.
Fui sentar-me num banco perto da gua. Todas as embarcaes estavam no porto. Estava sob a influncia do "No falemos mais disso". No me sentia mais inquieta. Tinha
uma sensao de perfeita calma e de ter pela frente um tempo imenso.

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CONVERSA -TOA E BORDADO COM HONORINE (FIM DA TARDE, ANTES DA CEIA)

Mesmo com tempo ruim o cu de Versalhes clareia no fim do dia e mostra uma beleza comovedora. Uma vez mais, naquela tarde, pude constat-la. Estava sentada com minha
amiga Honorine Aubert, primeira camareira da senhora de La Tour du Pin. Estvamos em um pequeno cmodo dos aposentos de sua patroa, ao lado dos grandes aposentos
da princesa de Hnin, acima da Galeria dos Prncipes, no alto da edificao que forma a ala sul do palcio. Esse cmodo dava, de um lado, para a rua da Surintendance
e, do outro, para o terrao da Orangerie. Eu gostava muito de ficar ali, tanto porque era amiga de Honorine como tambm porque no meu quarto, situado no nvel das
mansardas da ala sul, apesar de dispor de todo o esplendor do cu, eu ficava privada do parque e da vista para a cidade. Assim, aquele belo cmodo me devolvia a
totalidade. Terminvamos juntas uma tapearia que a senhora de La Tour du Pin comeara mas abandonara. Sempre gostei de bordar. Honorine era mais hbil, mas como
era naturalmente mais lenta, avanvamos no mesmo ritmo. Ouvamos, pela janela aberta, a msica que vinha dos aposentos da jovem princesa Maria Teresa. Comentvamos
o dia transcorrido. Disse que a Rainha me parecera estar com o humor mais leve, quase feliz, apesar do luto profundo, e quanto isso alegrara meu corao. Honorine
ficou contente de saber. Com a agulha em riste, as bobinas de seda a nossos ps, avanvamos ponto a ponto em uma paisagem florestal. Mesmo conversando nos preocupvamos
com o degrade dos verdes.
Para diverti-la, contei sobre minha tarde na Mnagerie e sobre as africanas. "No acredito." Como no acredita? Eu as tinha visto, e mais de uma vez. Elas at emitiram
rudos como pssaros dentro de um viveiro. "No acredito. Ponto final. No h africanas em Versalhes. Sequer na frica, pois a frica no existe. Os viajantes inventam
qualquer coisa quando voltam. Quem vai verificar?" Honorine me irritava quando bancava a teimosa. Aborreci-me.
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No por muito tempo, pois aconteceu um imprevisto: trs tmidas pancadas na porta e um homem colocou o nariz para dentro, procurando a Rainha. Tinha algo para mostrar
a ela. O qu? Um pouco hesitante, afinal entrou, mostrando-se por inteiro. " isto que eu queria mostrar", e ps-se bem ereto  nossa frente, com as pernas um pouco
abertas. Examinamos o indivduo. Afora a roupa, tudo parecia comum. De fato, estava vestido como um Arlequim, com uma vestimenta multicolorida. Mas em vez dos losangos
havia listras azuis, brancas e vermelhas. "Procuro a Rainha", continuou, "para lhe apresentar meu modelo de traje nacional."

UMA NOITADA NO GRAND COMMUN10
* 10 O Grand Commun abrigava as cozinhas e os refeitrios dos empregados que serviam ao rei e  rainha. Depois de uma reorganizao, ainda no reinado de Lus XVI,
ali foram instaladas as Cozinhas do Rei, que compreendiam tambm a Boca do Rei, Copa, Padaria e Bebidas.*

O restante da noite, que passamos no Grand Commun, foi alegre. E a ceia, simplesmente rgia: pudemos provar as sobras da Mesa do Rei. Lembro que as codornas tinham
um lugar de honra, assim como um bacalhau da Terra Nova. Por volta das nove horas, uns padres vieram juntar-se  nossa mesa. Estavam sem fome, pois vinham de um
festim oferecido pelo cardeal de Montmorency em comemorao ao juramento prestado ao Rei. Falaram-nos das sobremesas, mais de uma centena, sem contar as frutas cristalizadas,
as compotas, os sorvetes, os nugs. O padre Hriss trouxera vrias garrafas de ratafi de marmelo e um vinho de cereja, que quis que provssemos. Como Honorine
e eu no estvamos habituadas ao lcool, no parvamos de rir pelo menor motivo e mais ainda quando todos estavam srios. Quando os convivas comentaram o ltimo
decreto promulgado por Lus XVI, proibindo que os soldados fossem castigados com pancadas da lateral da lmina da espada, escangalhamo-nos de rir, quase nos afogando
nos copos. Relembrando, sinto-me um pouco envergonhada, mas esses eram nossos modos na poca. No havia crianas em Versalhes, mas a infantilidade estava espalhada
no ar que eu respirava.
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O lcool continuou a circular e aumentou, com toda a decncia, a alegria de nosso grupo. Algum empunhou um violino e todos danamos.
Por volta das onze horas da noite, voltei ao palcio, que ficava a uns poucos metros do enorme prdio do Grand Commun. A noite mal havia cado. Honorine e eu seguamos
de braos dados. Seu quarto era perto do meu. Havia ainda algum vai-e-vem na passagem subterrnea que ligava o palcio s cozinhas do Grand Commun. J estava na
hora de os archoteiros do palcio acenderem as tocheiras dos corredores. O espetculo era to habitual que no nos chamava mais a ateno. Fora do normal, entretanto,
era ver as janelas de uma das alas dos Ministrios ainda iluminadas.
- Como? O novo governo j se rene? A esta hora da noite? O senhor baro de Breteuil  de um vigor impressionante!
- Se sua fora de trabalho for igual  conscincia que tem de sua posio, estamos em boas mos - acrescentou algum que tinha pela famlia de Breteuil uma grande
admirao.
- Duvido que a uma hora dessas o governo se rena; ele se instala. Esses senhores esto escolhendo seus escritrios.
- Mas quem so eles exatamente? Todos os cargos esto preenchidos agora? - perguntou minha amiga, em quem o ar fresco tinha dissolvido um pouco os efeitos do lcool
e que, por viver com a famlia de La Tour du Pin, que  muito politizada, seguia de perto o que se passava na Corte.
Ouvi recitarem uma lista de nomes. O que me agradou. Gosto de listas. Gosto do que se enumera sem que seja preciso contar, aquilo que se ordena por si mesmo, como
em um cerimonial.
Os nomes podem funcionar como cano de ninar na hora de fechar os olhos. Naquela noite, apesar da emoo de uma sesso de leitura, apesar da grande caminhada da
manh, do capito da Mnagerie, do Arlequim tricotado, da dana, da ratan de marmelo e do vinho de cereja, eu no conseguia fech-los. Deitada, olhava para o cu
escuro. No bosque, os pssaros noturnos lanavam seus piados. O lamento da coruja, esse som estranho que parecia
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um choro, me arrepiou. E havia, do lado de fora, um barulho contnuo de carros, de cavalos e uma barafunda de vozes. Os nomes, no entanto, mais uma vez cumpriram
a tarefa: duque de Argila; Anglica de Solis; senhor de Saint-Colombe; senhor Desantelles, Intendente dos Pequenos Prazeres; conde de Zizendorf, da Grande Tartria;
conde de Vaudreuil, Falcoeiro-Mor; conde d'Haussonville, Caador-Mor de Lobos; duque de Penthivre, Monteiro-Mor; prncipe de Lambesc, Estribeiro-Mor; os escudeiros,
todos os escudeiros; os escudeiros por quartis, os escudeiros ordinrios, o Primeiro Escudeiro; o Escudeiro Cavalgante; princesa de Lamballe, Superintendente da
Casa da Rainha; princesa de Chimay, Dama de Honra da Rainha; condessa d'Ossun, Dama de Adornos da Rainha; as damas do Palcio da Rainha; as damas para acompanhar
Madame...

15 de julho de 1789

MANH E TARDE 

ALGUM OUSOU INTERROMPER O SONO DO REI

A novidade se espalhou, ruidosa, desde a madrugada, e me deixou zonza: o Rei fora acordado em plena noite. Como seria possvel? O Rei era inacessvel durante a noite.
As grades eram fechadas, as entradas e as principais escadas, vigiadas. Quem teria ultrapassado a primeira proteo dos guardas do posto de entrada do Ptio Real
e o segundo obstculo das sentinelas do Ptio do Louvre? Como, em seguida, introduzir-se no interior do palcio? Chegar at os Apartamentos Reais, alcanar a porta
do Quarto do Rei? Guarda-costas ali se revezavam em turnos. Precediam os Criados de Quarto, que velavam no aposento contguo. E supondo-se que um ser inaudito, sobrenatural,
algum silfo ou fantasma pudesse superar todos esses obstculos, havia ainda o ltimo: a presena, ao p da Cama do Rei, do Primeiro Camareiro, que dormia ali. No
entanto, contrariando tudo que se pudesse imaginar diziam que o Rei havia sido acordado.
No ltimo andar, corramos de um quarto a outro, batamos nas portas e propagvamos, incrdulas, o louco boato. Aventei a idia: quem sabe uma indigesto? Lus XVI
tinha tremendas indigestes, que o punham em condies extremadas. Cortaram-me a palavra. O Rei fora acordado por algum. Algum que tinha algo a lhe dizer.

Caa uma chuva fina. O calamento estava escuro, luzidio. As lojas instaladas ao longo das grades tinham uma aparncia miservel. Entrando nas cozinhas do Grand
Commun, invadiu-me o odor de vinho, de comida, dos tristes restos da ceia da vspera... Uma insidiosa sensao de frio e nusea me tomou. A sopa que me serviram
tinha um gosto acre. Tive dificuldade para engolir o po endurecido que a acompanhava. Encontravam-se ali mais ou
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menos os mesmos da vspera, sem os padres. Tambm Honorine
estava ausente. Descera para atender a senhora de La Tour du Pin. Esperava que pudesse trazer novidades, e eu no era a nica. Honorine funcionava como uma central
de informaes. Chegou, afinal, em desalinho e despenteada, envolta numa capa vermelha (ganhara da patroa, uma mulher grande, loira e magra, enquanto Honorine era
pequena, morena e gorducha). Todos os rostos se voltaram em sua direo. E ento? Conte tudo. E essa maneira extravagante de ser acordado no meio da noite? Quem
era? Para dizer o qu? No Quarto do Rei? Honorine, que de hbito era tagarela, expansiva e um tanto orgulhosa (devia a afoiteza, que lhe caa bem,  vivacidade natural
dos meridionais; quanto ao orgulho, era influncia da senhora marquesa de La Tour du Pin, inteligentssima, mas que aproveitava essa vantagem para desprezar o restante
do universo), permanecia calada. Confessou, chateada, no ter respostas para ns. De fato, havia grande agitao entre os de La Tour du Pin naquela manh, mas espontaneamente
ou para que os empregados no compreendessem, falavam sempre em ingls nessas ocasies.
- Mas consegui discernir diversas vezes a palavra "Bastilha"11
- disse Honorine.
* 11 Como "bastilha", em portugus, "bastille" significa "fortaleza". A que se tornou famosa situava-se no limite leste da antiga Paris, mais ou menos no local da 
atual praa de mesmo nome. Datava do sculo XIV e fora transformada em priso por Richelieu (reinado de Lus XIV) para membros da nobreza, tornando-se smbolo
da arbitrariedade real. Ao que parece, em 1789 j estava desativada. Sua tomada pelo povo, durante os enfrentamentos polticos entre o terceiro estado e o rei transformou-a 
em marco simblico do incio da Revoluo. Sua demolio foi decidida alguns dias depois e, em 1880, a Repblica passou a celebrar o 14 de julho como data nacional 
da Frana.* 

Somente l pela metade da manh, depois que diversas pessoas chegaram s pressas de Paris, uma certeza pretensamente bem fundamentada comeou a se impor: fora o
duque de La Rochefoucauld-Liancourt, Gro-Mestre do Guarda-Roupa, a pessoa que acordara Sua Majestade s duas horas da manh. Para lhe dizer algo que tinha a ver
com a Bastilha. Uma fuga? Um incndio? Ouvi muitas histrias sobre a cidadela (um senhor idoso exclamou: "Ah! a Bastilha! A minha juventude!"), at que se consolidasse
a fantstica notcia: a Bastilha tinha sido tomada pelo povo. Posso ainda ouvir o sarcasmo, os protestos, as vaias com que essas palavras foram recebidas. Alis,
quem as pronunciou, por quem eu soube?
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J no sei. Sem dvida no lhes dei importncia, pois no lhes dei crdito. Eu j havia visto a Bastilha, e isso me bastara para compreender que era uma fortaleza
inexpugnvel. Seu volume esmagava o mal-afamado bairro de Faubourg Saint-Antoine - no era aconselhvel passar por ali nem de carro, com as portas trancadas e escolta
de homens armados.
Os mensageiros se sucediam. Eram parados e tinham de responder se aquela coisa impossvel era mesmo verdade. Como ns, a maioria das pessoas no acreditava. Alguns
eram peremptrios: "A Bastilha tomada pelo povaru? Est brincando?  mentira, propaganda antimonarquista forjada por sediciosos". Se insistssemos, terminavam dizendo
que nada de anormal se passava na capital. Conclu que os parisienses continuavam a se empolgar com pequenos incidentes ocasionais, s isso... L no fundo eu acreditava,
como a maior parte dos moradores do palcio, de todos os nveis hierrquicos, que era bobagem se preocupar em demasia. Atravessvamos um momento difcil,  claro,
mas no era a primeira vez. Esse clima de rebelio no era pior do que aquele que o Rei experimentara no primeiro ano de reinado. Se soube controlar a situao quando
tinha vinte anos, teria menos dificuldade em triunfar agora, em plena maturidade.
Para melhor me persuadir dessa verdade, fui dar uma volta pelos lados dos aposentos ministeriais. A atividade no cessara (teriam trabalhado a noite inteira?), ordens
eram dadas, mveis eram transportados: escrivaninhas, mesas, poltronas, mesinhas passavam diante dos olhos a toda a velocidade, como se corressem por impulso prprio.
Pareceu-me que essa febre de mudanas trazia algo promissor. No vi nenhum ministro em pessoa; mas isso no era de surpreender. Disseram que estavam reunidos. Certamente
em breve tudo voltaria ao normal, visto que a nica voz dissonante, a do genebrs, havia sido calada.
Uma outra convico, freqente entre os que transitavam pelos corredores do palcio, contribua para minha serenidade: a de que tudo era inveno de jornalistas.
Nada se passava, quase nada, mas
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eles precisavam preencher suas folhas. Mas o que pensava o prprio
Rei? Como havia reagido, se  que tal coisa se produzira,  incurso do senhor de La Rochefoucauld-Liancourt em seu sono? Teria o Mestre do Guarda-Roupa afastado
a cortina da alcova com as prprias mos ou respeitara a etiqueta pelo menos nesse ponto? Nesse caso, caberia ao Primeiro Camareiro de planto abrir a cortina...
E onde estava o capito da Guarda de Quarto do Rei? Eu me perdia em conjecturas. Ningum ao meu redor tinha uma nica informao precisa. O senhor de La Rochefoucauld-Liancourt
se tornara invisvel. E qual a opinio do novo governo formado? "Ele est ainda se instalando", disse algum, "no se pode fazer tudo ao mesmo tempo." E a mesma
pessoa emitiu a prpria opinio: "O povo no existe,  apenas uma entidade. O que proponho, e trata-se de uma proposta bem concreta,  que se trancafie a populaa,
a populaa inteira presa e trancafiada na Bastilha". A proposta no teve uma resposta imediata. "Ou talvez devessem prender apenas os cabeas", terminou sugerindo
um esprito conciliador...
Ningum mencionou a Rainha, o que era estranho, pois em geral era dela de quem mais se falava. No entanto, enquanto andava de um grupo a outro, eu levava comigo
o sorriso da vspera, a imagem de seu rosto liso e fulgurante, debruado sobre o "Caderno de adornos". Sentia-me curiosa,  verdade, mas no demais. Um boato, por
mais extravagante que fosse, no constitua ainda um acontecimento.

O REI E OS IRMOS VO  SALA DO JEU DE PAUME; 
A RAINHA NA VARANDA (ONZE HORAS DA MANH)

O que sem dvida nenhuma constitua um acontecimento sem precedentes era o pequeno grupo que surgiu  minha direita, por detrs da Guarda Sua, que vigiavam a entrada
do pequeno Teatro Hubert Robert e que fora instalado por desejo da Rainha no
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centro do prdio inacabado daquela ala. Honorine viera se juntar a mim. Estvamos no Ptio Real, apoiadas no gradil.
O grupo - parece-me um sonho - era formado pelo Rei e seus dois irmos, o conde de Provena e o conde de Artois. Avanavam sem guarda pessoal, sem cortejo, sem o
aparelhamento ordinrio. Os trs, a p, tentando no chamar a ateno, deixavam o palcio. Alguns senhores os rodeavam. Davam a impresso de serem todos amigos.
O conjunto no se parecia em nada a um cortejo. Honorine subiu na mureta do gradil, para enxergar melhor. "O Rei no est usando o chapu de plumas" observou. Trajava
outro, de veludo, com abas amplas, mas modesto. Era um espetculo deveras surpreendente ver os trs irmos juntos, andando pelo calamento irregular e escorregadio
por causa da umidade. s onze horas da manh, horrio que no se podia considerar propcio para um passeio. Alm disso, no iam em direo ao parque, mas em direo
 cidade! Apenas o Rei tinha o passo firme. O conde de Provena e o conde de Artois pareciam mais reticentes. O Rei, grande, macio, andava pesadamente, com seu
balano desairoso e o aspecto que assumia sempre que tinha de fazer algo contra a vontade. Para o conde de Provena no parecia uma obrigao, mas um suplcio; Monsieur
se arrastava. Baixinho, obeso, com uma ancilose nos membros inferiores, tinha dificuldades para se locomover. As ms lnguas chamavam o conde de Provena de "Gordo
Monsieur" e deve-se dizer, mesmo sem lngua to afiada, que a alcunha lhe caa bem, assim como a de "Gorda Madame" para a irm Clotilde, casada na Itlia. Colocavam
palha e estrume no calamento, para que os cavalos no derrapassem. Monsieur, cujas fivelas dos sapatos brilhavam com as incrustaes de pedras, contemplava tudo
enojado. Era preciso passar por aquilo. Assim como pelas miserveis barracas dos soldados da Place d'Armes. Quanto ao conde de Artois, que era magro, altivo, atraente,
seu desprazer era menos visvel, pois era elegante nos menores gestos. De incio, via-se que seguia sem muita vontade, mas quando afinal se decidiu, j fora do palcio,
precisou conter-se para no tomar a dianteira daquela
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estranha embaixada. Honorine e eu os seguimos. Rapidamente
misturamo-nos aos habitantes de Versalhes, que, tambm com espanto, reconheciam o Rei e seus irmos naqueles simples pedestres. Acompanhavam seus passos. Mulheres
riam e falavam, de uma janela para outra. Gritavam pelos filhos, que vinham se postar diante do Rei e seus irmos. Estavam todos intrigados, querendo saber aonde
iam.
No iam muito longe, na verdade. Dirigiam-se  Sala do Jeu de Paume, onde agora se reunia a Assemblia Nacional. Devido s incontveis partidas de pela que jogaram
na juventude, os trs conheciam bem o lugar. Na atual circunstncia, no entanto, ele j no parecia to familiar. O Rei caminhava cada vez mais rpido, de cabea
baixa, sob aclamaes. O conde de Artois, que vinha logo em seguida, era copiosamente vaiado. O conde de Provena, deixado para trs, suando em bicas e arfante,
procurava onde descansar. Ns os seguimos at a entrada. Fomos obrigadas a ficar ali e vimos, com inveja, o senhor de La Tour du Pin penetrar na sala, pois era deputado
da nobreza. Ficamos do lado de fora, enquanto a multido crescia em volta. Aps alguns minutos, em que nada ouvimos, houve aplausos e gritos, depois, novamente,
nada que se pudesse captar, e, enfim, urros de alegria. "Bom pressgio", cochichou Honorine. Antes mesmo que o Rei e seus irmos sassem, jovens animadssimos vieram
comunicar as novidades. Pouco a pouco, tudo voltou ao normal.
O Rei declarara, diante da Assemblia Nacional: "No h acontecimento mais urgente e que afete mais sensivelmente meu corao que as desordens horrveis que assolam
a capital..." De incio, fora ouvido com hostilidade. O pblico esperava uma reedio das declaraes passadas e da inteno de no ceder. Em seguida, quando anunciou
a finalidade de sua vinda, foi aplaudido interminavelmente. Ouvia-se mal por causa da balbrdia que a iniciativa desencadeara. Ele, que em outras ocasies fora ouvido
com um silncio morno, emocionou-se com o entusiasmo dos deputados. No conseguia continuar. Precisou repetir vrias vezes;
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finalmente, conseguiu concluir:"... contando COm o amor e a fidelidade de meus sditos, ordenei que as tropas Se afastassem de Paris e de Versalhes. Eu vos autorizo,
e at mesmo incentivo, a dar a conhecer na capital as minhas disposies". Na Assemblia, os festejos e a emoo chegaram ao pice. Nem mesmo aps a resposta de
Bailly, presidente da Assemblia, lembrando que a demisso de ministros benquistos pela nao fora a principal causa dos distrbios, as ovaes diminuram.
Quando o Rei saiu, tinha um inigualvel ar de felicidade. Suas palavras haviam produzido um triunfo. Que eu soubesse, era a primeira vez que produziam desnimo.
Tal sucesso como orador o embriagava. Durante todo o percurso de Volta, no cessaram os gritos e as lgrimas. Alguns mais exaltados
deitavam-se no cho para que ele passasse por cima.
A sada do Rei fora discreta, mas seu retorno desencadeou quase um delrio. Ele levou mais de uma hora para percorrer o curto trajeto entre a Sala do Jeu de Paume
e o palcio. Os irmos, agora, o precediam. Traziam com eles, ao lado ou atrs, todos os deputados. O Rei andava sob aclamaes ininterruptas da multido, que gritava:
"Viva o Rei, viva a nao, viva a liberdade". Deputados das trs ordens deram-se as mos. Formaram um crculo no centro do qual o Rei, o conde de Provena e o conde
de Artois avanavam. O Rei prosseguia com o caminhar pesado, pouco  vontade, mas j no curvava a cabea. Bem prximo, o conde de Provena dava todos os sinais
de esgotamento, era quase carregado pelos cavalheiros em cujos braos se apoiava. J o conde de Artois, animado pelo temperamento grosseiro que lhe era bem familiar,
respondia com insultos aos deputados que lhe chegassem perto demais. O mau humor dos irmos no atingia o Rei. Ele saboreava o triunfo, bebia o amor do povo e com
ele se embriagava. Os deputados, de mos dadas, teimavam manter a multido a distncia, mas era difcil cont-la Todos queriam
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se aproximar do Rei, toc-lo. Uma mulher do povo quis beij-lo.
"Deixem-na passar", ordenou. A mulher lanou-se em seu pescoo com um mpeto que o fez vacilar. O Rei parecia enfeitiado pela exaltao da comunho popular.
Ele, que nos dias anteriores tantas vezes quisera "ralhar" com o povo, podia voltar a am-lo e se desmanchava de alegria com esse reencontro. Depois de entrar no
palcio, logo reapareceu na varanda da frente, no primeiro andar, com a Rainha, o Delfim, os prncipes e princesas da Casa. Mas que metamorfose se dera? No havia
mais em seu rosto qualquer sinal de alegria. A Rainha se mantinha ao lado, empertigada, sem acenar. Tinha,  frente, o pequeno Delfim; pegou sua mozinha e agitou-a
na direo da multido. Foi ela quem deu o sinal para a retirada. Foi a primeira a sair com o filho, o senhor Delfim, enquanto a senhora filha do Rei, Maria Teresa,
a menina que a Rainha chamava Musselina Sria, agarrou-se  mo do pai e permaneceu na varanda. Olhava com curiosidade toda aquela gente reunida a seus ps, a declarar,
aos gritos, amor por seu pai. O Rei parecia agora abatido. Seguiu afinal a mulher, assim como o conde e a condessa de Provena, o conde e a condessa de Artois e
seus filhos.
Gabrielle de Polignac, Governanta dos Filhos de Frana, no tinha aparecido na varanda. "A duquesa  como as toupeiras", algum disse. "Ela trabalha subterraneamente,
mas ns vamos escavar para desentoc-la."

ENTUSIASMO DA MULTIDO. IMAGINEI UM TRIUNFO (TARDE)

As demonstraes de amor e de reconhecimento continuaram por meio de aclamaes. Um pouco mais tarde, com a presena do Rei na missa, onde se cantou o mote Plaudite
regem manibus, tornaram-se estridentes. Aplausos, juras de fidelidade, lgrimas. Toda a multido estava tomada por um delrio amoroso. Batia
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com os ps e aplaudia to forte que encobria, com o barulho, as vozes dos cantores da Msica do Rei.

Mas isso eu descobri depois. A multido aclama ou insulta qualquer pessoa, qualquer coisa. O objeto no conta. A multido se excita por se sentir multido. Seu delrio
cresce na proporo desse estranho fenmeno da conscincia de si ou da falta de conscincia. "Eu no sou ningum", diz a multido. Multiplicada por milhares, essa
nulidade  irresistvel. E eu me entreguei a ela tomada de emoo, o que era compreensvel, pois me parecia ouvir, ter ao alcance de meus sentidos, a prova tangvel
do amor do povo por seu Rei. Eu tinha a prova, mas ignorava ento que pudesse existir um povo to volvel quanto o francs, to rpido em passar das lgrimas de
ternura ao assassnio. Em minha inocncia, juntei-me a todos, a aplaudir... Gritava: "Viva o Rei, viva a nao, viva a liberdade". Honorine danava e beijava as
pessoas ao redor. Repetia que precisava ir embora, que talvez a senhora de La Tour du Pin precisasse de seus prstimos, mas no esboava qualquer inteno de sair
dali. Decidiu-se, afinal, e abriu caminho atravs da multido compacta. Eu permaneci. Logo cessou todo o som que vinha da Capela, tanto o dos cantos, quanto o das
oraes. Os membros da famlia real se tinham dispersado, voltando cada um aos respectivos aposentos. A menos que os trs irmos, aps o passeio improvisado e diante
de seu sucesso espetacular, tivessem preferido no se separar, jantar com as esposas nos aposentos da condessa de Provena, como s vezes acontecia. A multido continuava
eufrica, espalhada para alm da Place d'Armes, pela avenida de Saint-Cloud, avenida de Paris e avenida de Sceaux, mas os aplausos haviam diminudo. Um sinal qualquer
era necessrio para que recomeassem. Mas ele no vinha. Senti-me como no teatro, quando, aps o ltimo agradecimento dos atores, esperava aflita seu retorno, mais
uma vez... Esperava em vo. No palcio, ao contrrio, a maior parte das janelas se tinha fechado. Com as cortinas puxadas.
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Senti uma sbita tristeza - exatamente a mesma sensao de frio
e de desnimo da manh. Havia visto se erguer uma espcie de imenso e perfeito monumento  glria do Rei. Percebia, agora, suas rachaduras e as camadas mal assentadas.
Estava tarde. Voltei  ala sul, onde tinha meu ninho.
O que omito, e que sem dvida motivou essa imagem discutvel do monumento,  que pouco a pouco os aplausos cessaram e as discusses recomearam. A meu lado, versalheses
(havia um que trabalhava no albergue A Bela Imagem, e eu o conhecia de vista porque entregava limonada no palcio) discutiam os ltimos acontecimentos na capital.
No s no tinham dvida quanto  aberrao de uma suposta tomada da Bastilha, mas j comentavam galhofeiramente o seguinte projeto: o povo se propunha a edificar,
no lugar da Bastilha, um monumento dedicado "ao Rei Lus XVI, restaurador da Liberdade", e a praa passaria a se chamar praa da liberdade.
- No lugar da Bastilha? - perguntei.
Depois de um momento de silncio, todos me olharam com desconfiana. Afastaram-se. O vendedor de limonada olhava em minha direo e segredava algo a seus comparsas.

NOITE 

NO GABINETE DE ESTUDO DO HISTORIGRAFO DA FRANA 
(DAS NOVE S DEZ HORAS DA NOITE)

Tenho um certo trao de personalidade que, com os anos, nada melhorou: reluto em ver a realidade de frente. Eu ouvira: "O povo tomou a Bastilha". Havia observado
a expresso dura, fechada, do rosto da Rainha quando apareceu na varanda e o gesto que fez, evitando apresentar o filho, mostr-lo  multido, tentando, pelo contrrio,
proteg-lo. Manteve-o diante de si por pouco tempo,
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passou-o em seguida para o lado e, pouco a pouco, escondeu-o parcialmente no vestido (o que provocou reaes raivosas ao meu redor). Vrias vezes a Rainha olhou
para trs, como se algum devesse vir buscar-lhe o filho-o nico filho sobrevivente-e estivesse atrasado. Algum... a Governanta dos Filhos de Frana,  claro. Eu
havia assistido a tudo e meu esprito poderia ter registrado esses detalhes, mas  isso o que ele no consegue, ele  assim. No falemos mais disso sintetizava,
no meu caso, uma predisposio irresistvel; ou quase irresistvel, pois tenho tambm uma obstinao que reage a sinais externos e, mais ou menos, me obriga a enxergar.
Era realmente convincente o ar de triunfo do Rei? Se fosse esse o caso, um pouco dessa alegria teria se espalhado pela Corte; no entanto, dera-se o contrrio. Era
inclusive estranho o contraste entre as ovaes delirantes da multido e a paralisia dos prncipes e das princesas na varanda, bem como a do prprio Rei. Como se
tivessem sido trocados por bonecos de cera.
Quando um rei  rei?, perguntava-se o capito de Laroche. No quando estava na varanda,  claro. E muito menos a Rainha.

Depois do jantar (comi sozinha no quarto, para onde levara, numa bandeja, um pat de truta, uma alcachofra e morangos, graas a uma amiga a servio de um marqus
que gozava do privilgio de ser "boca da corte", isto , era alimentado no palcio e s expensas do Rei), fui ao gabinete de estudo de Jacob-Nicolas Moreau. Tinha
certeza de encontr-lo ali. E mesmo que, excepcionalmente, no estivesse, eu teria ido buscar na pequena biblioteca contgua ao escritrio um ou dois livros para
a noite.
Meu amigo Historigrafo da Frana no tinha um bom alojamento. Em verdade, sequer tinha um alojamento. Apenas dispunha, no gabinete de trabalho todo escurecido por
causa das velas, de um grande armrio, no fundo do qual estendera um colcho.
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Quando o excesso de fadiga o obrigava, repousava por uma ou
duas horas. Ir visit-lo, ento, era entrar num reduto escurecido e empoeirado, com paredes totalmente cobertas de livros, situado no terceiro e penltimo andar
da ala norte, perto de uma das cinco ou seis Bibliotecas do Rei, a Biblioteca do Sto. Esta se espalhava por galerias estreitas, com dois apndices e vrios gabinetes
de fsica e de qumica. Essa proximidade era perturbadora para o Historigrafo, que vivia no prolongamento dos estudos preferidos do Rei. Jacob-Nicolas Moreau trabalhava
sem parar. Vivia tomado pela importncia de sua tarefa. Torturava-o tambm a certeza de dever, com seu mrito, apagar o crime representado pelo maledicente Voltaire12 
na longa e virtuosa seqncia dos Historigrafos da Frana.
* 12 De fato, durante um curto perodo, entre 1744 e 1747, sob Lus XV, Voltaire teve o cargo de Historigrafo oficial do reino. Nessa temporada, colheu material 
para o volumoso O sculo de Lus XIV.*

Eu no me preocupava nunca com a possibilidade de incomod-lo, pois ele tinha liberdade suficiente comigo para simplesmente o dizer se fosse o caso. No entanto,
assim que entrei percebi que, muito excepcionalmente, o Historigrafo estava desocupado. Estava sentado no  mesa de trabalho, mas em uma poltrona baixa, entre
pilhas de livros. Levantou-se de pronto, ofereceu-me a poltrona e sentou-se em uma banqueta ainda mais baixa. De maneira que parecamos, ambos, bem pequenos, espremidos
naquele ddalo de pilhas de livros. Acima dessa paisagem catica estava suspenso um imenso crucifixo. A pouca luz que esse cmodo recebia ao cair do dia iluminava
o Cristo na cruz. Meu amigo tomou-me as mos e disse com voz cavernosa (achei, inclusive, que tinha chorado):
- Estamos perdidos. O Rei dispensou o exrcito de soldados estrangeiros que o senhor de Puysgur fizera vir. Foi graas a isso que ele pde se sentir seguro o bastante
para demitir Necker, se  que tal deciso foi sua e no do conde de Artois ou da Rainha, mas, no ponto em que estamos, isso no muda nada. Esse exrcito era o nico
sustentculo seguro. Ele o dispensou. Cedeu  presso da tal Assemblia Nacional. Cedeu nesse ponto e haver de ceder em todos. Imagine, querida amiga, que discursou
de p para os deputados
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e sem chapu na cabea.  o fim. Eu o anunciava h muito, mas sou o mais surpreso. E apavorado. Permaneci muda.
- S podemos esperar que as tropas regulares no se deixem contagiar. Ao que parece, no se pode confiar na Guarda Francesa, em Paris. Na daqui ainda  possvel
confiar um pouco, mas at quando?
- E a Bastilha? dizem que foi invadida e que ser destruda. O que acha de tamanha extravagncia?
- O mesmo que a senhora:  um exagero. Outras pessoas me disseram o mesmo. Eu digo no.  impossvel! Estamos em m posio, no o nego; mas no se justifica que
acreditemos em qualquer coisa. Raciocinemos, querida. Uma iniciativa dessas pode ser empreendida sem ordem do Rei?
- Nnno...
- E teria o Rei, ao que consta, dado essa ordem? De fato, mandar destruir a Bastilha  um de seus projetos antigos.
Hesitei.
- No que eu saiba...
- Por que ento haveria de ser destruda?
Comeara a chover forte. O senhor Moreau levantou-se. Tinha estatura mediana, ou um tanto pequena, rosto redondo, macilento, de bochechas cadas. Sentou-se  mesa,
acendeu uma vela. Senti-me lanada de volta na noite, sob o peso dos livros. Mesmo erguendo-me  mesma altura, o sentimento de estar embaixo persistiu. Ele repetiu:
- A Bastilha no pode ser tomada, seria um empreendimento sobre-humano, o mesmo que querer partir a cordilheira dos Alpes ou secar o oceano. Mas, de qualquer forma,
estamos perdidos; estrepados, como disse Monsieur.  curioso - acrescentou o Historigrafo - que algum to refinado e exigente em matria de linguagem tenha utilizado
semelhante expresso. Eu a detesto... estrepados. O Rei fala bem;  verdade que nunca pude julgar pessoalmente, pois jamais tive a honra de que me dirigisse a palavra,
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mas em nada se compara ao estilo do senhor conde de Provena.
Monsieur  poeta. "Estrepados" deve ter sido efeito da fadiga fsica e moral da manh. Imagine, obrigar Monsieur a percorrer a p o caminho de ida e volta entre
o palcio e a Sala do Jeu de Paume. Somente a ida j seria uma barbaridade.
Estamos perdidos. Pensei na Rainha, em sua tenso no alto da varanda, em sua palidez, acentuada pelo vestido escuro. Pensei nela como em uma estatueta de marfim
que se configurasse com preciso sobre um fundo de luto, ou como uma lgrima de prata contra um lenol negro. Pensei nela... O que faria? E o Rei? No tendo mais
o exrcito, no tendo meio algum de controle sobre a Assemblia Nacional...
- O Rei est moralmente muito abatido com esta derrota, uma derrota com ares de triunfo, mas uma derrota. No conhecemos seus projetos imediatos. Trancou-se sozinho
em seus aposentos. Medita... Esta manh antes da visita  Sala do Jeu de Paume, falou vagamente em transferir a Assemblia Nacional para Noyon ou Soissons e mudar-se,
com a famlia real, para o Palcio de Compigne.13 
* 13 O antigo palcio, cerca de setenta quilmetros ao norte de Paris, foi reconstrudo por ordem de Lus XV e mais tarde restaurado por Napoleo I, tornando-se 
ainda a residncia favorita de Napoleo III. Noyon e Soissons so cidades prximas.*

Assim manteria a comunicao com a tal assemblia sem habitar o mesmo local. A promiscuidade  nefasta.
Nesse momento, ouvimos passos do outro lado da parede, passos apressados. Algum nos escutava.
Permanecemos um instante em silncio, atentos. Em seguida cada um voltou s prprias divagaes. De forma automtica, eu decifrava os ttulos dos livros publicados
por Jacob-Nicolas Moreau. Tinham lugar de honra, acima de sua mesa, e s de v-los eu me enchia de venerao.
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INSONIA DA CORTE. ANDANAS AO REDOR DOS APARTAMENTOS REAIS
(DAS DEZ HORAS  MEIA-NOITE)

Os rudos suspeitos tinham me preocupado. Tive medo de sair. Meu amigo percebeu. Ofereceu-se para me acompanhar at o quarto. Voltaria em seguida ao gabinete para
tentar retomar o trabalho, seu Lies de moral. Mal tomamos o longo e tortuoso corredor que nos conduzia por sobre a Grande Galeria, notei algo inslito. O corredor,
em geral animado quela hora da noite (nesse andar se encontrava tambm uma parte das cozinhas, nas quais se trabalhava noite e dia), estava vazio. Em compensao,
o segundo andar, que tinha aposentos e portanto deveria estar tranqilo, surpreendeu-nos pelo nmero de pessoas que, como ns, seguia na direo dos Apartamentos
Reais. No sabamos como interpretar o fenmeno. No podia ser nenhum divertimento noturno. Os Pequenos Prazeres andavam pouco solicitados. E no eram nada festivas
as expresses dos rostos e as maneiras das pessoas. Pareceu-me at que alguns estavam com robes e toucas de dormir.
 medida que nos aproximvamos dos Apartamentos Reais, havia cada vez mais gente. Pareciam todos desorientados, um pouco envergonhados de terem cedido ao impulso
de sair e ir aos apartamentos e  Grande Galeria, ento mergulhados na penumbra, com o nico intuito de estarem "mais perto das notcias", como disse lady Olderness.
Ningum havia combinado, mas, progressivamente, aqueles que tinham jantado em seus aposentos (os fornecedores de comida se dignavam ainda, naquela noite, a fazer
entregas) e comeado, aps a refeio, uma partida de triquetraque, logo se deram conta de que nada havia a fazer: no estavam com esprito para distraes. Comearam
ento a visitar uns aos outros. E, afinal, como ningum conseguia se tranqilizar, como as conversas esmoreciam, como lhes parecia que, enquanto estavam
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ali se fazendo mutuamente companhia talvez decises vitais
estivessem sendo tomadas, a ansiedade venceu o sentimento de convenincia. Encurtaram-se as visitas, saram todos e, como o Historigrafo e eu, descobriram, com
espanto, que todo mundo estava do lado de fora, nesse estranho lado de fora prprio do palcio, ou seja, fora de seus aposentos, em um espao pblico de circulao
em que sempre se esperava que passassem o Rei ou a Rainha e onde cada um podia ver e ser visto. Nessa noite, no entanto, tudo estava diferente. Fato indito em Versalhes,
a perturbao era forte demais para que a eterna e torturante preocupao de ser visto continuasse a existir. Sombras cruzavam-se nas escadas, nos corredores, nas
antecmaras. Ningum falava. Cada qual, desalentado, previa as maiores desgraas. Eu mesma fui tomada pelo desalento. O Historigrafo hesitava em voltar ao trabalho.
Estava dividido entre seu dever como testemunha-era quem devia prestar conta dos acontecimentos do reino - e o dever de moralista: uma vez que a vontade de Deus
se exprimia atravs da histria, ele devia torn-la to manifesta quanto possvel. A urgncia de escrever as Lies de moral acabou vencendo, afinal. Voltou s suas
lucubraes e me deixou a errar... Eu estava bem pouco  vontade. Gostaria de encontrar algum mais conhecido. Em voz baixa, alguns s vezes trocavam informaes.
O que chegava a mim nada tinha de tranqilizador. Falava-se de destruio de palcios parisienses pertencentes  nobreza e de matana de seus moradores. Dizia-se
tambm que bandos armados, agrupados em Paris, viriam atacar Versalhes. Estavam a caminho. De Paris a Versalhes, quanto tempo lhes seria necessrio? Doze horas?
Quinze horas? Chegariam pela manh. Era o tempo que eu tinha. Lembro-me de ter pensado que esquecera de pegar livros para a noite.
Andvamos  toa. Qualquer rudo nos sobressaltava. Soaram as onze horas. "Sair" no havia acalmado o medo. Pelo contrrio, ele se agravou com o espetculo da aparncia
esgazeada que apresentvamos
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uns aos outros. Ele se impunha, junto com a insnia e uma sensao de asfixia. Nessa situao, com a terrvel impresso de nossa vulnerabilidade, todas as
janelas se mantinham fechadas. Tambm as cortinas. Em determinadas salas, at mesmo os basculantes externos e as persianas. Movamo-nos em atmosfera pesada e tenebrosa.
Com medo de que nos vissem de fora acendemos poucas velas, como se dizia na corte por ordem do Rei, que havia eliminado o termo "tocha" de seu vocabulrio. Em certos
cmodos, castiais j acesos foram apagados. A obscuridade era to profunda quanto num bosque. Embarrvamo-nos o tempo todo sem querer. Os olhos reluziam estranhos
luares.
Alguns comearam a ter sede. Queriam vinho, cerveja, frutas. Fizeram soar as campainhas, mas criado algum apareceu. Incrdulos, insistiram. Puseram-se a gritar,
primeiro com vozes firmes, mas que foram se tornando cada vez mais inseguras. Aquele que acionara a sineta continuava a segurar a corda, perplexo. A seu lado formou-se
um grupo: "O que esto fazendo? No ouvem mais quando chamam? Onde esto? Onde se enfiaram nossos empregados?". Muitos deles moravam em Versalhes, em castelos particulares,
novos em folha, enquanto os patres preferiam alojar-se no palcio, apesar do desconforto, para no terem de ir  cidade cada vez que era preciso trocar os trajes
e tambm para estar sempre  vista, ao alcance do olhar. A estes ltimos veio, repentina, a impresso de que suas casas podiam ter sido ocupadas pelo inimigo e que
no poderiam mais voltar a elas. Imaginaram-se diante de seus castelos, isolados por barricadas. Recebidos com brados de provocao. Junto com garrafas arremetidas
diretamente do ptio. Seu ptio. Em Versalhes, os empregados tinham desaparecido, as antecmaras estavam vazias. Mas quando, exatamente, tudo havia comeado? Antes
da ceia? Um pouco mais cedo? Observei a ausncia, na Grande Galeria, dos guardas que instalavam ali as camas de armar. Estariam em conluio com os
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empregados? Estariam, todos juntos, contra o palcio? Guiariam
os arruaceiros at Versalhes?
A noite, que preenchia com seu manto a Grande Galeria e os Apartamentos Reais e desmanchava em total escurido os corredores, as antecmaras e os vestbulos, acentuou
minha sensao de estar perdida. Acenderam-se algumas velas, que foram para mim um reconforto fsico, nada mais. Ficou mais fcil circular, mas moralmente tudo permanecia
aflitivo. A angstia no nos unia. Observvamos uns aos outros de soslaio. Ns, os moradores, como eram conhecidos ento os que tinham o privilgio de morar no palcio
(palavras que eu adorava repetir: morador, moradora... eu morava...), experimentvamos o cruel reverso de nosso isolamento. Era muito bom, era maravilhoso viver
assim em separado, em soberana ignorncia. Era inquietador, era apavorante nada saber, ou quase, enquanto o restante do pas se unia contra ns. Pois sabamos pouqussimo.
E o que nos diziam era de tal modo incrvel! Ser que, de tanto avaliar meu tempo ao sabor das sesses de leitura junto  Rainha eu me teria alienado completamente?
Talvez me tivesse deixado levar, mais que os demais, pela clausura "nesse canto", mas parecia-me que a meu redor todos, titubeando nas trevas, estavam no mesmo
ponto.
Mantive-me distante das janelas. Preferia os cantos dos cmodos, as curvas dos corredores, todos os espaos indistintos de uso efmero e designaes variveis de
que o palcio era repleto. Arrastava-me ao longo das paredes opostas s aberturas para o exterior. Pois era de onde havia surgido aquela coisa atroz: o acontecimento.
A palavra era totalmente nova na corte, onde se preferia "anedota", "historieta do dia", que devia ser modesta, nfima, e  qual todos se esforavam, de repetio
em repetio, em dar consistncia, at torn-la, por algumas horas e caso passasse por um narrador  altura, um conto fabuloso. O acontecimento, pelo contrrio,
importante j de incio, no deixava lugar
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para a inveno. A coisa em si me assombrava, a palavra me repugnava. Eu a pronunciava da forma mais confusa, sem separar as slabas, sem conseguir dissimular para
mim mesma que algo tentava ali se revelar.

A LISTA DAS 286 CABEAS A SEREM ABATIDAS PARA QUE SE OPEREM AS REFORMAS NECESSRIAS

A noite trouxe rapidamente uma terrvel fadiga. A fora para se manter de p, qualidade da maior importncia para quem freqenta a corte, no existia mais. Buscavam-se
lugares para sentar. Dormia-se pelos cantos. Alguns se deitavam no cho mesmo, sobre os tapetes. Eu tomava cuidado para no pisar nas mos de ningum. Entrei no
Gabinete de Acesso aos Terraos, um local que me agradava apesar de no mais levar a terrao algum, pois s o nome me fazia imaginar a Versalhes do rei Lus XV,
um palcio cheio de viveiros de pssaros, espaos com vinhas e latadas, terraos cercados de buganvlias... Encontrei ali apenas uma triste assemblia, na qual,
de certa maneira, tropecei. Diante de um banco encostado em uma parede, alinhavam-se algumas cadeiras de armar. Um pequeno grupo conversava assim, no escuro, cada
um dos integrantes perdido na prpria aflio. Pouco a pouco, no entanto, fui me sentindo melhor. Era o efeito de, pelo menos, ouvir de novo algo que se assemelhava
a uma conversa. Pois acreditava
- era ainda uma idia vaga - que se pudssemos de novo nos falar, se consegussemos salvar, como a um fogo sagrado, a eterna conversa que se mantinha desde a instalao
da corte em Versalhes, o palcio viveria, e, junto com ele, a realeza.
As frases dbeis que iam de uma pessoa a outra, num tom cansado mas decidido a continuar, reanimaram-me. J no me lembro muito bem do que se falava... Assuntos
andinos... Talvez do novo sistema de aquecimento que o Rei mandaria instalar na tribuna real
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da Capela, para o prximo inverno, ou de La veuve du Malabar,
grande sucesso no teatro Ambigu Comique em Paris. O velho padre Noslin, Controlador das Sementeiras do Rei, teve enfim coragem para enfrentar a situao. "H uma
espcie de efeito de coalizo", disse, com a mesma calma com que conseguira, dez anos antes, convencer o jovem Lus XVI a arrancar as rvores velhas do bosque que
certamente ficou um tanto vazio no incio, mas que, em 1789, estava esplndido. O parque, ainda um pouco maltratado em certos cantos, alcanara um equilbrio perfeito.
Eu gostava muito daquelas rvores. Em meus lugares favoritos de passeio, tinha a sensao de conhec-las uma a uma e de que tambm elas me conheciam. Em sua maioria,
vinham de outros lugares, como eu. Haviam um dia chegado em Versalhes e se enraizado. Eu falava com elas, que tambm tinham coisas a me dizer... Nos primeiros tempos
de minha vida no palcio, o senhor de Montdragon me mandava visitar o parque. Assim que comecei a me extasiar com a fora da natureza, ele logo me preveniu de que
tudo era artificial em Versalhes, tudo era intencional, inclusive as rvores. As primeiras a serem transplantadas vieram do Palcio de Vaux-le-Vicomte. Quando
Lus XIV olhava as rvores do parque, tinha diante de si trofus arrancados a Fouquet,14 smbolos de sua vitria sobre o excessivamente suntuoso 
Superintendente.
* 14 Nicolas Fouquet foi Superintendente Geral das Finanas sob Lus XIV, no perodo Mazarin. Construiu o Palcio de Vaux-le-Vicomte, em que o rei se hospedou. Aps 
a morte de Mazarin, Lus XIV mandou prender Fouquet, acusando-o de dilapidao das finanas pblicas, e seus bens foram confiscados.*

Nada
em Versalhes era original, exceto a nobreza. E isso bastava. O restante era decorao... "Compreende isso, senhora?" conclura o senhor de Montdragon. Respondi que
sim. No compreendia totalmente, mas acreditei que, com o tempo, acabaria por compreender... Ele no se referia apenas s rvores, nem  sobreposio de folhas.
- H como que um efeito de coalizo - repetiu o velho proco.
Seguiu-se um silncio. O senhor de Goulas, homem de temperamento forte, de grande aparato e boa mesa, foi o primeiro a reagir:
- Concordo quanto ao efeito de coalizo, reverendo, mas entre quem?
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O padre Noslin no estava em condies de particularizar. Mas o senhor de Feutry respondeu por ele.
- Entre descontentes. - E contou um incidente que acabava de testemunhar, no prprio palcio.
Na vspera, por volta das seis horas da tarde, ele passou pela Grande Galeria. Observou, na entrada, ao lado do Salo da Guerra, bem prximo ento dos Apartamentos
Reais, um grupo com modos suspeitos. Quatro ou cinco pessoas distribuam impressos. Ao redor, a criadagem, gente do povo, se alvoroava para os conseguir. O senhor
de Feutry disse a seu criado que lhe buscasse alguns. Ele conseguiu e passou um bom tempo - apesar da espera do patro - a falar com as pessoas que distribuam os
folhetos. O senhor de Feutry, impacientssimo, no teceu qualquer comentrio. Precipitou-se a ler. Tratava-se de um panfleto intitulado Lista das 286 cabeas a serem
abatidas para que se operem as reformas necessrias. Duzentas e oitenta e seis cabeas! Uma tenso agitou o banco de veludo.
- Lembra-se dos nomes listados? - perguntou o padre Noslin.
- Certamente o do senhor no estava l, padre. Nem o meu e nem, parece-me, o de qualquer um de ns. Apesar de ignorar, em parte, em qual companhia tenho a honra
de me encontrar, tudo se passa to pouco protocolarmente esta noite! Os dois primeiros nomes eram o da Rainha e o do conde de Artois. Disso tenho certeza.
Senti um calafrio.
- Cortar cabeas para operar reformas. No compreendo disse uma senhora que me era totalmente desconhecida.
Tinha uma voz clara, infantil. Ningum lhe respondeu. Um homem perguntou ao senhor de Feutry:
- Quem, segundo o senhor, eram as pessoas que distribuam o panfleto?
- No sei. O que posso dizer  que tinham pssima aparncia.
Uma coalizo de descontentes, indivduos com pssima aparncia, essas informaes ferviam em minha cabea. Mas onde estavam at ento? Por que surgiam assim, de
repente? Pareciam felizes at
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ali. Nas gazetas lia-se "O povo explodiu de alegria" ou "Com gritos
e aplausos o povo mostrava sua felicidade diante dos soberanos".
 exatamente como diziam, o povo no  mais o povo. Foi comprado. Por mercenrios, por estrangeiros, por bigodudos armados com pesados cacetes. Misturam-se ao povaru,
sublevam-no com discursos, distribuem lcool e dinheiro. Dizem que prises inteiras despejam nas ruas seu contingente de criminosos. Enlouquecidos com a liberdade,
adorando matar, estavam em festa. Brigavam a pedradas e golpes de barras de ferro.
Estava a ponto de desmaiar. Pensava com horror nos hospitais, os leprosos, os sifilticos, quem os impediria de se espalhar, de vir nos estuprar, nos contaminar?
Iriam nos amordaar com seus curativos duros de sangue e de pus... Ah! Meu Deus! Prefiro morrer de imediato. Por alguns segundos, cheguei a desejar que a corte se
suicidasse em massa. Quando chegassem os assassinos, s encontrariam cadveres. Que horror! Senhor! Que horror!
Ouvi algum dizer:
- Em Dijon, os aougueiros foram s vias de fato. Em Vizille, em Lyon, em Marselha, as corporaes lhes travaram o passo. Mas no so s os aougueiros, os outros
trabalhadores vo seguir o exemplo. Os salsicheiros, os sapateiros, os marceneiros, os carpinteiros, os ferragistas e ferreiros. Todos tm ferramentas e sabem delas
se servir.
Tambm o palcio estava cheio de marceneiros, de estucadores, de cravejadores... Vivamos nossos ltimos instantes. As pessoas ao redor falavam por sobre minha cabea.
Cada um anunciava atrocidades inauditas. Nossa clula de aflio no Gabinete de Acesso aos Terraos parecia a ponto de explodir.
- Que delrio  esse? - retomou a mesma voz clara e infantil, um tanto plangente. Sua Majestade sai chorando do gabinete de trabalho porque, assegura, referindo-se
ao povo, "seus filhos lhe causam sofrimento". Ao mesmo tempo, em Paris, o povo desfila, aos gritos de "Tragam de volta o senhor Necker,  o nosso pai!". Quem  o
pai? O Rei ou o senhor Necker? E o que querem os filhos?
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Novamente, ningum lhe respondeu. Foi pena. Eu tambm queria compreender. Ouvi em seguida: "As crianas querem escolher o pai.  o novo Evangelho, senhora condessa".
No sei por qu, fui tomada por tremores.

EM OUTROS TEMPOS, NA POCA DAS BELAS TRADIES

O gabinete se tornara escuro e apertado, o que me deixava louca. Dirigi-me a peas mais iluminadas e logo percebi que se mantm melhor compostura com algumas velas
acesas. Assim se passava no Gabinete dos Despachos. Reconheci o senhor de Pujol e o senhor de Chvreloup. Estavam em plena discusso (como em toda noite de viglia,
havia alternncia entre momentos de esgotamento e de retomada da energia). Perguntavam-se como o partido da corte podia ter chegado quele ponto. Tentaram, primeiro,
jogar a responsabilidade sobre os ingleses, sempre dispostos a festejar as desgraas dos franceses e, por conseguinte, a dar um empurro. Depois, incriminaram os
iluministas e os franco-maons; por fim, e com maior convico, os filsofos.15
* 15 No caso, especificamente Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, os "enciclopedistas" Diderot e D'Alembert etc.* 

 Os filsofos? Eu prestava toda a ateno. Nunca os transportava em minha sacola de
livros, mas os dois cavalheiros pareciam conhec-los e desaprov-los. Diziam que o que havia revirado os espritos foram os esforos sistemticos para destruir,
a incitao  dvida, a mania de defender o trabalho como instrumento de liberao, a promessa de felicidade. Aqueles homens eram dignos dos ltimos suplcios. Eram
espritos obscuros, cabalistas de quatro costados. Direito  felicidade. Pode-se imaginar idia mais calamitosa?
Os filsofos monopolizaram a culpa. Cada um dos dois cavalheiros tinha algo a dizer sobre eles. Rapidamente o tom se tornou to exaltado quanto o do cmodo que eu
acabara de deixar. O senhor de Pujol retomou a palavra. Todos aqueles filsofos, que nos maavam com seus propsitos de igualdade, eram uns ambiciosos.
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Tinham um s desejo: sobrepujar os colegas. Eram devorados pela
ambio. Infelizes que ruminavam megalomania. No suportavam os reis porque tomavam a si mesmos por reis. Reis! Deuses! Os filsofos queriam mesmo que se lhes devotasse
um culto.
- Devem ser mandados de volta a seus lugares;  fcil, no faz tanto tempo. Lembrem que, no reinado anterior, mesmo algum to apaixonado pelas belas-letras quanto
o prncipe de Conti jamais permitiria um desses filsofos sentado  sua mesa. Sequer em vilegiatura.
No sei se foi "reinado anterior" ou "vilegiatura", mas algo desviou a ateno do senhor de Pujol, que teve acesso de nostalgia. Ps-se a recitar (posso ainda ouvir
o ritmo de melopia, o langor de barcarola que impregnava suas palavras coloridas pelo sotaque sulino):
- No tempo de Lus XV, poca de belas tradies, todos os prncipes sustentavam um autor, que era parte integrante da casa. Coll, por exemplo, pertencia ao velho
duque de Orlans, Laujon, ao prncipe de Conde. Nas festas, esses belos espritos eram muito consultados. Compunham coplas, divertiam-nos com suas rimas. Eram tratados
com cortesia, e at confesso que, vrias vezes, tive o prazer de conversar com eles. Mas estava fora de cogitao deix-los passar dos limites. Tomavam as refeies
em uma mesa  parte, com os escudeiros e os chefes de servio ordinrios. Quanto a sentar-se  mesa de prncipes... - o senhor de Pujol teve um princpio de riso
nervoso - falemos srio! Belo esprito algum jamais se sentaria  mesa de um prncipe. Aps a refeio, estavam autorizados a tomar o sorvete no salo. Algumas vezes,
por liberalidade do prncipe, iam mais tarde ao salo de bilhar, para assistir ao jogo, mas sempre de p, como quando tomavam o sorvete. Podiam permanecer meia hora,
quarenta e cinco minutos no mximo. - E as ltimas palavras foram escandidas com a ajuda de golpes de bengala.
O narrador, que contou o que todo mundo sabia, foi ouvido com beatitude. De repente, talvez pela crueldade de pensar em tempos desaparecidos, uma implacvel conscincia
do presente ganhou
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fora. O reino de Lus XV era passado. No presente, as pessoas com talento tomavam seus sorvetes a qualquer hora. Saboreavam-nos at deitados... Ao redor da mesa,
cavalheiros cochilavam com a cabea apoiada num brao, como meninos de escola preguiosos. Eu bem que me teria sentado tambm, mas todas as poltronas estavam tomadas.
J ia partir (pensei no Gabinete dos Ces, que tinha um espaoso sof) quando, na entrada, soou uma voz seca.

Uma voz dominadora. Voz de homem? De mulher? No deu para saber. O que se pde perceber, no entanto, foi o tom provocador dessa pessoa e a formidvel energia que
a animava. No ponto de desnimo em que chegramos, ningum tinha vontade de retomar qualquer debate, menos ainda sobre os filsofos. Mas a pessoa recm-chegada parecia
pronta a continuar a discusso. A voz autoritria contraps:
- Os filsofos no so todos "belos espritos", animadores de festas. Os verdadeiros filsofos so independentes. Trabalham. Pensam. - As ultimas palavras foram
sublinhadas
com uma nfase explicitamente agressiva. - H boas e at mesmo excelentes coisas nos filsofos. Quem no leu O esprito, de Helvtius, ou O contrato social, de Jean-Jacques
Rousseau, no entende nada da dinmica de nossa poca.

DIANE DE POLIGNAC

Nessas palavras reconheci a condessa Diane de Polignac e tive ainda mais vontade de desaparecer, mas no me atrevi: aquela mulher me tetanizava. Era ela mesma! Falava
de dinmica, enquanto estvamos em plena queda. Era bem o seu estilo descobrir, em qualquer situao, o que a pudesse destacar... Fincou os ps no centro da sala.
Os homens se levantaram. Desculparam-se
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pela desateno na presena de pessoa to considervel. Diane de
Polignac, macia, sem qualquer beleza, subjugava pela inteligncia, pela altivez. Acrescentava a essas "qualidades" uma agressividade no dissimulada. Sentar-se
diante dela era como estar diante de um comandante de guerra; quando cobiava um homem, no perdia tempo com rodeios para consegui-lo. Ela multiplicava suas ligaes,
mas no se prendia, pois, no fundo, era com o irmo que formava realmente um casal. O duque de Polignac tinha modos sedutores. Construra uma carreira inconcebivelmente
rpida. Depois de conseguir a sobrevivncia do cargo de Primeiro Escudeiro do Rei, foi nomeado Diretor das Postas e dos Haras. Na seqncia, passou de conde a duque...
Pode-se adivinhar que ele no devia tanta prosperidade apenas ao prprio talento, mas  plena confiana que depositava na irm. Lcido quanto s faculdades polticas
de Diane, que eram incomparavelmente superiores, punha-se em suas mos e seguia ao p da letra seus conselhos. Diane tinha determinao, audcia e um instinto calculista
que a fazia detectar, no mesmo instante, o que lhe fosse proveitoso. Graas a essa qualidade, adivinhara de imediato, nos primeiros sinais de amizade da Rainha por
Gabrielle de Polignac, que tinha a chave do poder. Diane e o irmo reinavam em Versalhes, mas usavam para isso uma isca: Gabrielle. Todo o cl Polignac, encabeado,
dirigido e manipulado por Diane, dependia de um frgil lao sentimental, passional: a amizade da Rainha pela favorita. De um dia para outro, a fulgurante preferncia
que beneficiava toda a famlia podia ter fim. Bastava para isso que a Rainha, um dia, no mais se sensibilizasse com o sorriso de Gabrielle, com sua graa, com seu
ar de quem ignorava completamente encontrarse na corte de Versalhes. Gabrielle tinha a arte de atravessar os Apartamentos Reais como se eles fossem um jardim privado.
Com uma indolncia que fazia perder o flego. Quem a observasse podia pensar que no tinha qualquer noo da prpria sorte: ter sido escolhida pela Rainha, ter se
tornado sua amiga e, sobretudo, conseguir manter a amizade apesar das intrigas incessantemente
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inventadas para separ-las. Damas mais elegantes eram introduzidas junto a Maria Antonieta para atrair-lhe a ateno, mas ela sequer as olhava...

Diane perturbava, vez por outra, os passeios da Rainha com a amiga. Esta ltima, dotada da faculdade de nada entender e acostumada com as manias intelectuais da
cunhada, no se incomodava. Para a Rainha, entretanto, era um martrio. No conseguia deixar de ouvir, talvez por no poder imaginar uma conversa em que ela prpria
no fosse o centro, ou ainda por causa do tempo em que, pouco  vontade com a lngua francesa, escutava com extrema ateno, com medo de perder alguma palavra. Durante
as explanaes sobre Jean-Jacques Rousseau, a Rainha virava a cabea e a ocultava no leque. Diane, com os olhos a brilhar, com o corpo pequeno curvado, desenvolvia
um conceito. Certa vez, ao chegarem no Palcio de Saint-Cloud, a Rainha estava to abatida que no quis descer da carruagem. Faziam um passeio de ida e volta pela
grande alia do Belvedere. Preferiu voltar a Versalhes sem olhar as fontes, as roseiras e a floresta de jasmins. Gabrielle sorria, com a cabea encostada em almofadas.
Diane aproveitou para prosseguir. A Rainha sufocou um gemido. As idias abstratas causavam-lhe dor fsica. A inteligncia clarividente a horrorizava. Apreciava-a,
no entanto, se a pessoa pudesse conciliar com a inteligncia alguma suavidade...
Apoiada contra a lareira, a condessa cheirava rap. A dico rude era entrecortada por fortes fungadas. Bem prxima, eu prestava ateno em sua boca voraz, sob a
penugem que encobria o lbio superior. Diane, como sempre, discorria. O rap caa e se acumulava, em ondas, sobre seus seios. Diante da imperiosa condessa, as pessoas
se comportavam como crianas pegas em flagrante delito. Diane percebia, divertida, que as pessoas se sentiam aviltadas.
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De minha parte, estava fascinada por seus lbios grossos pintados,
pelos seios, pelas mos slidas. E eu dormia em p... S voltei a escutar o que diziam quando o senhor de Feutry, outro trnsfuga do Gabinete de Acesso aos Terraos,
contou mais uma vez o incidente do panfleto. Como antes, todos queriam saber, a qualquer preo, se o prprio nome constava na lista. Uma lista... No seria recitada
como um u-ni-du-ni-t. E decerto estava j afixada nos muros de Paris.
Diane estava em excelente posio nessa lista. No era a primeira, pois o lugar cabia  Rainha, mas no estava longe. Comeou brincando com o fato, mas, aps uma
aspirada que calou fundo, teve uma das bruscas rupturas de tom que lhe eram comuns. Essa, no entanto, ficou gravada em minha memria, pelo momento em que se deu
e pelo irresistvel tom de convico com que Diane se exprimiu.
Abandonando a zombaria, ela se ps a criticar tanta tagarelice intil. Achava que todos - inclusive ela mesma - estavam perdendo em consideraes egostas o pouco
tempo que restava para mobilizar foras em prol da famlia real. Falou admiravelmente sobre fidelidade, sobre a urgncia de se salvar o Rei e a Rainha, de sacrificar
nosso interesse pessoal por esse dever. Falou sem parar. Bem junto dela, tomada por seu odor de rap, estupefata diante de palavras to nobres, baixei a cabea.
Fidelidade, Sacrifcio, Salvao do Rei e da Rainha... Preparar-nos para morrer por eles, seus sditos, seus vassalos... Sua voz se tornava cada vez mais sonora,
irresistvel, cravando-nos a conscincia. Diane, nessa hora, bradava: "Estamos diante de um sistema de insubordinao calculado e contrrio s leis. Os direitos
do Trono foram questionados. J haviam proposto a supresso dos direitos feudais, tidos como um sistema de opresso. Mesmo que Sua Majestade no experimente nenhum
obstculo  suas vontades, poder sua alma, justa e sensvel, determinar o sacrifcio e a humilhao desta brava, antiga e respeitvel nobreza, que tanto sangue
derramou pela ptria e pelos reis? E por falar em nobreza, os prncipes de vosso de sangue falam
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por si mesmos. So, antes de tudo, gentis-homens". Diane continuou, eloqente. Eu no via mais seus lbios se moverem. Ouvia apenas as crticas que meu corao ditava.
Com aquelas frases de Memria dos prncipes, novas silhuetas surgiram, comprimindo-se entre as duas portas do Gabinete dos Despachos. Os sitiados se reuniam, se
armavam? Recusariam o fatalismo dos condenados para morrer em combate? Eu vibrava. Sobrevieram-me imagens das Cruzadas, mpetos de herosmo e de amor corts. Imaginei
a Rainha a cavalo e de armadura. Atrs dela, com os estandartes desfraldados, o Rei e os prncipes de sangue... Diane me tinha simultaneamente estimulado e afligido
com a culpa. Atravessei outras salas, esperando encontrar todos em p de guerra. Dignai-vos, Sire, ouvir o voto de vossos filhos... ditado pelo desejo de tranqilidade
pblica e de conservao do poderio do Rei, o mais digno de ser amado e obedecido, uma vez que apenas deseja a felicidade de seus sditos... Os prncipes de sangue...
O conde de Artois, o prncipe de Conde, o duque de Bourbon e o prncipe de Conti... Assinaram com o prprio sangue... Tambm eu quero derramar meu sangue...

Embora eu no ignorasse o cinismo de Diane de Polignac, fiquei com um sentimento de culpa. Achei que aquele discurso podia representar uma reviravolta, uma tomada
de conscincia repentina da importncia de sua dvida aos soberanos. Perdi tempo ouvindo tagarelices em vez de correr para junto da Rainha. Imaginei que devia voltar
para meu quarto. Manter-me ali, estagnada, no tinha o menor sentido. No ajudava em nada. No a ajudava. Devo tambm ter pensado que, se por acaso a Rainha mandasse
me buscar, no me encontraria. Foi o bastante para me decidir. Foi horrvel! Foi como se me furtasse  minha misso na nica vez em que minha presena poderia ser
realmente til. Devia voltar para meu aposento, esperar seu chamado. Infelizmente, estava demasiado cansada, incapaz do menor movimento. Queria uma xcara de chocolate
para me reconfortar. Ia pedir a Honorine, que achei ter visto em
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um grupo. Vestia a mesma capa longa e esverdeada da manh. Seus
cachos castanhos se armavam em pequenos chifres ao redor da cabea. Antes que eu pudesse falar, ela atalhou: " claro, Agathe, ter sua xcara de chocolate imediatamente.
Um criado lhe trar". Agitou os cachos e quase se pendurou no cordo de uma sineta. No tive tempo de gritar que no fizesse aquilo. Honorine desapareceu, e todo
um exrcito de criados se ergueu  minha frente, mas no para me trazer o chocolate. Ali estavam, imensos, uma viso insustentvel, como uma fosforescncia. Suas
librs tinham todas as cores - azul dos Garons de Versalhes, vermelho da Rainha, verde do conde de Artois, rosa do prncipe de Ligne -, mas a cor das librs dos
criados, em geral a coisa mais importante a se considerar, tinha se tornado secundria, ofuscada por sua presena monumental. Eles eram incrivelmente altos e fortes,
com rostos grandes e terrveis mos vermelhas e ossudas. Tudo neles era ameaador, mas sobretudo as mos, que balanavam  frente como podadeiras. Finja no ver
isso, dizia a mim mesma. Desvie o olhar. E lembrei-me da frase do Manual das boas maneiras: "No se rebaixe encarando um criado, no se rebaixe encarando um co".
Estava alm das minhas foras, no conseguia desviar o olhar. No avano inexorvel dos criados, no escndalo daqueles rostos repentinamente visveis e das mos nuas,
havia algo excitante algo apavorante e atraente ao mesmo tempo.
Quando recobrei a conscincia, um homem cochilava no canap em que estava encostada. Tinha a mo fechada em torno de meu tornozelo. Sua respirao era curta e difcil.
No ousei me mexer. Bem prximo, dois outros homens tentavam se animar:
-Pessoalmente-dizia um -, tenho toda a confiana no baro de Breteuil;  excelente que seja o ministro do novo governo.
- Um ministro catlico, monarquista e francs. Uma agradvel mudana depois de um banqueiro protestante, republicano e suo.
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- Esse Jacques Necker, alm de tudo, veio no se sabe de onde. Quem  ele? Quem j ouviu falar do pai desse fulano? Da filha, claro, todo mundo j ouviu, mas dos
ancestrais, absolutamente. Acredito na sabedoria dos provrbios... Sangue bom no mente. O senhor baro de Breteuil, tal qual o av, que ningum jamais igualou como
Introdutor de Embaixadores, tem perfeito senso das convenincias. Pode ser necessrio para nos tirar desse... passo em falso.
- O senhor de Breteuil soube se cercar de homens de mrito.
- E digo mais, seu programa  irretocvel. Pediu ao Rei cem milhes e cem mil homens para sufocar a rebelio. Uma idia concisa, luminosa, admirvel.
O homem que segurava meu tornozelo agitou-se no sono. O despudor do gesto me paralisava. Perguntava a mim mesma se passaria o restante da noite com o p entregue
a um estranho.
- Aprovo inteiramente. Cem milhes e cem mil homens. A temos algum que no articula grandes frases, no escreve um tratado, mas vai direto ao ponto.  preciso
que o Rei, pelo menos dessa vez, no d ouvidos a seu parcimonioso e pattico instinto de burgus mesquinho. Ele  um filho de So Lus com esprito de comerciante!
Que entregue sem mais tardar dinheiro e soldados. E vamos em frente, que esta efervescncia j durou demais.

O dorminhoco acordou. Quando se deu conta da incongruncia de seu gesto, da imensido de minha vergonha - eu precisara despir at a batata da perna para me safar
-, no soube como se desculpar...

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COM A RAINHA NO GRANDE GABINETE DOURADO. PREPARATIVOS PARA A PARTIDA (DA MEIA-NOITE S DUAS HORAS DA MANH)

Minha cabea zumbia, as tmporas doam, queria uma fonte de gua para molhar o rosto. Ou simplesmente minha cama, para descansar um pouco. Entretanto, no momento
em que entrava no Ptio dos Prncipes, fui parada por um criado da Rainha. Entregou-me uma mensagem escrita pela senhora Campan, Primeira Camareira da Rainha. A
simples viso de sua caligrafia redonda, aplicada, servil, to complacente e estpida quanto ela, duplicou o peso de minha fadiga. Mas, tendo em vista a origem do
bilhete, nem pensei em me esquivar. Pelo contrrio, senti-me grata pela ordem to inopinada para ir v-la. Era uma hora absurda para uma sesso regular de leitura,
mas a Rainha logo estabelecera o hbito de me chamar a qualquer momento, quando sentia que, decididamente, o mecanismo da insnia se instalava, mesmo tendo adiado
ao mximo a hora de ir para a cama. Em minha voz, que a meu"protetor, o senhor de Montdragon, parecera apenas "surda" e comodamente discreta, a Rainha percebera
uma virtude calmante. Eu podia saltar uma pgina ou ler duas vezes a mesma que ela no notava. Estava tomada por um desejo de esquecimento, por um convite subjacente
s palavras, que minha voz transmitia: "Feche os olhos, repouse". Eu acudia, meio adormecida, meio descomposta, com uma veste sobre a camisola. Quando chegava, uma
mesinha sobre a qual queimavam quatro velas estava preparada. Eu ficava no escuro e abria o livro. s vezes, por causa das correntes de ar, as chamas moventes carregavam
as palavras como no balano das ondas. Havia mar agitado em minhas pginas, e, no entanto, estendida em uma espreguiadeira, a Rainha ouvia como se ouve msica noturna.
As palavras se sucediam quase murmuradas ao sabor das ondas. Eu era puxada por violento desnimo, que superava quando minha voz emergia forte o bastante para salvar
a ambas dos pavores daquelas horas, para as quais ningum ainda inventara
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o cerimonial adequado. Ambas, eu me atrevia a dizer. Essa secreta indecncia me fazia ruborizar. Lanava  Rainha um rpido olhar, como se ela pudesse ter adivinhado
minha ousadia. Parecia no auge do desconforto. Espreguiava-se, sentava-se, colocava as mos na cabea. Voltava a deitar, fechava os olhos. Meu ofcio, irregular,
estava ligado  noite,  fase de guas paradas,  zona mais temvel, aquela em que o que de pior j aconteceu vem  tona outra vez, puxando para o fundo.  a zona
em que ocorrem os afogamentos. Eu ajudava na travessia daquilo que ela no conseguia atravessar sozinha.
"Faa-me dormir, senhora", era o que a Rainha pedia s vezes, com um suspiro.
Com a mo enluvada de branco, o criado ergueu uma tocha. Eu o segui. Passando ao lado da Sala da Guarda da Rainha, ouvi um barulho confuso de vozes de homens, vidros
que se chocavam, armas que caam. Percebi tambm refros cantados em patos to incompreensveis que achei serem lnguas de outros pases. Pensei inclusive que os
soldados do exrcito estrangeiro, recentemente dispensado, tivessem voltado para dar apoio  Rainha, apesar da contra-ordem do Rei. O barulho chegava at a Antecmara
do Grande Servio, completamente vazia; no entanto, bastou que se abrisse uma portinhola acolchoada e revestida por uma espessa tapearia verde-escura de Tours,
no ngulo da Pea dos Nobres, para encontrar a calma da Biblioteca, ainda maior no pequeno cmodo contguo, chamado Suplemento da Biblioteca. Uma impresso de proteo
e de isolamento que culminou quando cheguei ao centro dos gabinetes internos, um conjunto de espaos diminutos, pouco iluminado, chamado Grande Gabinete Interno,
ou Gabinete Dourado.
Grande ele no era, absolutamente; mas dourado, sim. E todo aquele ouro, espalhado pelo emadeiramento branco, em torno dos espelhos, em forma de guirlandas e fitas,
em frisas bem finas, em
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perfis de fnix, nos acabamentos da lareira, nos braos das poltronas,
nos ps de mesa e nos fios da harpa, criava um miraculoso vu de chuva, atravs do qual distingui a Rainha, tambm coberta de gotculas de ouro, segundo me
pareceu. Debruada sobre uma secretria, lia cartas ou papis. Virou os olhos em minha direo, mas no pareceu me ver. Em nada mais se assemelhava  jovem, quase
uma criana, que eu deixara na vspera, e nem  estatueta de marfim que vislumbrei na varanda. A senhora Campan fazia-se de importante. Inflada, exagerando os gestos
de discrio, adiantou-se, empurrando-me. Avancei de vis, curvada em reverncias. E ela, com apesada corpulncia de galinha-me, se interpunha entre mim e a Rainha.
A Campan me fez ir at o Quarto de Banhos e, no satisfeita, deixou-me na Pea de Banhos. Espero que no queira me trancar no Gabinete da Retrete, pensei. Ela estendeu-me
vrias folhas de papel e apontou para uma mesa coberta de frascos de perfume. Fiz um gesto para senti-los.
- No vai querer, espero, tocar nos perfumes de Sua Majestade - sibilou com raiva. - Sua Majestade est ocupada lendo e selecionando documentos pessoais. No precisa
absolutamente que a senhora lhe faa leituras - acrescentou.
No tive tempo de dizer nada. Ela completou:
- A senhora tem apenas de escrever, em uma folha, alguns ttulos que lhe paream indispensveis em caso de transferncia para o campo. O senhor Campan poderia se
incumbir da tarefa, mas foi chamado a ofcio mais indispensvel. - O senhor Campan, cujo nome no lhe saa da boca, era seu pai.
Pensei logo na transferncia da Assemblia Nacional para Soissons ou Noyon e na partida para Compigne. Gostei da idia. O pedido, no entanto, pareceu-me incongruente:
todos os palcios em que a Rainha se instalava possuam bibliotecas. Mas no discuti esse ponto, fiz ressalvas apenas quanto ao lugar em que devia escrever; teria
preferido trabalhar na Biblioteca.
- A Biblioteca, assim como o Suplemento e o Gabinete da Espreguiadeira logo estaro repletos de bagagens. Mesmo com
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toda a sua boa vontade, a senhora nos incomodaria, senhora Laborde-respondeu a Primeira Camareira da Rainha; e foi como se me tivesse acertado uma cotovelada no
estmago.
Pus-me, ento, a trabalhar na Pea de Banhos. Concentrei-me tanto quanto possvel, apesar dos cochiches da senhora Campan com a comparsa, a senhora de Rochereuil,
Encarregada da Cadeira Higinica da Rainha, no cmodo ao lado. Separavam roupas de baixo. Todos sabiam que a senhora de Rochereuil confiscava as no selecionadas
e as vendia a bom preo. Seus dedos pareciam garras. Dedos longos e pontudos, que pinavam tudo em que encostavam. Dedos cujas unhas, terrveis, furavam as extremidades
das luvas. S de ouvir seu nome, eu j tremia. E pensava: um dia ainda h de furar os olhos da Rainha.
Por hora, no se atrevendo a tanto, conspirava. Tentava convencer a senhora Campan a se passar para o campo inimigo. A Primeira Camareira resistia, mas  senhora
de Rochereuil no faltavam argumentos:
- No devemos mais tolerar o desprezo, a humilhao. Somos seres humanos, tanto quanto ela. Temos nossa dignidade. Por que exigiu uma cadeira higinica em laa e
bronze dourado? Por que mesmo l, nessa situao, quer se sentir superior ao restante do universo? Isso lhe parece justo, Henriette?
Henriette estava totalmente confusa e fazia sinal  Rochereuil que se calasse. Morria de medo que a Rainha ouvisse. A outra, perversa, divertia-se com a personalidade
medrosa da amiga:
- Acredite, estou em boa situao para saber quem ela realmente .  quando os reis mais se aproximam da natureza que melhor se constata a impostura com que pretendem
se distinguir do restante da humanidade. Eles no nasceram para nos dar ordens. Ningum nasceu para nos dar ordens. Temos como senhores apenas aqueles por quem optamos.
Ns mesmos. Livremente. Com pleno conhecimento de causa.
- Cale-se, cale-se. Falaremos disso tudo mais tarde, com a cabea descansada.
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- Vamos, a senhora sabe disso, apenas no quer reconhecer; os
antigos preconceitos a impedem. Oua seu irmo, o senhor Gent...
- Ah! nem me fale desse rapaz. Tem bom corao, mas ... como direi...
-  republicano. Ele enxerga as coisas como elas so e escolheu o bom partido. Escute, ele lhe mostra o caminho.
- Aquele biltre?
- Ele mesmo. Devia se orgulhar dele.  um jovem inteligente e honesto. Declara, onde quer que esteja: "Ver um Rei me causa horror".  dessa juventude que precisamos.
A senhora Campan queria escapar dos maus conselhos da senhora de Rochereuil. Eu suspeitava que seria menos ntegra sem meu testemunho e sem tanta proximidade da
Rainha. Veio me procurar. Entreguei-lhe os ttulos. "Mandarei buscar os livros", disse. Pouco depois - e essa  uma cena estranha para mim, pois no tinha nenhuma
relao com as outras sesses de leitura - fomos chamadas, a senhora Campan e eu. A Rainha precisava de ns, no Grande Gabinete Dourado.
Descobri que minha tarefa era compulsar rapidamente vrios livros sobre a regio leste do pas, livros ou mapas que porventura existissem ("mapas detalhados", insistiu
a Rainha), e estabelecer o melhor trajeto possvel entre Versalhes e Metz.
Ento a Rainha partia para o campo, em Metz! Isso era novidade. No havia mais papis sobre a mesa. Um cheiro de queimado indicava que no se tinha contentado apenas
em ler ou reler. Seus gestos eram febris. A expresso era tensa, para alm da fadiga. Tinha o rosto amarrotado, a pele pontilhada de vermelho. O clebre trejeito
dos lbios, que tanto contribua para o odiento ar de desdm, embora ela talvez no tivesse esse sentimento, era muito visvel. Mas havia nos olhos, aumentados pelo
contorno arroxeado que invadia as bochechas, uma dureza nova. Ela estava abatida, mas no completamente. Ou tinha estado e no
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estava mais. Pelo contrrio, um poder de deciso, um impulso emanavam de si.
Eu adorava olh-la. Adquirira um sexto sentido que me permitia sentir quando no estava na defensiva, quando, tomada por uma ocupao ou um devaneio, deixava uma
efgie sua  minha disposio, por assim dizer. Era raro que a olhasse diretamente-como havia feito, na vspera, no quarto do Petit Trianon. No mais das vezes, devia
me contentar com sua imagem refletida. No Grande Gabinete Dourado, no ngulo em que estava, todos os espelhos serviam  minha expectativa.
O rosto desfeito, prematuramente envelhecido, que no guardava mais nada da graa distrada da adolescente, era ainda atraente. Mais ainda, de certo modo. Naquele
meio tempo, a Rainha fora atingida, vencida. Apesar de todos os meus esforos, no conseguia apagar do esprito as palavras do Historigrafo: "Estamos perdidos".
Mas o ardor de seu olhar, o brilho duro e forte, impedia que se acreditasse que ela aceitava o fracasso.

A Rainha mandou que trouxessem o que chamava "mesa de viagem". Era uma mesa de marchetaria, delicadssima e cujo tampo mvel se abria em duas abas. Havia ali uma
cavidade profunda, que continha um cofrinho cheio de jias. No todas as jias, mas as que usava regularmente. Sentada em frente da mesa, tentava escolher as que
queria levar. Era uma tarefa impossvel.
- Levarei todas... e a senhora est encarregada, senhora Campan, de tirar os engastes. Rena as pedras em um cofre de viagem, que levarei comigo na carruagem. O
conde Esterhzy nos espera no caminho, com seu regimento. Em Metz, juntaremos tropas para voltar com fora a Paris.  criminosa a pretenso dessa cidade de ditar
sua vontade ao Rei. E  Frana. Paris no  a Frana. Os parisienses vo ter de compreender... Levante-se, senhora Campan... Quanto ao trajeto at Metz, se no consegue
desenhar - ela dera uma olhada no plano fantasioso que eu traara -, pedirei
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a meu cabeleireiro, Lonard, que o faa, j que  pessoa com mltiplos
talentos. A senhora tambm tem talentos - deve ter percebido minha decepo -, mas a geografia no  um deles. O Rei, graas a Deus,  timo em geografia,
e talvez essa seja a minha chance na deciso de partir para a reconquista do pas. O que acha, senhora Campan? Levante-se, por favor, no v se arrastar at o fim
dos tempos sob essa cmoda. Encontrar essa prola mais tarde, quando voltarmos!
Naquele exato instante, a Campan deu um gritinho de alegria, pois tinha achado o que procurava. Enfiou-se um pouco mais e voltou, um tanto avermelhada, eriada,
mas toda contente. Eu a execrava.
Eu me mostrara incapaz de traar um mapa (suspeito que a senhora Campan tenha sugerido  Rainha que eu seria capaz de desenh-lo de propsito, s para me humilhar).
Alm disso, ao que tudo indicava, os efeitos particulares de minha voz no eram minimamente necessrios, e eu esperava, com o corao palpitando, ser mandada de
volta s sombras errantes daquela noite. Se isso no aconteceu, foi sem dvida porque a Rainha, em sua ansiedade, preferiu me juntar  obra de tirar as jias dos
engastes. A partir da, na confuso reinante, a Rainha passou a me tratar indiferentemente como leitora e camareira.
Sentei-me, ento, junto  senhora Campan. Ela havia terminado com a mesa de viagem e tirava outras jias de um mvel alto, esculpido. Havia jias em quantidade.
Era fantstico: anis, pulseiras, colares, brincos, prendedores, broches, medalhes, diademas... Eu pegava um anel, afastava as garras que prendiam a pedra, retirava-a
e colocava-a com cuidado no cofre. "A Rainha vai usar as pedras assim, soltas, no campo, em Metz?" Felizmente no fiz a pergunta. Minha estupidez, minha obstinao
em no compreender teria, mais uma vez, provocado uma resposta sarcstica da senhora Campan. Trabalhvamos rpido, o mais rapidamente possvel. Por nossos dedos
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passavam esmeraldas, topzios, rubis, cornalinas... enfeites de safiras e de diamantes que, com dois ou trs movimentos, estavam soltos.
- Quero partir - repetia a Rainha. - Para a realeza, para ns,  questo de vida ou morte. O Rei no deve permanecer um dia a mais em regio sobre a qual perdeu
o controle.
Curiosamente, em vez de nos incentivar  rapidez, fisgada pelo brilho das jias, ela se levantou e veio contempl-las. No conseguindo se conter, colocou um anel,
em seguida outro, ps em volta do pescoo, uns por cima dos outros, vrios colares, cobriu o antebrao com largos braceletes. Hipnotizada, fixava, no espelho da
penteadeira, aquela viso fulgurante. A senhora Campan e eu no ousvamos nos mover, mas foi a Primeira Camareira quem enfim (sempre certa de estar com a razo,
mas naquela hora isso era verdade) rompeu o encanto. Lembrou, com infinito respeito e suavidade, a necessidade da pressa, se Sua Majestade desejasse de fato partir
em viagem no dia seguinte. A Rainha saiu do devaneio:
- "Desejar"  uma palavra que no traduz meu sentimento. Precisamos deixar Versalhes. No faz-lo eqivale a assinar nossa derrota, que j  efetiva, nossa derrota
e talvez pior... Eu quero ir. Quero deixar este palcio. Tentei de tudo para torn-lo meu. No consegui. Sinto apenas o frio, a umidade, todos os espaos inabitveis...
Sua deteriorao. E pensar que o Rei, quase morreu esmagado por um pedao do forro do teto na prpria cama! Realmente, tudo tentei. Dividi-o em peas cada vez menores.
Acrescentei jogos de tapearias, espelhos, tapetes. Multipliquei as escadas, para que todos pudessem facilmente visitar os amigos, buscar conforto. Desde o incio,
Versalhes me rejeitou. Continua habitado pelo Grande Rei, que nunca o deixou. Em cada sala que se entra, l est ele, jovem, velho, danarino, amante, guerreiro,
sempre glorioso. O palcio est sob sua custdia. Nunca ser meu. No  tambm o palcio do Rei. Como no era o de Lus XV.
Uma camareira veio ajudar a retirar aquele amontoado de jias, que transformava a Rainha em deusa brbara. Desamparada, ela permanecia de p, na frente do espelho.
Perguntou:
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- Onde esto os trajes de viagem? Esto prontos? E o pequeno
costume de marinheiro de meu filho, o chapu de palha de minha filha? E os bules, as cafeteiras, as chocolateiras? Os aquecedores de cama, os de gua, o material
de desenho, minhas caixas de pintura, meus pincis, minhas agulhas de tric, uma roda de fiar? No sei como so as noites em Metz.
Fez, ento, um movimento estranho. Ergueu o brao para se proteger e vacilou, como se a prpria imagem a cegasse. Em seguida, disse lentamente, escolhendo bem as
palavras:
- Lus XIV nos tolera, ao Rei e a mim, porque somos os encarregados da manuteno de seu Mausolu, mas no est satisfeito com nossos prstimos. Refugio-me no Petit
Trianon e nas choupanas do vilarejo. Tambm o Rei tem seus locais de refgio. Fecha-se em sua sala de jantar e senta-se diante de seu retrato como caador, pintado
por Oudry. Na verdade, o retrato era de Lus XV e ele mandou adapt-lo. Mas os intrusos aparecem na sala de jantar. Por isso o Rei tem seu Escondidssimo Gabinete.
Ali os quadros no retratam reis caadores, mas ninfas. Pouco importa. Acachapado no Escondidssimo Gabinete, no tem olhos para ninfas, ele conta. Anota em um dirio
tudo que consegue contar: o nmero de reverncias para as visitas de condolncia pela morte da Imperatriz, minha me, o nmero de banhos que tomou no ms, o nmero
de cavalos em que montou desde a idade de oito anos, o nmero de animais mortos em caadas, o nmero de mortos por dia, por ms, a recapitulao dos seis primeiros
meses, a recapitulao por ano, caadas ao veado, caadas ao javali; so centenas, milhares de mortos... E aquela mancha de tinta no dia de nosso casamento? Ter
contabilizado? Foi apenas uma mancha que fiz, mas inapagvel. A mancha de tinta foi mais ignominiosa do que prender o p num tapete. Mil vezes revi a cena: debruceime
para assinar o nome que ainda me parecia estranho. Como enxergo mal, precisei quase colar o rosto no papel. Ma-ria Anto... Apoiei forte, forte demais. A pena rangeu.
A tinta espirrou, escorreu pelo meu rosto.
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A Rainha, que um pouco antes tinha um fulgor de dolo, vestia agora apenas uma roupa cinza, lisa. Esfregou o rosto, como se tentasse limpar uma mancha de tinta.
Uma grande mecha lhe caa pela fronte. Como era bela assim a divagar!
A senhora Campan se irritou com uma jia que resistia. Olhei para o pesado busto comprimido. Ouvi a respirao apressada. O cmodo em que estvamos era minsculo.
Eu sentia calor. Seu vestido, misturando-se com o meu, me fez pensar em uma flor murcha que, morrendo, viera se juntar  vizinha.
"E eu acompanharei Sua Majestade?", era como manifestava a perturbao que todo o seu ser exsudava. E eu balbuciei minha indzvel e esmagadora aflio: "E a mim,
esquecero de mim?".

ESGOTAMENTO, AURORA SINISTRA
(DAS DUAS S QUATRO HORAS DA MANH)

Como passou o tempo em seguida? No sei muito bem... Voltei a mergulhar entre os errantes. A ronda da noite prosseguia. Ainda mais incerta, com clares, cada vez
mais minada pela convico de sua inutilidade. Para mim, que era depositria do segredo da partida da famlia real e acreditava ser quase a nica a det-lo, a inutilidade
dessa noite de viglia me atingia de forma ainda mais cruel. E tambm o isolamento em que cada um se mantinha, a profunda incerteza, essa mistura de desejo e apreenso
de saber mais sobre as decises do Rei. No Salo de Jogos da Rainha, algumas mulheres haviam se deitado sobre as mesas. Outras, abrigadas nos desvos das janelas,
segredavam entre si as ltimas notcias: "Eles seqestram nossos filhos e exigem resgates exorbitantes". Eu via rostos destrudos de seres que oscilavam entre o
desespero atnito e a excitao mrbida, irracional. Corpos adormecidos aqui e ali. Na pea em que estavam guardadas as cadeirinhas, as pessoas tiraram-nas das pilhas
e se instalaram no interior. Alguns tinham puxado as cortinas.
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Deixei o Salo de Jogos e a Grande Galeria e dirigi-me para a
Galeria Baixa. As portas de todos os aposentos que nela desembocam estavam fechadas. Dali no vinha nenhum barulho. Subi como se fosse  pera, infiltrei-me por
um corredor na altura dos camarotes, vislumbrei a superfcie inquietadora dos Reservatrios, acima da ponta da asa norte. Deixei-me ficar ali por um momento. A desolao
daquele tanque sombrio, estranhamente suspenso contra o cu, penetrou em mim. Ter sido para fugir de sua imagem e dos tristes pressentimentos que me vinham que
andei ao acaso, subindo e descendo escadas ftidas, midas, estreitas, que me levaram a desvios ainda mais obscuros? Durante certo tempo, no encontrei ningum.
Depois, comeou a surgir uma populao inquietante. Seres que nunca havia visto antes no palcio. Subiam dos pores, trazidos pelo instinto, nessas horas em que
se jogava o destino do navio? Eu nunca tinha ido para aqueles lados. Vi aparecerem figuras inverossmeis. Desgastados como se tivessem sido limados, com rostos amesquinhados
e amarelos. Emergiram tambm indivduos-disformes, corcundas, vesgos, mancos, alguns com um enorme bcio, outros gordssimos ou esquelticos. Os olhos mortos, a
pele doentia e os dentes podres me repugnavam. Em outros, sentia-se a umidade ranosa. Estavam envoltos como mmias em rendas velhas e s conseguiam, com extrema
lentido, pr um p diante do outro. Havia tambm mulheres apavorantes, espcie de camponesas com trejeitos de pssaros. Afastei-me s pressas, pois, ao v-las emergir
com seu odor feroz, com longos aventais de bolsos cheios, com amuletos pendurados ao pescoo - lembrei-me das mortes suspeitas, dos rumores de envenenamento em que
eu, na poca, no quis acreditar. Temia que o frio gosmento de algum sapo me fosse infligido na cavidade das costas, sem que precisassem, para isto, de um gesto
sequer. Eu tinha ido longe demais. Reuni foras suficientes para correr. Escapei, pelo menos temporariamente, pois se resolvessem festejar o sab sob os lustres
da Grande Galeria, nada haveria a fazer, seno abrir-lhes caminho...
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Sem flego, suando, voltei aos Grandes Apartamentos. Numa noite como aquela no era prudente deixar seus arredores. O melhor era permanecer tanto quanto possvel
em terreno conhecido, se  que tais palavras ainda tinham algum sentido. Tranqilizou-me ouvir novamente o som familiar de conversas. Para me confortar ainda mais,
reconheci uma pessoa querida, a falar aos brados, indiferente aos apelos  prudncia. Era um homem de grande estatura, e tentava convencer outro, muito menor. Tentava
convencer ou sufocar: o pequeno se debatia contra o gigante que o dominava.
- A aliana feita h quatrocentos anos com a casa real no a prejudica e nem a ns... Fomos muito injustos com o senhor de Noailles; a rapidez de sua ascenso causou
inveja; dizem que estamos presos ao passado, mas isso nos torna pessoas melhores no presente.16
* 16 Grosso modo, o personagem se refere aos confrontos entre partidos (sobretudo entre a nobreza e o terceiro estado) nas reunies da Assemblia Nacional. Louis-Marie 
de Noailles (1756-1804) era deputado representante da nobreza. Emigrou para os Estados Unidos em 1792 e combateu ao lado de La Fayette.*

Eu no precisava ver-lhe o rosto - notvel por uma espcie de grande espinha ou verruga que tinha no nariz - para saber que era o marqus de La Chesnaye, que ocupava
na corte as funes de Primeiro Trinchador. Ele tinha dois temas de predileo: a antigidade da famlia e os planos de melhorias para o palcio. Tal era o peso
do passado para ele que confundia os vrios nomes que as salas tinham tido no decorrer dos reinos e, inclusive, dentro de um mesmo perodo. Por essa razo muitas
vezes era difcil segui-lo. O pai, o av, o bisav falavam atravs dele e o faziam dizer sucessiva e indiferentemente Ptio dos Banhos ou Ptio dos Veados, Oratrio
ou Gabinete da Espreguiadeira, Gabinete das Perucas ou Gabinete dos Bustos ou das Vidraas... Para ele, no lugar do atual Ptio da Cave do Rei estava a Escadaria
dos Embaixadores e no mrmore branco da Capela continuavam a tremeluzir os reflexos azulados da Gruta de Ttis... Naquela hora, porm, apenas a antigidade da famlia
o ocupava. O que ele mais deplorava em Versalhes, a grande crtica que o obsedava, a de que Versalhes simplesmente no tinha uma entrada digna do monumento que era,
passava para segundo plano. O senhor de La Chesnaye pressionava cada vez mais sua vtima. Os berloques e as medalhas com que vivia coberto tilintavam. Acompanhavam,
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com sua msica sutil, a litania de seus ancestrais e de suas virtudes.
O marqus fez uma pausa. Viu-me:
- Ah! senhora Laborde, falvamos dos Noailles, parece-me justificvel elogiar seus bons servios. Sem dvida conhece a duquesa de Noailles, que  ntima da senhora
de Neuilly, Primeira Leitora da Rainha. Como a avalia?
Balbuciei qualquer coisa, acanhada, pois no a conhecia. Jamais a havia visto, a no ser de longe. E, na verdade, sequer conhecia a senhora de Neuilly. A pergunta
do senhor de Chesnaye me deu uma pontada no corao. Afastei-me.
Cruzei novamente com o senhor de Feutry. Estava acompanhado por Jacob-Nicolas Moreau. Como nunca se separava da pesada pasta, este se inclinava para um dos lados.
No momento, para aquele em que se encontrava o senhor de Feutry. Observada de longe, a cena emprestava s frases de meu amigo ares de confidencia, o que certamente
no era o caso.
- Madame confiou-me sua opinio. Os senhores sabem como a condessa de Provena  judiciosa e quanto estimo suas opinies. Pois bem, disse-me ela, e cito a frase
literalmente:
"A situao me parece de mau augrio".
- Diacho! Tambm lhe parece?
- Eu o dizia ontem  noite  senhora Laborde. - Somente agora me via. - Creio que estamos perdidos, pura e simplesmente.
- No  a primeira vez que o ouo dizer.
-  verdade. A humanidade desafiou em demasia o Cu e este, apesar de toda a mansuetude, termina por se vingar. As condies estavam prontas para o castigo, mas
eu ignorava sob qual forma viria e que viesse to rpido. A propsito de castigo iminente, eu soube, senhor, que o senhor tem a posse de um... documento interessante.
Como direi?... Um opsculo? Um panfleto? Sim, um panfleto. A "Lista das cabeas a cortar"ou uma abominao desse tipo. Poderia mo ceder, para que o copie e classifique
em meus arquivos?
Em seguida, inclinou-se, despedindo-se do senhor de Feutry, acenou-me um adeus e voltou para o terceiro andar.
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Castigo. A palavra havia sido articulada com clareza, com ligeiro altear da voz. Que pareceu excessivo a um certo senhor Lemaire, pessoa melflua, excessivamente
tmida, mesmo em tempos normais. Pediu que falassem mais baixo. Saram em murmrios, ento, os pobres pedaos de frases que trocvamos uns com os outros. Pouco a
pouco, um grupo de padres se aproximou. Estavam apreensivos, assustados. Os lbios no cessavam de vibrar. Eram movidos por suave e infinita fluncia de rezas. Os
religiosos eram to presentes em certos sales que estes mais pareciam capelas. Pus-me a rezar com eles, mas fiquei chocada de ouvir, no cmodo ao lado, uma voz
sonora.
Um homem falava de caadas (o melfluo cavalheiro suplicava "Psiu! Psiu!"):
- As pessoas se enganam quanto aos falcoeiros flamengos, eles so excelentes. Participei recentemente de uma caada da Falcoaria Real. Como se sabe, seus falcoeiros
so, em sua maioria, flamengos ou holandeses. Deram mostra de uma excepcional habilidade, que em vo se buscaria em falcoeiros meridionais, no entanto muito estimados.
Pretende o Rei que os falcoeiros vindos do norte so os melhores. E ele tem razo.  claro que se pode confiar na opinio de Sua Majestade. Em matria de falcoaria,
Lus XVI  incomparavelmente superior a seus predecessores, incluindo-se a Lus xin.
- Em falcoaria, certamente, e em tudo que diz respeito  caa, Lus XVI  um grande rei.
A excitao diminuiu no cmodo vizinho. O murmrio das oraes voltou a predominar. Nada mais podia nos distrair daquela coisa impossvel de nomear.

FECHAR AS GRADES

Para aumentar nosso mal-estar, algum de repente se deu conta de que ramos bem poucos. Havia ainda a ameaa da tal tropa que estaria  caminho, contra ns. Como
nos defenderamos? " preciso
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que, ao menos por hoje, as grades permaneam fechadas", props
um senhor que disse se chamar Liard e ser exterminador de toupeiras (isso mostra como nenhuma ordem, nenhuma hierarquia era mais observada). " absurdo", foi o veredicto
imediato.
- Absurdo e despropositado. Seria dar prova ao inimigo de que temos medo.
- Mas ns temos medo. E  por isso, repito, que se devem fechar as grades. - O caador de toupeiras no desistia. - Que diferena faz? Por que absurdo? No  absurdo
se proteger quando atacado. Devem ser fechadas as grades que do para a praa d'Armes, o Porto Real... Elas so fechadas  noite; corremos mais riscos amanh, quer
dizer, hoje...
- Talvez essa seja, afinal, uma boa idia. Fechar as grades seria um gesto elementar de proteo. Ou nem mesmo de proteo, mas de dissuaso.
- Temos de fazer frente a uma populaa a que no cabe mais persuadir e nem dissuadir. No h dilogo com selvagens.
- Podemos lanar-lhes moedas. Alguns luses para distra-los. Brigariam entre si e, durante esse tempo, estaramos em paz. Esse procedimento foi usado diversas vezes.
- Distra-los? Devemos  dar-lhes bordoadas, esmag-los, pass-los no pilo. Ah! se eu tivesse um deles  mo! Velhacos, crpulas, rebotalho, fanfarres, cachorrada!
Neste exato momento, ouviu-se um barulho de queda, que assustou a todos. Era apenas uma estatueta que algum fizera cair com um esbarro. O desajeitado olhou o
estrago sem se espantar e apenas disse: "Desculpem-me", empurrando os cacos com a espada.
Tive a impresso de que, debaixo de nossos olhos e em velocidade sobrenatural, o palcio se desmanchava. Colocaram uma grande bacia com gua em cima de um consolo
de madeira dourada, que sustentava uma Fama, e algumas pessoas acorreram. Mergulhavam o rosto e at bebiam diretamente a gua que ia sendo derramada.
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A proposta de se fecharem as grades continuava a provocar discusses. O exterminador de toupeiras arranjara um aliado.
- Este homem tem razo, por que no ordenar que se fechem as grades do palcio? No mudaria muita coisa, mas pelo menos... desencorajaria os menos determinados.
Sem encontrar a menor resistncia, esses porcalhes vo nos degolar... - Manter o dia inteiro as grades fechadas! Isso no tem precedentes.
- Enganam-se os senhores, as grades foram fechadas uma vez, em pleno dia, durante a agonia de Lus XIV... Uma agonia exemplar. Tudo que Lus XIV fez foi exemplar,
at a morte. Lus XV tentou o mesmo, a seu modo. Mas em Lus XIV no havia sinal de fraqueza. Tudo nele era admirvel, e sua agonia foi um pice... Vencido, afinal,
pelo sofrimento, e com todos os detalhes da cerimnia de seu funeral minuciosamente traados, o Rei sucumbiu. Apenas suplicou, antes de cair na inconscincia: "
Deus, ajudai-me a morrer". Reabriu ainda os olhos e pronunciou claramente, dirigindo-se no a seu confessor, mas  senhora de Maintenon: "Sabe, senhora, no  nada
fcil morrer". O Rei entrara em conferncia com a Eternidade. Por isso mandou fechar as grades: Versalhes no pertencia mais ao reino dos humanos.
- Lus XIV morreu de uma gangrena, Lus XV de varola... Que prodgio que nossos dois ltimos reis, em vez de propriamente morrer, tenham apodrecido!
- Um problema de carcaas, marqus.
Essas palavras insolentes, maldosas, voltam em minhas insnias. So como irritaes na memria.

De acordo, vamos fechar as grades, mas quem iria dar a ordem? Deveria ser o Rei. Antes do incio do dia. Mas como ter acesso a ele? Seria bom que um de ns tentasse.
O exterminador de toupeiras se ofereceu. Todos concordaram que um caador de toupeiras no podia, por maior que fosse o caos em que nos debatamos, ser o emissrio
de uma ordem. A confuso ia piorando, quando interveio Jean-
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Franois Heurtier, Arquiteto e Controlador do palcio. Acabava de se juntar ao grupo e rapidamente fechou a questo:
- Desde 10 de julho que penso em tomar essa precauo. Fui ver os portes. No tm chaves nem fechaduras. Mandei fazer, mas s estaro prontas dentro de algumas
semanas. Quer dizer, tanto de noite quanto de dia, o palcio est aberto.
O mais profundo fatalismo tomou conta do ambiente. Alguns homens comearam a verificar as pistolas. Mais por princpio que por qualquer vontade determinada de combate.
Atracar-se com a criadagem, que desonra! Por ironia, pude ouvir as ltimas palavras de uma convocao ao duelo. No era preciso, propriamente, ouvir as palavras,
podia-se adivinhar a inteno pela curvatura, pelo olhar, pelas mos que se fechavam na empunhadura das armas, pela espcie de corrente eltrica contraditria, ao
mesmo tempo fraterna e mortal, trocada entre os dois jovens.

Ningum sabia o que o marechal de Broglie estava anunciando aos membros do Conselho de Guerra. Mas sabia-se que no dormira, que tinha passado a noite em deliberaes.
Quase no havia mais conversas... Algumas silhuetas, prostradas, dormitavam em poltronas dispersas. Outras se erguiam como sentinelas, mas tinham a fragilidade de
aparies. Bastaria toc-las ou lhes dizer suavemente um bom-dia para que evaporassem. Aqui e ali, candelabros de parede tinham sido acesos. Emprestavam  aurora
uma atmosfera de fim de festa.

Nos Apartamentos Reais, nas antecmaras, nos pequenos sales, nos gabinetes, nos espaos de aparato, assim como nos locais mais recnditos, nas escadas, nos corredores,
nas passagens, atrs das portas oficiais, ou, ainda, atrs das entradas secretas, o medo era um elemento concreto. Uma matria que se solidificara no decorrer da
noite e nos paralisava. Tive vontade de sair, escapar.
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Pareceu-me que se no o fizesse agora, nunca mais seria possvel. No pensava mais na iminncia de uma invaso inimiga e nem na possibilidade de um cerco. Aproximavam-se,
talvez, mas estavam longe ainda. Um novo dia amanhecia. Havia perspectivas. Abri caminho entre os espectros, meus aliados. Entrevi novamente o senhor de La Chesnaye.
Ele sacudia a sombra do nariz duplo sobre uma infeliz recatada, a senhorita Adle-lisabeth Bichebois, rendilheira, encabulada com cesto no brao.

Eu precisava sair, respirar.

16 de julho de 1789

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MANH E TARDE

DO LADO DE FORA, SOB AS JANELAS DO QUARTO DA RAINHA
(ENTRE CINCO E SEIS HORAS DA MANH)

Enveredei pela ala dos Prncipes. Andava como se soubesse aonde ia, sem, no entanto, ter a menor idia. Perto da Orangerie, notei uma jovem que parecia aborrecida,
com os olhos derreados. Saa dos aposentos do senhor conde de Artois. Ele era o nico, talvez, a ter se concedido uma pausa para o prazer antes de enfrentar de novo
a tormenta. Era esse o seu temperamento, como quem toma aulas de funambulismo em vez de se dedicar aos estudos srios. Sempre senti-me hesitante com relao ao conde
de Artois: inspirava, e ainda hoje inspira, sentimento de violenta reprovao moral, mas no podia deixar de me sentir atrada. Na poca, evitava ostensivamente
a criatura, tanto para manifestar meu desprezo quanto para no prestar ateno  libertinagem do irmo do Rei.
Eu no escolhera a direo. Meus passos me haviam conduzido por conta prpria, eu estava sob as janelas do Quarto da Rainha. Desde que a deixara, estava obsedada
por esta idia: ela fazia as malas, abandonava Versalhes. Metz no era uma vilegiatura como outra qualquer, era um posicionamento de recuo, antes da batalha. E como,
naquele momento, no imaginava um segundo sequer que o Rei pudesse ter opinio diferente, a partida da famlia real me parecia iminente. Da famlia real e dos Polignac,
pois a meu ver no havia dvida de que, se a Rainha exigisse a presena de Gabrielle, sua "inseparvel", todo o cl iria sob sua custdia. E lembrei, decepcionada,
a maneira como Diane de Polignac havia passado parte da noite, indo de um grupo a outro, informando-se. E exortando-nos a ter em mente apenas o bem do Rei e da Rainha.
Para ela era fcil dar lies, uma vez que, seja l o que acontecesse, no se separaria da Rainha. J para mim, que com certeza no estava includa na "viagem" a
Metz, querer seu bem significava precisamente o qu? Esper-la? Procurar ter com
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ela por outros meios? Olhei ao redor. O cu estava plido. As
nuvens, rpidas, pareciam arranhar o cimo das rvores. Uma chuva recente tornara ainda mais forte o perfume das flores de laranjeira e mais fosca a brancura das
esttuas. Ergui o olhar. E se ela j tivesse partido?
Afoitamente, pois tudo fazia crer que ela no tinha ainda deixado o palcio, mas continuava a preparar a partida, trancada nos Pequenos Apartamentos, recuei um pouco,
com a esperana de vla. Ningum,  claro. Nenhum movimento do outro lado, nenhuma silhueta. Afastei-me, tremendamente desamparada. A sensao de solido que me
invadira ao longo dos ltimos dias ganhou uma singular intensidade. Toda a beleza espetacular do parque se voltava contra mim. A perspectiva de viver ali, sem ela,
me causou um mal terrvel, insuportvel. Sentei-me no alto dos degraus, acima da Fonte de Latona. De repente, no resisti mais, deitei de corpo inteiro no cho mesmo
e me deixei devastar pelo choro. Ouvia-me gritar e, sem tentar me acalmar, queria que o choro viesse ainda mais forte, que minhas lgrimas escorressem ainda mais
abundantes, em torrente. Senti-me espoliada. Um sismo se abatera sobre mim. Ia me anular. Eu no lutava mais. Pelo contrrio, caa... e fui parar deitada de travs
na escada, ofegante. Como aps um sismo, justamente, uma calma indita me invadiu e eu me recuperei um pouco, procurei gua para molhar o rosto, mas a Latona estava
sem gua. Fui me sentar em um banco de pedra, diante da fachada, e com um curioso desprendimento de quem passeia, observei o palcio de fora.

UM SILNCIO INQUIETADOR

As cortinas continuavam puxadas (s as do Quarto da Rainha estavam abertas). Poderia achar que o palcio inteiro estava mergulhado no sono. Nada perturbava o silncio
que o circundava. Isso me surpreendeu. Nenhum barulho. As minsculas lojas que
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funcionavam do lado de fora das grades e do lado de dentro, ao longo da Galeria Baixa e em vrias escadas, deviam estar fechadas. No se via trao da multido de
mercadores, de ambulantes, de pedintes, de visitantes, de curiosos que, desde o amanhecer, nervosos, excitados, comeavam a se movimentar pelas grades do palcio.
Eles atrapalhavam a tropa de varredores que, sem pressa, conscientes de ocuparem com todo o direito os ptios, faziam seu trabalho. Mas tambm varredores, naquela
manh, no havia. Sentada em meu banco de pedra, tentei, de todo jeito, arrumar um pouco minhas roupas; ajeitei o penteado (usava, ento, um coque bem baixo, com
uma mecha que escapava e caa para o lado), abri o livro de oraes. Mas a novidade do silncio opressor, espalhado por todo Versalhes, era demasiado opressora.
Era um silncio que me intrigava. Tinha a fora de um enigma. Digo aqui, pois hoje em dia  sem dvida algo difcil de representar, que o barulho era parte integrante
de Versalhes. Trago ainda na cabea aquele burburinho. Era como um bloco, um acmulo de sons rituais, militares, religiosos, da troca da guarda e do soar dos sinos,
um fundo contnuo de uivos, relinchos, rolar de carros, ordens gritadas, clamor de vozes no fim da tarde, de noite, msica tocada aqui ou acol e o vai-e-vem infinito
dos passos dos criados no piso; tudo em meio ao alarido,  algazarra,  poeirada das obras sempre em andamento, onipresentes, em eternas reformas, dia e noite, de
pintura, de embelezamento, de modificaes em aposentos, de construo de varandas, de deslocamento de escadas, de calamento, de colocao de gelosias, de reparaes
em lareiras: admirava-se um quadro de Watteau ou de Hubert Robert e, passos adiante, tropeava-se em andaimes, salpicava-se com gesso que estava sendo aplicado...
Ouo esse burburinho, talvez ensurdecedor para o visitante, mas profundo, violento, misteriosamente nutriz, necessrio, para o morador. Esses retornos dos barulhos
de Versalhes me encantam. Eu os saboreio, detalho, fao-os soarem, variando os ritmos e as interpretaes... :
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O silncio daquela manh era ainda mais notvel, uma vez que, 
ausncia de visitantes, se acrescentava o fenmeno repentinamente manifesto da desero da Guarda Francesa. Haviam desaparecido durante a noite como se fossem um
s homem. Tinham seguido o exemplo de Paris. Fim do barulho das botas e do bater de calcanhares, do manuseio de armas, dos comandos repetidos nas trocas da guarda,
das senhas e dos cantos que haviam, de forma to segura quanto os servios religiosos, marcado minha vida. Que cessasse a incrvel azfama em torno e dentro do palcio,
a cotidiana metamorfose em caravanar, deixava-me estupefata. Eu estava "em casa", mas tinha uma sensao de extravio, desfizera-se o lao vivo entre uma desordem
externa e minha msica interior, minha tonalidade da alma. No me sentia mais subjugada, como em plena noite, pelo estupor da derrota e pelo temor do ataque. Estava
alucinada por me encontrar em um espao irreconhecvel, esvaziado como pela ameaa de um flagelo - por ter sido transportada, de um dia para outro, para um lugar
maldito. Compreendi melhor, ento, o pouco efeito que causara a proposta de se manterem as grades fechadas: Versalhes era aberto. Era o contrrio de uma fortaleza.
Versalhes deixava que tudo entrasse. Vendedores que, por sob a capa, propunham gravuras e publicaes licenciosas, farsantes fazendo-se passar por reis de ilhas
longnquas, que subornavam por um dia um criado disfarado de embaixador, tentando conseguir uma audincia com o Soberano... Intrigantes emboscados nas antecmaras,
nas alias, em moitas, dispostos a tudo para fisgar um fidalgo em suas redes... Em tempos antigos, em reinados mais libertinos, era primeiramente ao Rei que certas
damas procuravam seduzir. Com Lus XVI, haviam desistido. Sem qualquer chance de atrair-lhe a ateno, suas pretenses diminuram. O Rei era to casto que, se precisasse
dirigir uma palavra a uma mulher no trajeto de seus aposentos para a Capela (era raro: em geral, para no distinguir ningum, ele jamais excedia o breve movimento
de cabea), ela seria certamente uma senhora idosa... Mas aquela mar humana de curiosos, de aventureiros, de intrigantes, aquelas ondas sempre renascentes,
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animadas pelo desejo ou pela necessidade, eram a parte mais visvel de um outro movimento, mais obscuro e profundo, movimento alimentado por um poder sem nome, por
empreendimento prprio da misria: o dos mendigos. Eram incontveis, indistintos, irredutveis. Cercavam o palcio por todos os lados. Eram expulsos, voltavam, cada
vez mais sujos, mais doentes, mais mutilados. Alguns humildes, outros ameaadores. O palcio oferecia mil esconderijos para se emboscarem. Oficialmente, tinham a
circulao proibida em Versalhes, mas no havia jeito. Sabiam poder contar com um instante de descuido de um guarda, com o escuro que reinava em todo lugar fora
do cercado dos Apartamentos Reais uma escurido profunda, invencvel, que se reduzia muito momentaneamente por alguma vela logo derretida, brilhos derrisrios frente
ao ilimitado das trevas (os "moradores" gastavam fortunas lutando contra a m iluminao. Em certos dias de inverno, gastavam em velas o que teriam gasto durante
toda a estao em seus palcios particulares no campo, onde se aceitava o tempo como ele se desse e a noite quando casse). Por isso, os mendigos pouco ligavam para
as proibies. Pode-se impedir a Noite de entrar?
Um dia a senhora de Grasse reclamou que, ao sair de seus aposentos, estava sendo esperada por vrios indigentes que seu pessoal j havia antes escorraado; um deles
ainda haver de trazer a peste para o palcio. Acontecia-me de sentir a peste bem prxima quando vinha se acrescentar aos odores habituais de Versalhes (sem dvida
fortes, mas dos quais eu acabara gostando) um relento inspido e adocicado de carne apodrecida. Impossvel ignorar, apesar de ser indeterminado, descontnuo, de
desaparecer e ressurgir. Fechava os olhos, crispada de nuseas. Pensava: um cadver? em Versalhes? Era expressamente proibido, no podia haver cadveres no palcio,
exceto se o morto fosse da famlia real... No entanto, com certeza havia um cadver... Eu no era a nica a perceb-lo, mas todos nos calvamos... Depois, o mau
cheiro se dissolvia. Parava de incomodar por algum tempo... Sem ter quem os impedisse de entrar, os mendigos invadiriam o palcio? Tinham-se reunido
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ao povaru que marchava contra ns? Creio que no: os mendigos
formavam uma populao  parte.

A ALEGRIA DOS VITORIOSOS (POR VOLTA DAS OITO HORAS DA MANH)

Tudo em volta estava silencioso e vazio, hostil e ameaador. Fui refugiar-me em meu quarto. Ler um pouco, se no conseguisse dormir, pois no grau de ansiedade que
atingira, era pouco provvel que encontrasse sono. Foi quando os vi: dois porteiros, em escandalosa displicncia. Tinham largado no cho as tnicas de pano azul
e, bem ali, debaixo das janelas do Quarto da Rainha, em mangas de camisa, com uma garrafa de vinho aos ps, chacoteavam. Um estava escarranchado em uma esttua de
pedra e o outro, encostado no pedestal da mesma esttua, arrumava um curativo que tinha na mo. Eles no falavam, gritavam. No pude prosseguir. Barravam o caminho
para meu quarto. Deveria ter dado meia-volta, entrado por outro acesso. Sobretudo, deveria t-los posto a correr, proibir-lhes a permanncia sob as janelas da Rainha,
em vez de ouvi-los. H um horrvel fascnio pelo dio e pela grosseria, pelo que nos ir, cedo ou tarde, devorar.
- Sabe o que fiz ontem de manh, quando o duque de Richelieu entrou?
- No, o qu?
- Nada.
- Est querendo dizer que no bateu duas vezes o p e exclamou "Sua Excelncia, o duque de Richelieu"?
- No abri o bico. O duque parou na entrada do salo, esperou. Olhou para mim. Nada. Nada, estou dizendo. - Ele berrava, louco com a prpria audcia, e batia com
as pernas na esttua. Podia ser duque ou gro-vassalo de Frana  vontade, no fiz nada. Nenhum movimento, nenhuma palavra. E por que anunciar? Ele sabe como se
chama. Est um caco, para a idade que tem.  um
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degenerado, fruto podre das orgias do pai, mas sabe muito bem como se chama. O nome  a ltima coisa que a gente esquece.  verdade ou no , Boineau?
- Moinei, idiota. Eu me chamo Sylvain Moinei.
- Est vendo, at voc se lembra do seu nome.
- No brinque com isso. Por que est sempre zombando de todo mundo? No basta o duque de Richelieu? Posso arranjar outros do mesmo naipe. Isso no falta.
- Obrigado, Boineau, sabia que era um dos nossos. Apesar da mo ferida e enrolada em uma bandagem, o outro
saltou e deu um puxo no comparsa, para faz-lo cair. Este agentou o golpe e ia revidar, mas desistiu. A mo machucada do companheiro o fez se controlar.
- Tudo bem, Moinei, era s brincadeira. Eu me chamo Pignon. Chrtien Pignon. Sem m inteno. Se a gente no puder rir hoje, quando  que vamos rir? Olha, pra comemorar
a Bastilha, os prisioneiros soltos, os cortejos e tudo mais, junto com minha mulher, em casa, a gente quebrou tudo. Arrebentamos tudo. A cama, a mesa, um vaso de
argila, os copos. No final, sobrou somente o penico, que  de ferro, e a gente bateu nele at ficar todo amassado. Minha mulher o jogou pela janela, ele atravessou
o papel.
- Voc tem sorte com sua mulher. Ela  mais brigona que a minha. Suzette vai o tempo todo  igreja. Reza. Diz que isso de se republicanizar vai ser pago por muito,
muito tempo. Que os filhos dos nossos filhos vo continuar a pagar. Vai que ela tem razo? Isso d medo. Fazer nossos filhos e os filhos dos nossos filhos irem para
o inferno, j pensou nisso?
- Voc  to chato quanto sua mulher, isso sim. Puxa vida! No dia em que no cumprimentei um nobre e gro-vassalo do Rei! No dia em que tudo est de cabea para
baixo! Porque  assim, uma revoluo. Voc pega um negcio, o que for, e pe ele de cabea pra baixo.
- Voc diz qualquer besteira. Nesse caso, tanto faz pegar uma mulher ou uma daquelas quaisquer, pra fazer isso de que est falando.
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Comeando pelo incio, vamos comear a revolucionar as mulheres da vida! Mas voc no disse como o duque de Richelieu atual reagiu. Deve-se dizer qual, pois
o velho, o Intendente dos Pequenos Prazeres, o pai, o marechal, era to famoso e durou tanto tempo quanto o filho, ningum acredita. H quem continue a cham-lo
duque de Fronsac.
- Ele os corrige?
- Cale a boca, ele no agenta mais de tanto corrigir!
Caram os dois na gargalhada. O que estava em cima da esttua escorregou do poleiro. O outro se dobrava de rir. Eu os olhava como se olham dois monstros. Que metamorfoses
estavam acontecendo nesse lugar e nos que ali estavam? Aqueles dois, que at ento haviam se mantido mudos e tesos como postes nas roupas de pano e no pareciam
estar mais vivos do que as portas que guardavam, punham-se a vociferar a plenos pulmes e a gesticular. Dobravam-se, gemiam, dizendo doer-lhes as costelas de tanto
rir. Um deles repetia "ele no agenta mais de tanto corrigir", e os risos, que mais pareciam relinchos, recomeavam...
Enxugaram os olhos com a camisa, tentaram erguer-se e desabaram. Riam do ltimo duelo do pobre duque de Richelieu, quando ainda era duque de Fronsac, nove anos antes.
O casamento do pai, ento com oitenta e quatro anos, com uma jovem viva, havia suscitado chacotas. Ouvindo uma dessas zombarias, o duque de Fronsac convocou a
um duelo o gracejador. Ele o matou.
- Diga-se que o velho era um garanho. O Intendente dos Pequenos Prazeres, imagine, era com os seus prprios que ele primeiro se preocupava, e que nem sempre eram
"pequenos"! Casou-se com uma jovenzinha e ainda passava as noites correndo atrs das atrizes. E sabe por que o marechal era to garanho?
- Voc no pra d perguntar o que eu sei e o que eu no sei. Isso me irrita.  como se me chamasse de imbecil o tempo todo.
- Bom, voc no sabe. Isso no  grave, a gente aprende, se instrui. Pois bem, vou lhe dizer: o marechal era um garanho graas a uns banhos de leite; ao acordar,
enquanto bebia a primeira garrafa de vinho de Champagne, tomava um banho de leite.
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- No era o contrrio?
- Como, o contrrio?
- Ele no bebia uma caneca de leite e tomava um banho de vinho de Champagne?
- Nada disso.  difcil te ensinar alguma coisa. Veja bem, cidado, so muito eficazes os banhos de leite contra os enguios.
- Isso de enguio  para os aristocratas. Entre ns, a gente no sabe o que  isso.  a natureza que fala. Mas a se supor, com o cansao...  impossvel, mas, mesmo
assim, supondo, acredito... No sei o que me adianta saber isso. Minha mulher  ama-de-leite e amamenta seis bebs. Mesmo que eu passasse  frente dos pirralhos,
nem assim daria para tomar um banho!
- Voc s v as dificuldades!
- E depois do banho, o que ele fazia com o leite?
- Ele mesmo, nada. Mas seu camareiro o revendia e envenenava nossos filhos. Os aristocratas tomam banhos de leite e nossos filhos morrem.  como com a farinha de
trigo. Passamos fome porque eles a utilizam para fazer mingau para os gatos! Ou como com as casas! A gente no tem onde se enfiar. No inverno os miserveis caem
aos milhares. So empilhados na palha, nos asilos. Nos hospitais, deitam trs ou quatro em cada cama. Voc acorda no meio da noite e tem um defunto j frio junto
contigo! Juro!
- Eu sei, eu sei...
- Enquanto isso, eles possuem palcios, e tantos que, em alguns, nunca puseram os ps, no sabem nem mesmo onde ficam, em qual provncia da Frana... Herdaram...
No precisam fazer nada... Imagine todos aqueles quartos, as camas, as lareiras grandes, os...
- Como aqui.
- E os cachorros deles! Voc j viu como moram! Em casinhas forradas de cetim, pregadas com pregos de ouro. No so nichos, so tesouros. Olhando as casinhas deles,
s se tem uma vontade: ser cachorro; e preste ateno nos bons bifes que vo para os vira-latas! Dilapidadores, aproveitadores, sanguessugas!
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- Hienas, cancros, safados! Os soldados do exrcito dos estrangeiros
no foram todos embora. Ouve-se pato alemo nos subrbios. H tambm espanhis. So uma gente ruim, esses caras. Se disserem a eles para nos liquidar, eles
fazem isso.
- E aqui eles no vo ficar chateados de dar essa ordem.
- No o Rei. Ele gosta de ns. Ele  bom.  ela, e como! Eu quero! Posso ouvi-la gritando em seu sabir: "Que os trucidem todos, at o ltimo!"
-Ela pode ter todos os defeitos, mas fala francs. Voc j ouviu,
como eu.
- Verdade, mas no faz diferena. Li nos jornais a totalidade do plano do partido da corte,  pior do que se pensa. Querem deixar Paris  mingua, e, para acelerar
a destruio, apontar cem peas de canho do alto de Montmartre e o mesmo nmero cem canhes - do alto de Belleville. Vo dar tiros de canho e, ao mesmo tempo,
com ferro e fogo nas mos, matar os habitantes. At que Paris, ou o que restar, se submeta e pea o fim da Assemblia Nacional. Um plano diablico. Tem o dedo dela
a, da Antonieta...
Fizeram uma pausa para beber da garrafa e melhor saborear o que viria.
-  incrvel como ela  austraca!
- Tudo nela. Seus cabelos laranja, o nariz autoritrio...
- Cabelos cenoura, nariz de polichinelo.
- A boca enojada. A maneira de manter a cabea no alto, mais alta que todo mundo. Para ns que vivemos em Versalhes, que a vemos todo dia, no  nada engraado...
- No era engraado. No vamos nos fixar aqui. Termino o dia e me vou.
- Ns que a vemos todos os dias podemos dizer: no passa de uma austraca. E cada vez mais.
- Tem uma boca que cospe tudo de volta.
- Ela no cospe, porque no come nada. Ela no engole. Ela finge. Tambm nisso ela engana a nao.
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- Voc nunca a viu comer ou no comer, est sempre de servio no domingo, nessa hora.
- Eu no, mas meu irmo j viu. Ele quis mostrar o Rei a seu mais velho, como presente de primeira comunho.  uma tradio em nossa famlia. E, pois bem, posso
afirmar: a austraca no come nada. Bebe o mesmo copo de gua durante a refeio inteira. Ela no bebe, molha os lbios. Em vez de comer, mexe com a ponta do garfo
o mesmo pedao de carne (pois mesmo no comendo, precisa de um garfo, uma faca, colheres, toda a parafernlia, e de ouro). Empurra um pouco para a direita, um pouco
para a esquerda, traz de volta para o meio. Hesita quanto ao lugar certo. Para ela, comer  isso. Alis, na mesa, ela nem tira as luvas... voc se d conta? Ela
usa um garfo com luvas... Destri todos os bons costumes. No respeita nada do que  francs. Antes dela, o Rei e a Rainha comiam em pblico duas vezes por semana.
Com ela, a partir dela, passou a ser apenas uma vez, uma nica vez. Voc atravessa o pas a p, para essa nica oportunidade por semana, e ela no mostra nada. Fez
esse caminho todo para v-la comer e ela no come.
- So horrveis, os austracos.  o povo mais sujo, mais enjoado, mais mentiroso. Tm costumes abominveis. Na ustria, voc se casa com uma moa e ela j foi deflorada
pelo irmo. Voc vem depois da famlia. Foi assim com a Antonieta. Foi desvirginada pelo irmo, Jos, antes de entrar na cama de Lus.
- Voc gostaria de ser rei?
- Nessas condies, de jeito algum. Em outras, no digo no.
- Tudo  do Rei, as belas provncias, as florestas, os mares, voc, eu, a Orangerie, a Grande e a Pequena Cavalaria, tudo pertence a ele. No  nada, no  nada,
isso deve dar umas sensaes.
- Mas como ele pode sentir que tudo isso lhe pertence?
- Quando ele precisa das coisas, ele pega sem pedir permisso. A ningum. Tem o que quiser. Pode comer petit-pois no domingo de Pscoa, se quiser. E ele come de
verdade.
- Ele tem um fraco por petit-pois.
- Ou pelos deputados!
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E, de novo, caram na gargalhada, por causa de um famoso lapso do Rei, nos primeiros dias da reunio dos Estados Gerais.  mesa, ele disse: "Gostaria de repetir 
esses deputados", no lugar de "petit-pois"!
- No, o Rei no  difcil. Ele come de tudo.
- Come de tudo. Por acaso conhece seus cardpios? Coisas extraordinrias e sempre em quantidade prodigiosa. Sua mesa ordinria, imagine, so quatro peas grandes
de caa, vinte entradas, seis assados, quinze acompanhamentos, trinta biscoitinhos, uma dezena de pratos de doces.
- No preciso imaginar, meu irmo me contou. As sobremesas... creme brul com calda de framboesa, torta de chocolate, frangipana, sorvetes de melo, de limo, de
figo, de amora, de rom; havia tambm o que chamavam ali-bab... que  um po-de-l macio, com rum... Maravilhas assim, quem no gostaria? S de falar me d gua
na boca. No sei como os fidalgos que servem conseguem se conter...
- No se contm. Tenha certeza de que comem nos pratos do Rei, antes que cheguem ao destino. Pense bem, o trajeto  longo... a tentao  forte...
- Resultado: o Rei come quitutes que j foram provados.
- E frios. Voc tem quinhentos oficiais a seu servio e a comida vem fria.
- Quinhentos oficiais! A Boca do Rei tem bom tamanho.
- A Boca do Rei  enorme. Lembre que as Cozinhas do Rei compreendem Bebidas, Copa, Padaria e muito mais...
- Nosso Rei  um ogro.
- Mas um ogro simptico. Eu gostei da moo de Bailly, para que "se eleve, sobre os escombros da Bastilha derrubada, um monumento  glria de Lus XVI, amigo de
seu povo e da liberdade".
- Adoro todas as moes. As moes patriticas. As moes... so uma grande inveno! Mas, ora, o Rei no pode comer tudo, nem se servir de tudo. No pode ao mesmo
tempo estar a cavalo e ouvir um concerto em Trianon.
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- Ah! de msica ele no gosta tanto assim. Afora os concertos da Saint-Hubert.  a Estrangeira que obriga todo mundo a agentar a msica da ustria, seu Glouck dos
infernos.
- Ele no pode montar, ao mesmo tempo, seus trs mil cavalos.
- Pode sim, se quiser. Nada  impossvel para ele.
- Voc tem razo. Ele pode tudo, normalmente. Ele cura quem ele toca e salva da morte o condenado que cruza seu caminho.
- Mas quem toca nele, quando ele est doente?
- A bruxa da mulher dele. E  por isso que ele toma cuidado para no ficar doente.
- Mas ele, mesmo assim, fica doente.  ela que o adoece. Ela o envenena em pequenas doses. Tem venenos escondidos nos anis. Usa tambm vidro modo.
- Medici!
- Como o Rei  mais resistente que o Delfim, vem sobrevivendo. A criana morreu logo. Morreu sabendo quem era o culpado. Voc sabe quais foram suas ltimas palavras:
"Afastem-se para que eu tenha o prazer de ver minha me chorar". A madrasta no chorava de verdade,  claro, apenas fingia. Ser que vai haver guerra?
- Com certeza, se ele no se livrar da Envenenadora.
- Mas o que pode fazer?
- Dizem que vai ser exilada, presa na fortaleza de Ham, devolvida a Viena, expedida  priso de Santo Domingo, abandonada na Guiana, marcada com ferro em brasa,
como aquela pobre de La Mothe, que era uma santa mulher. A Austraca ser acorrentada a uma fila de desavergonhadas, suas co-irms, lanada num barco e enviada 
ilha do Taiti, no meio dos selvagens, para ser pescadora...
- Ela vai gostar!
- Vai ser obrigada a consertar redes, vinte e quatro horas por dia. E ser chicoteada sempre que for vista a cochilar. Vai ter que estar, o tempo todo, com a agulha.
Os dedos vo ficar cheios de feridas e o sal, infiltrando-se, vai faz-la gritar. Podem tambm guard-la em Paris e faz-la passar pelo suplcio da Virgem de Nurembergue.
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- Ela, virgem?
- A puta de Nurembergue  o que voc quer dizer!
- A vigarista!
- Pode tambm ser presa em Bictre. Ou posta para trabalhar na Salptrire,17 ou, ainda, varrer as ruas de Paris.
* 17 Bicte e Salptrire eram hospitais para doentes mentais.*

- Varrer as ruas de Paris! Puxa! Voc exagera... Gostaria de ver. A rainha vestindo burel, com a cabea raspada e uma vassoura na mo. E os parisienses nas janelas,
jogando merda em cima dela.
- Vestindo burel?  melhor pelada. Por que continuar pagando suas roupas? Tem uma outra coisa que se diz, mas a no  uma punio,  uma coisa que ela faz e que
merece uma punio: dizem que  lsbica. J ouviu isso? Austraca, lsbica,  a mesma coisa.
- Siiim... lsbica  como austraca. No tem diferena. Ela  austraca: ela  lsbica. A mesma coisa com a me. Austraca, lsbica, tudo a mesma coisa.
Os dois homens estavam perplexos. Um apontou para os jornais no cho.
- Voc leu?
- Um pouco. No leio muito rpido ultimamente. Era bom quando no acontecia nada.
- De qualquer maneira, tente, Moinei.
Ele abriu um jornal ("Como as letras so pequenas!") e leu, separando as slabas com dificuldade:

"Moo para o afastamento das tropas e para o estabelecimento de uma Guarda burguesa. Sire, alarmados quanto  nossa liberdade, no h mais freio que nos possa reter.
Sire, em nome da ptria, em nome de vossa felicidade e de vossa glria, ns vos conjuramos: enviai de volta vossos soldados aos postos de onde vossos conselheiros
os tiraram. Sim! Por que um Rei, adorado por vinte e cinco milhes de franceses, traria para junto do trono, com altos custos, alguns milhares de estrangeiros? Sire,
no meio de vossos filhos, sede guardado por seu amor: os deputados da nao foram chamados para convosco consagrar os direitos eminentes da realeza, sobre a base
i-mu-t-vel da liberdade do povo".

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Estavam os dois comovidos s lgrimas. Puseram-se de p e se abraaram. Repetiam, como a uma frmula mgica: "Sobre a base i-mu-t-vel da liberdade do povo".
De repente, um dos dois reagiu:
- Veja, Moinei, ganhamos! O jornal  ainda mais lento do que voc. As tropas j foram afastadas; mesmo que alguns ainda perambulem por a; vamos arrancar a pele
deles!
Como a da Messalina!
E brandiu o punho fechado na direo das janelas de Maria Antonieta.

Eu estava aniquilada. Era como se, ao ouvi-los, tivesse tambm conspurcado o nome da Rainha.

PARA MIM: ANGSTIA E CONFUSO. O ENCONTRO COM UMA MULHER DE BOM SENSO. A PRESENA DO APAIXONADO DA RAINHA

Eu devia estar com uma aparncia completamente desvairada quando passoupor mim uma mulher do servio do falecido Delfim. Transportava os brinquedos, vindos do Palcio
de Meudon, em uma carriola cheia, que seria deixada no trreo, no armrio do novo Delfim. Eu estava esgotada. A fadiga, a vergonha, davam-me vontade de gemer. Eu
mal conhecia a mulher, mas tinha necessidade de falar com algum. Confiei a ela toda a minha aflio, em meio ao caos e  contradio. Disse ser necessrio salvar
a Rainha, que havia, porm partido; era preciso proteg-la e ela fugira; seu quarto, seus aposentos estavam vazios. Eu prpria a ajudara, sabia do que estava falando...
- A senhora l demais - zombou. -  mais prudente limitar-se ao que viu. As palavras so perigosas. Sobretudo escritas. Convenceram-me disso quando era ainda pequena.
Um tio meu queria me ensinar a ler. Meu pai se ops, dizendo: "Quero que a criana seja feliz". O Rei e a Rainha continuam no palcio. Acredite.
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Esto cada qual em seu quarto de dormir, ainda deitados. Recuperam foras para o dia que comea, pois sero necessrias.
- Como est certa disto? Permaneci bom tempo sob as janelas do Quarto da Rainha. No vi sinal de vida. As cortinas esto abertas, isto  normal, mas nada no quarto
se movimentava.
- E aquele homem, est vendo? Sua presena no significa nada para a senhora?
Percebi, a alguns metros dali, mal dissimulado atrs de uma moita, um homem que eu conhecia bem, parecendo um espantalho; tinha, inclusive, a sensao de v-lo o
tempo todo. Era o Apaixonado da Rainha...  verdade, precisei concordar que sua presena era significativa: tinha, dentre outras manias, a de nunca se distanciar
da Rainha. Voltado para o lugar em que ela estivesse - local s vezes invisvel a seus olhos, mas que, misteriosamente, sempre adivinhava - estaria o Apaixonado
da Rainha. Chamava-se, na verdade, senhor de Castelnaux e tinha ocupado, no tempo em que dominava a razo, o posto de conselheiro no parlamento de Bordus. Mas seu
delrio atual era tamanho que era difcil imaginar que pudesse ter tido um nome, uma situao, uma profisso. Os cortesos se divertiam muito s custas do senhor
de Castelnaux, do mesmo modo que faziam com o capito de Laroche, apesar de o caso ser mais trgico do que engraado. Repetiam suas frases, brincavam de imit-lo.
Talvez por isso tenham ambos permanecido to vivos em minha lembrana, a ponto de no precisar de qualquer esforo para rever a face terrosa, o olhar alucinado do
Bobo da Rainha. Para encontrar sua silhueta curiosamente apagada, pois facilmente se confundia com as rvores e as ramagens, e obsediante, pois podia surgir em qualquer
lugar, bastava cruzar a trajetria que seu constante delrio estabelecia entre si e a Rainha.
O Apaixonado da Rainha era um homem grande, magro, de rosto esverdeado, marcado por cascas de arranhes, que ele cocava e fazia sangrar. O mais comum era encontr-lo
em silncio, obcecado por sua idia fixa. Seu aspecto sinistro inspirava um sentimento desagradvel. Tinha-se vontade de suprimi-lo da paisagem.
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E todos queriam isso, como um verdadeiro alvio, no t-lo mais no caminho sempre que fossem  Rainha. Mas era impossvel, ele estava sempre l. Durante as
duas horas noturnas do Jogo da Rainha, ele permanecia em frente  praa de Sua Majestade; na Capela, colocava-se ao alcance de seus olhos, sob o balco rgio, e
nunca deixava de estar no Almoo do Rei ou no Grande Servio. Quando a Rainha ia ao Teatro de La Montansier, ele tomava o lugar mais prximo possvel de seu camarote
e, petrificado, devorava-a com suplicantes olhos arregalados, sem desvi-los um instante. Era de se esperar, deixando o palcio, que se estivesse livre do funesto
indivduo. Absolutamente. Havia dez anos ele seguia todas as viagens da corte. Tomava a dianteira, inclusive. Partia para Fontainebleau ou para Saint-Cloud um dia
antes; quando a Rainha chegava s suas diversas habitaes, a primeira pessoa que via ao descer do carro era o lgubre enamorado. Durante as estadas da Rainha no
Petit Trianon, a paixo do homem mais ainda se inflamava. Comia s pressas alguma coisa com um sentinela e passava o dia, mesmo sob chuva, dando voltas no jardim.
Andava com passadas largas, sempre  beira dos fossos. Vestia-se, qualquer que fosse o tempo, com o mesmo traje, um palet verde e calas amarelas. O colete, que
um dia deve ter sido elegante, estava em farrapos. Do palet pendiam pedaos do forro. As cores estavam desbotadas. O traje se tinha descolorido em riscados mais
claros, de forma que dava a impresso de que nele a gua no parava de escorrer, mesmo em dias de sol. Segurava um chapu com plumas, quase reduzidas  espinha central.
Folhas e ramagem sempre se prendiam nos ombros do palet. O Apaixonado da Rainha tinha um apartamento alugado na cidade, mas, na maior parte do tempo, passava as
noites fora, a vigiar a janela de sua deusa. Era preciso um frio excepcional, ou neve, para que desistisse. Mesmo assim, lembro que em certa manh de inverno, 
luz esbranquiada do dia, enquanto na superfcie nevada dos jardins s se distinguiam bandos negros de corvos, ele foi descoberto estirado na terra gelada, no p
da esttua de
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Lus XV. Transportaram-no para a guarida de um sentinela. Quando recuperou alento, teve um instante de terror porque, naquele lugar desconhecido, no conseguia
determinar onde se encontrava sua adorada.
Como passara do que se podia considerar uma lealdade monarquista um tanto exaltada para aquele amor manaco? Ou essa loucura j se revelava na mania de colecionar
tudo que tivesse a ver com a existncia da Rainha? No havia gravura, uma linha que fosse, que ele no comprasse ou copiasse em um grande caderno, por ele denominado
"Entrada das coincidncias ou registro da fatalidade" Como epgrafe, escrevera em letras imensas, na primeira pgina: "Grande Crculo nos Apartamentos da Rainha".
Essa mesma frase se repetia vrias vezes no caderno, mas escrita com traos febris e errticos. "Rainha" podia ocupar uma pgina inteira. O caderno do Apaixonado
era escuro, com grossa capa de cartolina. As bordas estavam gastas e, como as roupas, o escuro da capa desbotara, a tinta das frases escorrera, diluda por intempries...
Na maior parte do tempo, contentava-se de estar ali, perto dela, ou a apreciar, infalivelmente, o ponto exato de sua presena. No Petit Trianon, a Rainha o encontrava
com freqncia, quando passeava s ou com os filhos. Ele a cumprimentava e se imobilizava, como que atingido por um raio. Aps um certo tempo, necessrio para se
recompor, retomava as andanas  beira do fosso (passeava, inclusive, ao longo do Canal Grande, correndo o risco de cair). A Rainha j seguia distante e ele a acompanhava
com o olhar, ainda perturbado pela "coincidncia". Ela, por sua vez, nunca alterava o caminho para evit-lo e no se esquivou certa vez, quando deixou a mo para
que beijasse e ele permaneceu esttico, com as narinas repuxadas, os olhos revirados, a tremer. No conseguiu mais se reerguer. Foi preciso que um criado o ajudasse.
A Rainha cuidou de que o fizesse com brandura: "No o machuque" ordenou. Profundamente abalado, fora de si, o Apaixonado da Rainha agitava a cabea em todas as direes,
lutando contra a crise que o ameaava. No mais das vezes, perante a Sua presena, ele o conseguia. A crise viria
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mais tarde. Podia-se, ento, ouvi-lo urrar pela floresta "Maria Antonieta, Rainha de Frana e de Navarra; Maria Antonieta, Rainha de Frana e de Navarra"; e prosseguia,
numa litania: "Maria Cristina, Maria Isabel, Maria Amlia, Joana Gabriela, Maria Jos, Maria Carolina, irms de minha Rainha". Quem j o vira nesse estado sabia
que se arranharia o rosto e se jogaria de cabea contra as esttuas
- ele as odiava, todas. Chamava-as usurpadoras, putas imundas, meretrizes a cu aberto. Outras vezes, mais freqentes, a cerimnia do encontro com Maria Antonieta
se dava mais calmamente. Extasiado pelo milagre da presena daquela mo, ele apenas murmurava: "Minha Rainha". Permanecia de joelhos, imvel, e gostaria de assim
ficar por toda a eternidade.
Incapaz da menor aspereza, a Rainha imaginou um modo delicado de se subtrair queles inconvenientes: um dia, deu permisso ao senhor de Sze para ir a Trianon e
o encaminhou  senhora Campan. Ela recebera ordem de pr o clebre advogado ao corrente da perturbao do Apaixonado da Rainha e mandar buscar este ltimo para uma
entrevista com o primeiro. Acostumado a tratar com habilidade todo tipo de causa, o senhor de Sze conversou com o senhor de Castelnaux por cerca de uma hora e impressionou
fortemente seu esprito, sem dvida por ele lembrar, ouvindo o advogado, o antigo jargo que j fora o seu. Momentaneamente persuadido, recuperado de si mesmo, mandou
um bilhete para a Rainha, anunciando que, decididamente, uma vez que sua presena era inoportuna, voltaria para a provncia e retornaria s atividades passadas.
Satisfeitssima, a Rainha exprimiu ao senhor de Sze todo o seu sentimento. Meia hora aps a sada do advogado, anunciaram o senhor de Castelnaux. Vinha dizer que
se retratava, que no podia, por ato simples de sua vontade, deixar de ver a Rainha. Tal declarao, feita sobriamente, mas trazendo consigo um tom de mortal resoluo,
foi muito desagradvel  Rainha. Ela sorriu e fez sinal para que o levassem, dizendo apenas: "Bem, que ele me aborrea, mas que no lhe tirem a felicidade de ser
livre".
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De volta  liberdade dos jardins, o senhor de Castelnaux, maravilhado pelo fato de no se ter separado da amada, recitou sua litania com um mpeto excepcional.
Dessa vez, "Maria Amlia, Joana Gabriela, Maria Jos, Maria Carolina, irms de minha Rainha!" soou como um hino de alegria, enriquecido com "Maria Teresa, Beatriz
Carlota, filhas de minha Rainha!". Mas essa confuso entre os vivos e os mortos foi bastante dolorosa para Maria Antonieta, pois, na noite anterior, ao voltar tarde
para se deitar, quatro velas colocadas na penteadeira tinham sucessivamente se apagado, e ela no pde deixar de ver nisso um pressgio sinistro.
O senhor de Castelnaux, entregue a seu tormento, no se interessava por nada mais. As pessoas de Versalhes lhe eram igualmente indiferentes, exceto eu, a quem ele
detestava quase tanto quanto s damas das esttuas (por causa, talvez, de minhas funes como leitora? ou simplesmente sem qualquer razo?).
Se ele estava l  porque a Rainha no havia partido. Concordei. O que mais aumentou minha confuso:
- Mas como entender tudo isso? Eu vi a Rainha preparar a bagagem. Se ainda no partiu, est prestes a partir.  questo de horas, de minutos.  a Assemblia Nacional,
agora, que dita a lei.  por isso que a Rainha vai embora.  simples, no ? No  preciso saber ler para entender isso.
- No se deve,  claro, perder a calma por to pouco. As vociferaes dos oradores, os cadernos de queixas, nada disso conta, pfff. um sopro... O Rei e a Rainha
no tm de modo algum inteno de recuar diante de algo to irreal quanto a Assemblia Nacional. Os deputados so fantoches, marionetes cujos fios eles puxam  vontade...
Minha querida, isso no funciona de jeito algum. Vai levar a srio o grande desfile de abertura dos Estados Gerais? Vou lhe contar como isso se deu.
Aproximou-se bem de mim (talvez fosse uma iluso, mas tive a impresso de que o Apaixonado da Rainha se mexia nas folhagens).
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- A reunio dos Estados Gerais - segredou - s foi votada para divertir o agonizante filho do Rei. No so os Estados Gerais propriamente ditos que importavam, eles
s trazem queixas e recriminaes. No, era apenas o desfile anunciando sua abertura. Era isso o que o Rei queria dar de presente a seu menino. O restante no interessa.
Ela raspou com a unha um pedao de grama que ficara colado em um dos topzios que decoravam o carrinho do menino.

A SADA DO CONSELHO (DEZ HORAS DA MANH)

Depois dessa noite em claro, em que tantas das minhas certezas se desfizeram (no exatamente sob o impacto de um fato, mas no vazio de um pressentimento mortal,
como quando uma epidemia ameaa), era de se pensar que a vida normal, com seu desenrolar precisamente estabelecido, seus ritmos, seus barulhos intimamente interiorizados,
havia desaparecido. Pensei ter me enganado ao me aproximar da antecmara do Olho de Boi, espcie de vestbulo de circulao, mas sobretudo sala de espera em que,
toda manh, entre nove e dez horas, juntavam-se cortesos. O Olho de Boi estava cheio de gente. Os cortesos que gozavam do privilgio de ingressar no Quarto, se
agrupavam o mximo possvel perto da porta. Os demais se concentravam em parte no Olho de Boi, em parte na sala vizinha, a Primeira Antecmara. Eu os via de costas,
voltados para o ponto fixo da ateno geral: a porta do Quarto do Rei, que estava fechada. De repente, o porteiro apareceria e, em perfeito silncio, anunciaria
as Grandes Entradas. Tudo parecia em ordem. Os dois porteiros beberres tinham ido embora e outros os substituam. Esqueci meu desamparo. Procurei um canto em que,
sem me sentar, pudesse esperar comodamente. Enfiei-me no fundo, no muito distante da porta que levava, por um corredor secreto, aos Apartamentos da Rainha. Encostei-me
no bordo de uma janela. Sim, tudo ia bem. Sem dvida, a situao fora novamente controlada
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na madrugada. A menos que nada se tivesse realmente perdido, ou sequer corrido riscos, e que tudo no tivesse passado de uma imensa farsa em que eu
me deixara lograr, como todos os demais... mas e a vspera, e a ltima noite? O pavor fazia tambm parte integrante da farsa? O Grande Pavor Real?
Os cortesos no diziam uma palavra. Quando surgia algum, alguns se voltavam e, segundo sua importncia, saudavam-no com um lento e profundo movimento da cabea,
uma inclinao quase imperceptvel, ou simplesmente o ignoravam, pois, com o dia, o hbito de tratar cada um de acordo com sua posio havia retornado; e o embarao
de, durante a noite, ter falado com qualquer um, ter confiado em pessoas que nada eram lhes parecia bem desagradvel. Pela manh, todos se reconheciam, e o senso
inato da distncia entre as pessoas voltava a agir. Cumprimentavam-se, ento, mas com conhecimento de causa. Essas breves ondas perturbavam a imobilidade do grupo
e, depois, o conjunto voltava  petrificao inicial.
Eu me mantinha contra a janela, com todo o cuidado. No queria me misturar ao grupo em que no tinha meu lugar e no qual, alm disso, as mulheres eram pouco numerosas
(a simples presena delas, naquele lugar e naquela hora, era uma anomalia. Ignorei esse "detalhe": a vontade de ser tranqilizada era grande). Tinham sem dvida
ido buscar um pouco de repouso. Tambm eu tinha necessidade, mas queria saber mais sobre as verdadeiras disposies da Rainha. Encontrei o olhar perscrutador do
senhor Palissot de Montenoy, responsvel pela Gazeta dos bitos da Corte, uma das publicaes mais avidamente esperadas. Algum se aproximou dele. Isso no me surpreendeu.
O senhor Palissot de Montenoy era muito apreciado. Tinha pelos vivos, tanto quanto pelos mortos, uma insacivel curiosidade. E como punha a servio dessa curiosidade
um sentido de observao e uma arte de deduo excepcionais, era considerado, a justo ttulo, uma das melhores fontes
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de informao sobre a vida na corte e nas esferas parisienses influentes. Sabia desde a ltima fofoca at complexas transaes diplomticas. Diferentemente de Jacob-Nicolas
Moreau, que decifrava a Histria do ponto de vista da Eternidade, o jornalista dos bitos da corte, vido pelos menores detalhes, a enxergava a partir de um ngulo
humano. Ele mantinha um registro das ltimas palavras pronunciadas pelos moribundos. Eu no tinha nenhuma simpatia particular pelo indivduo, mas, tentando saber 
mais, pus-me ao alcance de sua voz. Surpresa! Pela primeira vez o senhor Palissot de Montenoy confessava nada saber em particular. Ou seja, sabia apenas o mesmo 
que
todo mundo: que o Rei tinha mandado embora as tropas estrangeiras; mas tinha um nmero: eram um pouco mais de sessenta mil homens. Quanto ao restante: ignorava se 
o Rei cederia ou no aos Estados Gerais, que exigiam a dissoluo do governo de Breteuil e a volta de Necker (notei no ter feito qualquer meno aos preparativos
de viagem da Rainha, o que me deixou aliviada). Para provar que, apesar de tudo, tinha algo a contar, o homem dos bitos da corte anunciou uma morte bem recente
da qual ningum, afora ele, estava informado. Mas a morte sobre a qual todos ansiosamente se interrogaram no era a de um indivduo. Decepcionado, o interlocutor
deixou o senhor Palissot de Montenoy, que deve ter se sentido ofendido. Permaneceu alguns minutos com a cabea inclinada, como sob o peso de suas reflexes. Mas 
o desnimo no o subjugou. Endireitou-se e passou a observar a assistncia.
Em outros tempos, no Olho de Boi - a sala de espera de um palcio que, de um certo ponto de vista, no passava de um imenso e labirntico monumento  Espera -, tal
quantidade de enigmas teria desencadeado as apostas. Apostariam contra a volta de Necker ou a favor dela. E os valores, ao capricho daqueles ingnuos jogadores,
podiam se elevar a extremos, tanto, talvez quanto na poca das apostas em torno do sexo do Cavaleiro de on18 ou da gravidez da Rainha.
* 18 O Cavaleiro de on (1728-1810) foi espio a servio de Lus XV. Fez-se passar por mulher durante boa parte da vida, em misses diplomticas nas cortes da Rssia 
e da Inglaterra.*

 Mas agora, na sala de cho gasto pelas centenas e centenas de ps que, diariamente, pisavam e repisavam
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os prprios e invisveis traos, ningum ousava qualquer comentrio e no se fazia aposta alguma. No entanto, como logo ficou evidente, a atmosfera estava
pesada e os prognsticos eram negros. O clima de irresponsabilidade que respirei desde o meu primeiro despertar em Versalhes e que tornava a vida to leve (talvez
porque algum poder superior: Deus? o Rei? a Etiqueta? se houvesse encarregado de assumir sua continuidade) no existia mais. O dbil otimismo remanescente ainda
mais vacilava.

Nenhum dos cavalheiros presentes estava barbeado, nem empoado e nem sequer havia trocado de roupas. Traziam os trajes da vspera (e da noite inteira), trajes de
luto, como prescrito pela etiqueta, que, pela morte do senhor Xavier Francisco, Delfim de Frana, proibia por dois meses e meio o uso de cores. Em 12 de julho ingressramos
no segundo perodo, isto , para os homens, traje negro completo, com botes negros e punhos da camisa em musselina lisa, meias de seda negra e sapatos de pele
de cabra; as fivelas dos sapatos e a espada deviam ser de prata. Notei que um dos cavalheiros permanecera no primeiro perodo. Continuava com as fivelas dos sapatos
e a espada em bronze, assim como o punho das mangas em batista. Naquele dia, um erro desses podia ainda passar despercebido... Algo predominantemente sombrio emanava
daquele grande luto com que se vestira o palcio, tomando todos os cantos, todas as pedras... particularmente flagrante naquele grupo de pessoas em trajes de enterro,
silenciosas, com a ateno voltada para uma porta fechada. Todo mundo notara a desero da Guarda Francesa. Para a defesa do palcio restava apenas a Guarda Sua.
O pavor aumentara um grau. Isso se revelava pelo tique nervoso de vrios cortesos: com os cabelos eriados e a aparncia preocupada, deslocavam e reajustavam as
perucas com gestos automticos, sem ver o que faziam; como fazia, ao que dizem, a velha marquesa de Deffand, que, cega, no cessava de dar ns em seus fios durante
a noite.
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Um cheiro forte de comida impregnava os trajes negros. Vinha do lado esquerdo da entrada do Quarto do Rei, do canto de Fchs, o guarda do Olho de Boi, que preparava
sua especialidade matinal, tartiflette. Os cortesos se banhavam nos cheiros de cebola, de queijo e de lcool, que se fundiam com o da sopa de ervilha e formavam
o bsico de Fchs. Ele, que tinha maneiras bruscas, bateu com a colher contra o ferro da frigideira grande. Soltou uma imprecao com a voz grossa. Atiando o fogo,
com o nariz enfiado na panela, no fundo da qual frigia um pedao de po preto coberto de queijo reblochon, resmungou:
- Pra que serve uma colher numa fritura? E numa sopa de ervilhas? Pra nada. Mas fao questo.  meu direito. Qu'sabe? No se podem ter fantasias?  preciso, para
engolir um pur intragvel. Qu'sabe? Pelo menos isso! No ponho a mo no fogo, isso no, mas a tartiflette, sim, ela vai no fogo! - Virou-se para os cortesos, a
quem tratava como importunos. - O que eles tanto esperam? So bem mal-educados numa hora dessas: no  novidade, mas tantos assim e to srios, srios como se fossem
o Papa! Ser que so notcias ruins? Porque elas no param de vir, agora. O segundo Delfim est doente? O Rei chamou de volta o ministro Necker? Mas por que os franceses
querem tanto esse a? No param de gritar "Necker, Necker, Necker". Dizem que  o salvador. Eu  que posso falar desse Necker. Vem da minha terra. Digo, da terra
do meu pai. Quem vai quer-lo na Sua? No so bobos, esses suos, deixaram-no vir pra c, sem discutir. Se fosse to maravilhoso, iam querer que ficasse por l.
Necker, Necker, Necker... Se ainda fosse um daqueles gnios da Finana, que enchem as caixas quando esto vazias. Ou como o conde de Saint-Germain, um grande sujeito
a quem, basta pedir, e ele produz tanto diamante quanto necessrio para encher de novo o tesouro do reino... A eu compreenderia que se fizesse fora pra no perder
um gaiato assim. Um mgico que nem precisava comer. Ele ia nos jantares e s fazia falar. Devia ter o que dizer! Diacho! Quando j se viveu tantos sculos, como
ele. Quantos, alis? S um, inteiro, j  um bocado. Mas que briguem tanto
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pelo Necker, isso no entendo. Um cara por quem, na Sua, em seu pas natal, ningum se interessa, s a famlia. Em lugar algum, ningum liga. S na Frana.
No  um povo muito esperto.  uma populao de resmunges. Mas resmungar no quer dizer que se  inteligente. Esto o tempo todo a reclamar de algum ou de alguma
coisa. Resmunges e maria-vai-com-as-outras  o que so. Que horrvel! E quando mudam de opinio  sem motivo, de repente. Nesse momento, querem Necker. Vai saber
por qu... Vo ficar um tempo assim, sem mexer. Podiam, pelo menos, me dizer bom dia! Nunca! Vo entrando aqui como se estivessem na rua. Vai ser um dia daqueles!
Se eu tiver quebrado minha colher, porque puxei errado, vo ouvir poucas e boas! Mas o que esto querendo? No deve ser o Necker. Nem devem estar sabendo. Qu'sabe?
Esto esperando para ir ao Rei e no tem ningum l dentro. No teve Pequeno Despertar hoje. Conseqentemente, porque tem uma lgica nisso tudo, nada de Grande Despertar.
Como assim?, vo me perguntar. O Rei no se levanta hoje? Qu'sabe? S sei que minha tartiflette est queimando. Vou deixar de lado e continuo mais tarde. Se no 
contar,
vou ter que agent-los at o fim dos tempos. E a cada vez chegam mais, para o Grande Despertar.
Todo mundo, na verdade, prestava ateno ao palavrrio de Fchs. Por orgulho, porm, estava fora de cogitao interrog-lo. Afinal, para nos tirar da dvida, ou
melhor, para se livrar de ns, ele disse com toda a clareza que o Rei, a Rainha, Monsieur, o senhor conde de Artois, os prncipes de sangue e os ministros estavam,
desde as cinco horas da manh, no Grande Conselho.

Houve um tropel na direo da Grande Galeria. No queriam perder a sada. O bando dos aflitos - os chores sem lgrima daquele enterro sem cortejo fnebre - reagrupou-se,
no mais diante da porta fechada do Quarto do Rei, mas diante da porta fechada da Sala do Conselho. Ah! vendo aquele grupo miservel, quem acreditaria ser o mesmo
que, quatro dias antes, percorria com ar triunfante
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essa mesma galeria? O 12 de julho fora um belo domingo na corte. Necker demitido, Paris submissa, nenhum motivo mais para se atormentar. Respirava-se um ar de
alegria. Outras rebelies j houvera, sempre foram juguladas... Todos se parabenizavam pela volta da paz. Um falso alarme, nada mais. Cada um se sentia prodigiosamente
reconfortado e reanimado com o golpe de Estado de 11 de julho. O novo governo, nomeado s pressas em torno do baro de Breteuil, serenava os espritos. Estavam novamente
em famlia. O palcio transpirava um tom de voz festivo. As conversas ressoavam mais altas que de costume e, mesmo que ningum abordasse diretamente o acontecimento,
a felicidade era visvel na volta da volubilidade, dos risos, no brilho dos olhares e dos ornamentos (sobre o fundo negro do chamalote de seda, os diamantes, que
acabavam justamente de reaparecer naquele dia, tinham a qualidade da suprema elegncia). Sem combinao prvia, haviam se reunido na Grande Galeria. Com a cabea
alta, percorriam-na de um lado para outro, com passo danante, e trocavam reflexes entusiasmadas sobre a beleza do dia. Nem todos tinham a facndia do senhor de
Faucheux, que era o incomparvel cantor do clima, fosse ele qual fosse (o que lhe valia a estima do Rei; por se interessar muitssimo pelas medies das temperaturas,
o Soberano tinha toda a simpatia por discursos que as incluam), mas todos falavam claro. Nos espelhos desenhados a ouro, passaram milhares de sorrisos de cumplicidade,
reverncias, toques da ponta dos dedos enluvados de veludo, roaduras, rpidos abraos, falbals com abas de prolas enroscando-se, por um instante, na ponta florida
de um colete... Sim, um belo domingo.
 tarde, durante a caada do Rei, eu li para a Rainha e para Gabrielle de Polignac poemas de Louise Lab. Atravs dos negros drapeados do quarto de dormir, a seda
das tapearias de vero refloriam. Vo de ptalas e de plumas. Voluteavam na claridade alaranjada do teatro particular das duas amigas. E eu pensei ouvir, nos breves
espaos de silncio entre as palavras, ptalas e plumas se depositarem em camadas imperceptveis sobre o cu do leito.
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Poucos dias depois, estvamos bem longe de qualquer celebrao de vitria. No eram mais as mesmas pessoas. Nem os mesmos modos nem os mesmos rostos. No entanto,
no tinham para mim nenhuma estranheza, pois eu reconhecia neles a aparncia de pnico sobre um fundo de insnia com que me esperavam nas horas mornas da noite
para que eu lesse um pouco, para que, com minha voz de pio, como dizia a baronesa de L'Alle, lhes trouxesse um pouco de paz. Esses rostos marcados pela derrota
me eram familiares (como me era familiar, sem nunca porm deixar de me espantar, a habilidade com que a luz do dia apagava qualquer indcio de sofrimento). Dessa
vez, porm, os rostos desfeitos no se dissimulavam. Alm disso, eu tambm apresentava o mesmo abatimento.
Nem bem todos se arrumaram, iniciou-se a sada do Conselho. Certamente no estava previsto que se tornasse pblica. Primeiro eu vi, sem realmente identific-las,
pessoas brilhantes e paramentadas, em vivas discusses, talvez at speras. De imediato reconheci a Rainha, no centro. Era a nica mulher. Conversava com o prncipe
de Conde. Perto deles, o prncipe de Conti era vtima de um longo discurso do baro de Breteuil. Este, como de hbito, pisava forte nos calcanhares, apoiando com
a mesma fora a bengala, e exprimia seu descontentamento. Ao mesmo tempo, reparei que o conde de Artois estava ainda mais furioso que o baro. Vermelho, fora de
si, dirigiu-se ao Rei. De repente, num gesto que parecia ensandecido, lanou-se a seus ps, suplicante:
- Digo que  preciso partir. Como convenc-lo, senhor? Como devo pedir, meu irmo?
Houve murmrios do nosso lado, e s ento eles perceberam que havia pblico, que estavam sendo esperados. A surpresa foi visivelmente desagradvel. O conde de Artois
ergueu-se. Ainda furibundo e agitado, saudou o Rei e a Rainha e partiu. Os prncipes de Conde e de Conti rapidamente o seguiram. Eu estava ao lado do senhor L Paon,
pintor de batalhas do prncipe de Conde. Ele observou a cena com ansiedade. Disse-me: "Todo cuidado, agora, no 
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boa hora para deixar que nos despistem". Os membros do novo governo tambm pareciam ansiosos. Olhavam timidamente na direo do baro de Breteuil. Pedi ao senhor
L Paon que os identificasse para mim: apontou o duque de La Vauguyon, ministro do Exterior, o senhor de La Porte, ministro da Marinha, o senhor de Barentin, que
fora mantido como ministro da Justia, e Laurent de Villedeuil, que tambm conservara o posto de ministro da Casa do Rei. "Pelo menos por algumas horas", acrescentou.
Conscientes de serem observados, os personagens que saam da Sala do Conselho perderam toda a espontaneidade. No havia mais qualquer expresso de clera nos rostos.
Na verdade, no havia mais expresso alguma. Imprensados contra a parede (no tnhamos mais como recuar), atropelvamo-nos em reverncias. Mas era preciso se endireitar
para perscrutar melhor aquelas mscaras, das quais dependia nosso destino.
Como sempre que era presa de fortes emoes, o Rei parecia entorpecido - e talvez realmente estivesse. As pesadas plpebras quase cerradas, a bochecha cada, o caminhar
desajeitado e bamboleante o faziam parecer sonamblico. Via-se nele uma enorme massa de carne que podia se desmanchar a qualquer momento se fosse tirado bruscamente
de seu sono comatoso. No seria a Rainha a faz-lo: mesmo estando ao lado, parecia a mil lguas de distncia. Maquiada com exagero, ela brilhava nos tons do ruge.
Mantinha os olhos fixos  frente, sem dirigi-los  assistncia. Pareciam inchados. Vendo o casal lado a lado, mais uma vez pensei que ambos, dada a extrema miopia
de que sofriam, ele por timidez e ela por orgulho, talvez nunca tivessem visto ningum em Versalhes. Algumas frases feitas permitiam-lhes manter as aparncias e
responder. Mas, de fato, moviam-se em um universo de contornos fluidos e nada distinguiam. Foi assim desde o incio, desde o instante em que, morto Lus XV, ouviram
o tropel dos cortesos em direo ao Quarto do Rei. Verdadeiramente unidos, aterrorizados, haviam ento suplicado: "Meu Deus, olhai por ns... Somos jovens demais
para reinar".
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Quase quinze anos depois, naquela sombria manh de julho, continuavam
jovens e aterrorizados. No entanto, no eram mais unidos. Mantinham-se lado a lado, certamente, mas quase se viravam as costas. Ela, com o olhar fixo e
duro. Ele, com os olhos fechados... Lus XVI podia ser convincente como rei cego. Do estreito trao azul-plido que se filtrava entre suas plpebras no se podia
adivinhar a presena, nenhuma forma de vigilncia. Era, antes, o inverso: essa nfima lembrana do azul de seus olhos confirmava uma ausncia do olhar, o no nunca
explicitamente formulado, mas obstinadamente desejado, que ele opunha ao mundo. No, no serei rei, no cabe a mim ser rei. Veio-me  lembrana o que contavam de
sua infncia, quando era apenas o caula e o Delfim, aquele que desde que nascera estava destinado a reinar, era extraordinrio, inteligente, encantador, imperioso,
adulado. Este, sem dvida, queria reinar. Ele chorou, gritou, perdeu as ltimas foras quando entendeu que a doena o levava  morte e que no viveria, nunca seria
rei. Por mais que multiplicasse seus caprichos, torturasse as pessoas a seu servio dentre as quais o mais prximo era o irmo, o pobre Lus Augusto, sempre em sua
cabeceira -, ele sentia que a realeza lhe escapava nas poas mornas de sangue com que inundava os lenis.
"Por que no nasci Deus?", perguntava, s vezes, o duque de Borgonha. Entre uma hemorragia e outra, profetizava: "Subjugarei a Inglaterra, trarei preso o rei da
Prssia. Farei o que quiser". E ditava ao irmo uma frase, para que transcrevesse em seu Dirio espiritual: "E ento, Berry, se apresse. Que asno voc !", impacientava-se
a Criana-Rei, quase Criana-Deus..."Eento Berry, se apresse." Tudo sempre se explica, pensei, pelo elo ausente de uma criana morta. Fizemos amplas reverncias, 
e
eles continuaram. Ignoraram-nos e continuaram. Afinal, sem deixar o ar de desconfortvel ausncia, o Rei esboou uma breve saudao e desapareceu. Ningum lhe deu
ateno. Seu destino era conhecido. Eram dez e meia: nesse momento da manh (ele voltava vrias vezes durante o dia) ia verificar a temperatura no grande termmetro
de cristal, pendurado no Salo de Apoio. Apenas Monsieur, refeito, ao que parecia, da
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caminhada da vspera, sorria, bem-disposto. Foi com um verso de Horcio que respondeu  pergunta de Jacob-Nicolas Moreau, louco para saber o que fora decidido.
- De certa maneira, nada de importante - disse Monsieur (e notei que tinha mos muito delicadas e que movimentava elegantemente os dedos, dedilhando-os no ar. Esse
gesto se somava  eterna contraposio que suas palavras, seu tipo de humor e seus modos faziam ao peso de seu corpo) -, nada que mude, de fato, o curso da vida
por aqui.
O Historigrafo inclinou-se, lisonjeado com a confidencia. Monsieur afastou-se com o squito. A esposa parecia muito assustada e foi em sua direo. Ele abandonou
o sorriso e as maneiras delicadas.
Alguns pequenos grupos se formaram. Pude ouvir:
- Nada foi decidido. Foi uma reunio inteiramente normal.
- s cinco horas da manh, com a presena da Rainha e dos irmos do Rei! Isso no parece inteiramente normal.
Os membros do novo governo pareciam ter sumido no ar. O baro de Breteuil se retirou pouco depois do conde de Artois. Mas o marechal de Broglie continuava por ali.
Foi cercado. Primeiro, manteve-se reticente. Por fim decidiu-se e declarou com toda a franqueza:
- O desastre  total. Aps muita hesitao, o Rei tomou a deciso de ficar. O governo de Breteuil foi demitido.
- E Necker vai voltar?
- No sei. Ainda no h certeza a esse respeito. Um silncio mortal acolheu suas palavras.
O senhor de Barentin constatou que ele falava muito suavemente, com as duas mos juntas no peito, como se fosse rezar ou fazer uma longa explanao; mas foi breve:
- Acho, senhores, que precisamos nos decidir quanto a uma outra dinastia.
E o marechal de Broglie confirmou:
- Lus XVI no tem mais liberdade de deciso. Ele  refm da Revoluo.
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A frase, dita por um comandante de guerra, soou irrefutvel.
A corte estava vencida. Meu universo se desfazia em migalhas.
Procurei a Rainha com os olhos. O mais incrvel era que tudo acontecia em sua presena. As pessoas discutiam abertamente, alguns se iam. Deixavam a Galeria sem esperar
sua sada. E ela no parecia se dar conta desse escndalo. Com o rosto cansado, os ombros cados, sem nada da altivez elegante com que naturalmente se apresentava
na corte, perscrutava, uma a uma, as pessoas  sua frente. A princesa de Lamballe, que era quem estava mais prxima, inclinou-se, solidria. A princesa esperava 
um
sorriso, um sinal qualquer de reconhecimento. No conseguiu dissimular a decepo quando a Rainha a ignorou ostensivamente. A princesa de Lamballe no era a pessoa
esperada. No foi para v-la que a Rainha abrira o leque, que dissimulava um lornho. Indiferente ao fato de estar sendo ou no observada, tensa, mantinha o nariz
por trs do abanador. No, no encontrou quem procurava. Retomou a inspeo com uma insistncia inconcebvel. Mais uma vez, a senhora de Lamballe se ofereceu. E
uma segunda vez a Rainha rejeitou-a. Soberbamente. Acrescentando arrogncia  dureza. Para se consolar da mgoa que tambm a afligia. Continuou a sondar a assistncia,
olhando atravs do leque. Finalmente, desistiu. Gabrielle de Polignac no estava, e ela no tinha mais por que permanecer ali. Virou-nos as costas.
Fui at uma janela. Abri-a discretamente. No queria passar por imprudente ou provocadora. De qualquer forma, todos estavam tomados demais por tristes reflexes
para reparar em mim. Debrucei-me: l fora, imantado na direo em que se encontrava a Rainha, estava o Apaixonado. Viu-me e gritou: "Voc a, Brochura, no fique
me olhando".
Voltei a cabea para dentro. O louco se afastou no parque. Sentime mais perdida e rf do que antes da sada do Conselho. A Rainha, ento, no partiria. Desistira
do projeto. Jacob-Nicolas Moreau, que era contra a partida, disse-me:
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- Uma rainha no  um simples indivduo. Ela no pertence somente a si. Seria chocante lanar-se assim, com a famlia, pelas estradas. Imagine que podem ser atacados
no caminho, feridos... Seria bem possvel, uma vez que a senhora tambm ouviu o marechal de Broglie afirmar que no tem mais como lhes assegurar a proteo do exrcito.
Eu lhe disse ontem: estamos perdidos. A derrota da corte  definitiva.
- Ao decidir partir a Rainha recusava o fato de a sorte estar lanada. Foi para salvar a realeza que se decidira a tais riscos.
- Tudo est resolvido. A nica grandeza, agora, ser a de suportar o castigo. Os nobres sofrero, mas fizeram por merecer. Foram egostas, dilapidadores, abandonaram
todo e qualquer dever de caridade. Taparam os ouvidos aos gemidos dos pobres. Eles se vingam e  justo. Um dia, os pobres no conseguem mais ser to pobres.
- Mas isso acontece to repentinamente!  assustador.
- Deviam ter se assustado antes. O Eterno no nos atraioa jamais. Ele manda avisos. Lembre-se, h quase um ano, em 13 de julho de 1788, aquele granizo mortal...
Deus enviou do cu uma chuva de pedras de gelo, cada uma tinha a forma e o tamanho de um punhal. Lembre-se, Agathe.
Quis tomar-lhe a mo. Feito o gesto, consegui alcanar apenas a ala de sua pasta.
Na Grande Galeria, a maioria dos cortesos tinha se retirado. Surpreendi-me ao ver sozinho, esquecido, o marqus de La Suze. Como Marechal-Mor da Moradia, ocupava
um posto capital em Versalhes: era quem organizava a distribuio dos alojamentos. Acostumado ao assalto das solicitaes, excessivamente adulado, obsequiosamente
cortejado, o senhor de La Suze desenvolvera estratgias para escapar dos pedintes. Mas via-se desamparado nessa situao sem precedentes: ningum a procur-lo. As
pessoas haviam se retirado sem lhe dirigir sequer um olhar. O senhor de La Suze no sabia o que
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fazer. Faltou pouco para que tomasse a iniciativa de vir, ele mesmo, falar comigo. Afastou uma cortina e espiou o parque. Apenas para parecer ocupado. Deveria
ter ido embora tambm. No conseguia se decidir. Foi, finalmente, tirado dessa situao pela chamada de um criado. O marqus voltou-se. H algum tempo no se via
mais um criado! Alm disso, tratava-se de Saltamosca, um rapaz bastante simptico. Ele chegava de Paris:
- E ento, Saltamosca, diga, como esto as coisas em Paris? perguntou o senhor de La Suze, sorrindo.
- Muito bem, senhor, tudo s maravilhas. O povo tomou a Bastilha com tanta ordem e mtodo que no se pode deixar de admirar. Os senhores de Launay e do Puget 19
foram condenados a perder a cabea.
* 19 Diretor e chefe da guarda da Bastilha.*

Sofreram sua pena sem delongas. As cabeas, assim foi decidido, ficaram expostas na ponta de duas lanas.

Angst... Senti um peso me oprimir o peito e, gotejando da nuca at a cintura, um suor que no era o do calor. Tive dificuldade para engolir... como um inseto que
entrasse boca adentro, avolumando-se e se debatendo na garganta; acalmando-se depois, aquietando-se e fazendo ali um ninho, para sempre... Angst... Enxuguei o suor
da testa... Lembrei de um vero em Marly, em que a moda era jogar a brincadeira do medo. "Mais um medo", imploravam as damas, sentadas em crculo no roseira!, quando
algum sugeria, com a voz j embargada de sono, estar na hora de dormir... "Mais um medo." Quem me dera reaver o perfume que estava no ar, aquela suavidade. Revi,
em detalhe, o vestido branco que a Rainha usou uma noite naquele vero do medo. A maneira como sorria na sombra...
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A CLERA DA RAINHA POR NO PARTIR (ONZE HORAS DA MANH)

Quinta-feira, 16 de julho. Estava prevista, em meu carn, uma sesso de leitura. Nada me faria no cumpri-la. Estava  merc de uma espcie de fanatismo intil e
desesperado. Mal me penteei, sequer me lavei, joguei alguns livros na sacola de veludo e estava pronta. Para disfarar o estado de meu cabelo, escondi-o sob uma
touca rendada azul-marinho. Usava o mesmo casaco cinza; dei-me ao trabalho de trocar a saia, ao menos, mas ela era leve demais para a temperatura que fazia e tambm
inadequada para o horrio. Entretanto, encaminhei-me decidida. A Rainha desistira de partir. O Rei no quisera seguir-lhe a opinio. Essa afronta deve ter sido insuportvel
para ela. No me preocupei com isso. Apenas uma coisa ocupava meu esprito: v-la.

A Rainha, de fato, estava l. Estava realmente l. De p, extremamente agitada, considerava, mal-humorada, a desordem em torno. Trs ou quatro mulheres, procurando
manter-se o mais discretas possvel, desarrumavam as malas, que alis nem tinham sido fechadas. A Rainha no disse palavra, mas pareceu-me que todo o espao se preenchia
com seu furor. Minha segurana se esvaneceu. Gostaria de ir embora. Maldisse minha obstinao teimosa. Hesitante, agarrada  sacola pesada com sua carga absurda
de livros, percebi que a Rainha no tivera a mnima inteno de suprimir a sesso (hoje me parece bvio que no o fez porque no lembrou. quela hora, em seu plano,
deveria estar j na estrada). No canto em que a senhora Campan me colocou havia o tradicional copo com gua aucarada, junto ao qual fora acrescentada uma gulodice:
uma taa de creme de leite fresco salpicado com groselhas. Olhei sobressaltada as frutas vermelhas. Acho at que as confundi com rubis que porventura tivessem cado
da caixa de jias. Fiquei a olh-las, e a senhora Campan me disse baixinho que comeasse. No conseguia despegar os olhos das groselhas, como presa por um encanto.
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- Est esperando o qu? - insistiu a senhora Campan. Busquei
s cegas dentro da sacola. Nada do que vinha me parecia compatvel com a situao. Abatida, humilhei-me a ponto de perguntar  senhora Campan:
- O que seria oportuno que lesse para Sua Majestade?
No mesmo instante a vergonha acabou de obscurecer meu esprito (e outra vez volta, igualmente violenta, a me queimar a face). A senhora Campan saboreou a satisfao
de no responder. Trocou um olhar significativo com uma das camareiras, a senhora Augui, sua irm. Era o cmulo. Peguei ao acaso um livro do filsofo David Hume.
Imediatamente a senhora Campan me repreendeu, em voz baixa:
- Senhora Laborde, de maneira alguma um protestante, ateno!
Minha vergonha aumentou. Senti-me afundar no cho. No tinha mais o menor discernimento. Passei de um protestante para um jesuta! Melhor assim. No chegava a ser
timo. Quanto ao texto, propriamente, a escolha foi lamentvel. Abrira um relato de viagem, um volume das Cartas edificantes e curiosas das misses na Amrica meridional.
Uma carta do padre Cat. Comecei:
"Eis aqui algo que julguei digno observar. Quando chove na zonatrrida, sobretudo nas imediaes do equador, ao fim de algumas horas a chuva parece converter-se
em uma multido de pequenos vermes brancos, semelhantes queles que nascem no queijo.  claro que no so as gotas de chuva que se transformam em vermes.  bem mais
natural acreditar que essa chuva, que  morna e insalubre, simplesmente faz eclodirem esses animalejos, como, na Europa, faz eclodirem lagartas e outros insetos
que roem nossas rvores frutferas. De qualquer maneira, e por via das dvidas, o capito aconselhou que secssemos as roupas. Alguns de ns no quiseram e logo
se arrependeram, pois as roupas se encheram de vermes, que eles tiveram as maiores dificuldade para eliminar".
Deveria ter fechado o livro, ter escolhido outro, sentia-me incapaz... Apenas saltei algumas pginas e cheguei s seguintes linhas, muito bonitas, apesar de descreverem
costumes pagos:
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"Os ndios do  lua o ttulo de 'me' e a homenageiam por essa qualidade. Quando h eclipse, saem em grandes levas das cabanas, soltam gritos e urros medonhos e
atiram ao ar uma quantidade prodigiosa de flechas, para defender o astro noturno dos ces que acreditam estar a ponto de atac-lo. Muitos povos da sia, apesar de
civilizados, vem os eclipses da lua mais ou menos do mesmo modo que os selvagens da Amrica."
Era tarde, a chuva de larvas j cara. A senhora Campan, explicitamente irnica, contava as camisas. Deu uma ordem s engomadeiras. Em seguida, voltou-se na direo
da Rainha, que, sem luvas, mordiscava uma unha. Parecia nada ter ouvido. Estava sentada sob um grande retrato da me, bordado em ponto de cruz, e observava com aparncia
furibunda o vai-e-vem que a circundava. Disse, afinal, duas palavras  senhora Campan, que acorreu: "Por favor, seria bom que cessassem essas esquisitices". Depois,
retomou a contagem das camisas.
Tentei o senhor de Marmontel, que fazia melhor companhia e no era protestante nem jesuta. Peguei um exemplar dos Contos morais, que no continha nada que pudesse
chocar: "No sei se lembram do marqus de Lisban, era uma daquelas figuras friamente belas, capazes de dizer 'eis-me aqui'; tinha dessas vaidades inbeis, que incessantemente
falham em seus intentos. Empolgava-se com tudo e no era bom em nada; tomava a palavra, pedia silncio, conseguia a ateno geral e dizia uma platitude". J nas
primeiras palavras a Rainha afundara na poltrona. Uma mulher aproximou o banquinho para os ps. No limite da pacincia, pediu-me que parasse.
- Agradeo muito. O marqus de Lisban em nada me vem ajudar. Conheo-o bem demais. Ele e seus semelhantes... A senhora retomar a leitura mais tarde. Tente outra
coisa. No se afaste muito.
Ela me tinha dito ou mandado dizer exatamente isso milhares de vezes. Esse "mais tarde" vinha carregado de grande polidez, apesar
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de ter sido pronunciado no vazio e dirigido a ningum. Levantei-me, peguei minha cadeira de armar e me afastei para um canto, com o livro na mo. Meti-me
em um refugio decorado com heras e campnulas em relevo, pintadas em laa verde. O lugar era lindo, mas naquele momento pareceu-me sinistro. Mais tarde demorava
a chegar. Esqueceram de mim. Fiquei com a impresso de que a lombada de couro dos contos morais de Marmontel se incrustara na palma de minha mo.
No entanto, ela se despegou quando me foi solicitada uma nova leitura. Mais tarde demorava, mas, na maioria das vezes, acabava por chegar. O que ler? Outro conto?
No tinha mais nenhum comigo e no era o melhor momento para ir procurar nas bibliotecas. Um livro mais srio? Talvez. Pensei em Antoine Court de Gbelin, um cientista
extravagante que, por razes para mim misteriosas, agradava  Rainha. Mas Antoine Court de Gbelin no estava na sacola. Em vez dele tirei o Dicionrio dos ces 
clebres,
coisa que, em outra situao, dado seu amor por cachorros, poderia interessar bastante. Hesitei em abrir Histria do cu, do padre Pluche, pois era to vasto que
temi agravar sua inquietude. Acabei escolhendo o livro que eu mesma estava lendo - e que ainda hoje est sempre perto de minha cabeceira. Era uma antologia de narrativas
da senhora de La Fayette. Uma pgina de A princesa de Montpensier ofereceu-se quase sozinha: "Um dia em que voltava para Loches por um caminho pouco conhecido pelas
pessoas de seu squito, o duque de Guise, vangloriando-se de conhec-lo bem, encabeou o grupo, para servir de guia. Aps andarem algum tempo, constatou estar perdido
e se viu  margem de um rio desconhecido. O grupo inteiro reclamava com o duque de Guise, por t-los guiado to mal, e, estacionando naquele lugar, sempre dispostos
a brincadeiras, como jovens prncipes costumam estar, perceberam um barco parado no meio do rio; como este no era muito largo, puderam facilmente distinguir a bordo
trs ou quatro mulheres, entre
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elas uma que lhes pareceu belssima, magnificamente vestida, a olhar com ateno dois homens que pescavam ali perto. Essa nova aventura trouxe renovada alegria aos
jovens prncipes e a todo o squito: pareceu-lhes coisa de romance".
Eu lia. Tudo silenciara ao redor. A Rainha ouvia. No precisava ver-lhe a expresso do rosto para ter essa certeza. O espao que, quando cheguei, estava ocupado
pelo caos, tornara-se lmpido, ordenado. Era o interior mesmo de seu esprito. Eu lia. Havia uma suavidade e um secreto orgulho em minha voz. Ela conseguira esta
faanha: libertar a Rainha das tenazes do furor e dos lamentos. A Rainha se entregou  seqncia de palavras como  notas de uma msica. Ela renasceu e fui eu o
instrumento de seu renascimento. Ah! que dure este instante, pensei e tive a impresso de sust-la no ar, ou flutuando em um rio, como a apario ensolarada da princesa.
Entretanto, quando Gabrielle de Polignac foi anunciada a Rainha imediatamente me escapou. As mulheres desapareceram. A condessa de La Fayette calou-se. A senhora
Campan foi solicitada a ficar. Fiz o mesmo, pois esta achou que eu poderia ser til (a irm e a senhora de Rochereuil estavam ocupadas em outro lugar) no prosseguimento
do trabalho de arrumao. Uma minuciosa e discreta transferncia de objetos a que se dedicava desde que lhe fora comunicada a notcia do cancelamento da partida.

HOJE, A CHUVA, A DVIDA E MINHAS FOLHAS ESPALHADAS PELO CHO. DEPOIS, COM A VOLTA DO SOL, MINHA ESTADA NA CASA DO PRNCIPE DE LIGNE (VIENA, JUNHO DE 1810)

Eu faria bem em seguir agora o conselho do senhor de Montdragon e torcer as mos, sozinha na cama. Minhas mitenes de renda no protegem o bastante e as de l me
deixam sem tato. Essa impresso de frio se agrava com as dores que o ms de junho, terrivelmente mido, me causa. Um ms to chuvoso, lamacento, desastroso que
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no vejo nele nenhum prenuncio do vero. A angstia, Angst, est presente. Deitada, com os olhos fechados, enfraquecida porque no tenho a menor vontade de
me alimentar, penso: Deixe-se morrer, no espere mais, os belos dias no voltaro. Para mim, alis, o que eles mudariam? O que trariam? Perfume de flores, cu azul,
vozes das pessoas l fora... E da? Nada disso me dar energia para viver. Minhas folhas, cadas no cho, espalham-se pelo tapete. Quando tenho de dar alguns passos
no quarto, no tomo nenhum cuidado para no pisote-las e, no satisfeita, de propsito enfio a ponta da bengala no papel, para amassar, rasgar, matar. Meus dias
so mortais.  noite, tombo em um abismo de insnia. Febril, chego a me sentir desnorteada. Duas vezes me surpreendi comeando uma orao  Virgem Maria com o nome
da Rainha: "Salve, Maria Antonieta". Na segunda vez, tive um sobressalto, pois, enquanto eu rezava, a voz do Apaixonado ecoou em minha cabea. Ser possvel que,
no lugar em que est, entre os mortos, ele continue a perturbar com suas litanias as almas entregues ao Repouso Eterno, e que a Rainha, em sua bondade, continue
a desculp-lo? O sentimento de indefinio que a neve causava, volta, agora, com a chuva. Um desnimo imenso, e certamente desmedido em se tratando apenas de mau
tempo, traz-me lgrimas aos olhos. H esse martelar das gotas de gua no calamento do ptio. Uma melodia contnua. O tema insistente da vaidade, vanitas vanitatum,
vaidade das vaidades...  o que ouo no barulho montono da gua. Sobre essa sonoridade bsica em que tudo se afoga, a chuva se amplifica em tempestades. Bate em
minhas vidraas (com a interveno do vento, caa, ainda h pouco, quase perpendicular), depois amaina, volta ao modo combativo e regular, feito para nunca cessar;
ou se torna chuvisco, e, quando abro as cortinas pela manh, descubro uma bruma de novembro. Perfumes de feno molhado esvoaam em Viena. O Danbio, como quando fundem-se
as neves, encobre as margens. Falam de queda de pontes, de deslizamentos de terreno. Nos subrbios pobres da cidade, registram-se as primeiras vtimas do clera.
Eu no conheo Paris, pois fui diretamente
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da provncia para Versalhes, no sei se  verdade ou no que seja uma capital devotada ao culto da Morte (digo por vocao e no apenas por crise, como durante
o Terror), mas Viena, sim.  a capital do Reino da Morte. Quem tiver dvida que passeie pelo Graben e veja, no ruidoso vai-e-vem dos carros e dos transeuntes, a
maneira como a Coluna da Peste atrai e domina. Tentacular e terrvel. Impossvel escapar... Afundo. Perdi o vero do medo e no alcano a estao dos vivos. Estou
 deriva, encolhida em meu cobertor. Tenho a sensao de ser rejeitada, expulsa. Se conseguisse respirar fundo, tudo voltaria, tenho certeza: aquele mundo antigo,
antediluviano, o mundo do outro lado do rio do Tempo. O fulgor do olhar da Rainha, no instante em que conseguira prender-lhe a ateno, apagou-se. A princesa de
Montpensier no passa de um esqueleto que balana sobre a gua. E todos aqueles rostos to jovens e prximos, com cabelos encaracolados escapando das perucas brancas
e sorrisos ambguos, entraram de volta na noite em que tinham surgido. As faces empoadas, os lbios carmim e as mos brancas, mos que no foram feitas para segurar,
mas para apenas tocar, acariciar, mover-se no ar... Ter sido por isso que largaram to rapidamente o controle? Por incapacidade de segurar firme, de resistir? Esta
anedota que me impressionou: um jovem da nobreza foi autorizado a sair sozinho pela primeira vez. Sabendo das preocupaes financeiras da famlia, divertiu-se, mas
tomou cuidado para no gastar muito. De volta, mostrou orgulhosssimo ao av o dinheiro economizado. Em vez de felicit-lo, o velho apenas olha com desprezo, toma-lhe
o peclio quase intacto, abre a janela e o atira... Mos com tal educao certamente no aprenderam a agarrar... Ao contrrio, sabiam jogar fora. Faziam-no  perfeio.
E os criados imitavam os patres. Era incrvel como se jogavam coisas pelas janelas em Versalhes. Queixas, reclamaes, reprimendas de nada adiantavam. De noite,
era acordada pelo barulho de vidraas quebradas nas varandas. E eu, que no jogava nada e sou dona de mos que sabem segurar firme, como me deixei envolver facilmente
por pessoas que no ligavam para
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nada? "Facilmente" no  a palavra certa. Tudo se esvai, as palavras, minha nsia por palavras, minha constncia em me aplicar a elas... A chuva no suaviza
suas maneiras rudes. J pela metade demolida, acabar Viena inundada? Fecho os olhos. Durmo sem dormir. Vivo sem viver...
Por fim, certa manh o sol voltou. Liberou meu pranto. Chorei, com os olhos cheios de luz. Compreendi no ser a espera do vero o que me consumia, mas o receio de
no ser mais capaz de aproveit-lo. Estava errada. Continuo totalmente capaz. Fico feliz quando, ao anoitecer, instalada no parapeito da janela, admiro o cu ainda
claro, com o dia ainda a persistir. E saboreio, mais uma vez, este prazer: sentir a suavidade do ar. Em Viena, porm, a suavidade dura pouco. O pleno vero  quente
demais, tempestuoso, extenuante. Mosquitos e todo tipo de inseto transportam doenas estranhas. Experimenta-se aqui algo das umidades de Versalhes, mas sem um pingo
do esplendor que l eram comum.  a pestilncia do monumento do Graben que, sorrateiramente, se insinua e mata. Sigo, como tenho feito todos os anos, para uma estada
na casa de campo do prncipe de Ligne, em Kaltenberg.  um lugar delicioso, como o so as pessoas ali presentes. Delicioso pela alegria com que o prncipe contagia
todos que o rodeiam. Mesmo quando no se faz nada, a vibrante proximidade da felicidade est ali. Para este vero, o prncipe me prometeu uma de suas mais belas
casas, ou, pelo menos, a que prefiro. Ao todo, so nove, pequenas, de madeira. "Minha" casa fica bem perto do Danbio ( conhecida como "casa do pescador de Ligne").
As folhas externas das janelas tm um corao recortado bem no centro...
Esperei ansiosa pelo ms de outubro, no para voltar ao lar, mas para retomar estas pginas. Durante a estada com o prncipe, deu-se um acidente que me entristeceu:
uma governanta da princesa
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de Ligne ateou fogo s vestes. Rapidamente foi transformada em tocha viva. Em vez de socorr-la, os criados chamados acreditaram ver um fantasma. Fugiram com gritos
to apavorados quanto os da infeliz vtima. Foi o nico incidente desagradvel de nossa vilegiatura... Um ms nas montanhas, um ms para viver a iluso de estar
fora do tempo, de que nada havia acontecido, nunca... O prncipe  um virtuoso do esquecimento. Creio at que o nico tipo de gratido que ele espera de seus convidados
 que faam como ele, que se decretem jovens, estouvados e magnficos pela eternidade. Tenho dificuldades.
Uma tarde em que dormitava sob uma rvore, ele se aproximou de mim e gentilmente preveniu: " sempre um risco fazer a sesta em nossa idade,  dar chance  Segadeira.
E no se deve facilitar-lhe a tarefa". Deslizou o polegar pelos dentes incisivos (o prncipe, s vezes, tem maneiras execrveis, fazem parte de seu encanto! O gesto
em questo sublinhava o fato de ele ainda ter os dentes). Tomou uma poltrona e sentou-se  minha frente: "A senhora me dir que est cansada, mas no est, de forma
alguma! Posso lhe afirmar que essa  uma idia fixa". Como insisti, ele acrescentou: "Olhe para mim. Pareo cansado?". Sacudiu os dois anis de ouro que usava nas
orelhas. "No entanto, cabe a mim ser velho. Eu tambm tenho por qu." Achei encantador esse "tenho por qu".
Na casa do prncipe de Ligne s se fala francs. Vive-se exatamente como na Frana durante o reinado de Lus XVI. Os mesmos hbitos, as mesmas maneiras, os mesmos
vcios de linguagem, quase as mesmas modas. Seus amigos de agora o chamam Charlot, como os mais ntimos em Versalhes. A concesso ao presente  mnima. Quando, por
desateno, uma expresso alem atravessa a conversa, h um silncio constrangido.
- No se sabe rir em alemo - afirma o prncipe de Ligne.
- No entanto, a Rainha sabia rir. E no foi em Versalhes que ela aprendeu, mas aqui, em Viena, em alemo.
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Enquanto eu dava essa resposta, que lamentei to logo me escapou, pois no gosto de contrariar o prncipe, pareceu-me ouvir a Rainha, bem prxima. Ela ria.
O prncipe estava estendido em uma espreguiadeira, com os olhos piscando em direo ao cu. "Como  sublime o perfume das tlias", suspirou. Uma criada debruou-se
para arrumar uma almofada em minhas costas. Foi ento que notei as pernas do prncipe, descarnadas, arqueadas, malvestidas nos meies brancos que se enrolavam e
faziam pregas logo acima dos sapatos vermelhos de salto que ningum mais no mundo usa. Ele tinha por qu, de fato. Uma onda de cansao me submergiu. Continuei a
escutar ao p do ouvido o riso da Rainha, misturado ao zumbido das abelhas nas tlias. As palavras do prncipe de Ligne se fizeram inaudveis. Por trs dele, o parque
 francesa, a alia que descia em direo s casas  beira do Danbio e o prprio Danbio deixavam de ser reais. Christine, filha do prncipe de Ligne, conseguiu
atravessar essa nvoa, mas logo se juntou a tudo mais no horizonte espectral em que o vero se dilua. Cerejas, tive um sbito e violento desejo de cerejas. E pensava:
Onde encontrar? A quem pedir? Como se minha pergunta os tivesse chamado, os personagens do Grande Degrau apareceram. Os homens vestiam o traje de corte do sculo
XVII. As perucas desciam at o meio das costas. As mulheres tinham imensos vestidos rodados. Os degraus brilhavam. Eram novos, de mrmore branco. Como sempre, naquele
sonho, a imobilidade dos cortesos, o rgido posicionamento me fascinava. E os rostos que me eram familiares, sem jamais conseguir reconhecer um nico... Eles se
apresentavam a mim apenas como recusa. Entretanto, ali, no alto, a Rainha surgiu. Desceu correndo a grande escadaria de mrmore. Ningum se voltou nem fez reverncia
 sua passagem. Os olhos se mantiveram fixos. Algo de irrepreensvel na vitalidade da Rainha se opunha a isso. No satisfeita em correr, ela saltava. A cada salto,
de degrau em degrau, as cerejas que carregava dependuradas como brincos corriam o risco de cair. Um homem, um juiz minsculo, coberto por um pedao da peruca
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magistral, proferiu quando ela passou: "A Rainha tem o gosto acre das bacantes".
Quem inspira semelhantes sonhos? O Diabo, ento, nunca d trgua?

Em defesa do prncipe devo dizer que a Rainha no faz parte de sua rejeio ao passado. Aqui ele  a nica pessoa que pronuncia seu nome. O nico tambm a regularmente
visitar o tmulo de Gabrielle de Polignac, morta de tristeza em Viena, em 5 de dezembro de 1793. Quando estamos juntos e ele tem vontade de falar da Rainha, sempre
comea por: "A senhora se lembra?". No preciso responder. Freqentvamos a Rainha em mundos que no se comunicavam entre si. Seria grosseiro de minha parte at
mesmo fingir que tento me lembrar. Houve uma vez, no entanto, em que o prncipe evocou algo de que eu tambm me lembrava. No o disse, mas, enquanto ele contava,
revi a cena com preciso: foi h muito tempo, logo no incio da amizade da Rainha por Gabrielle; as duas brincavam do que chamavam "jogo de olhar os leques flutuarem".
Elas se punham na pequena ponte do vilarejo de Trianon e olhavam a gua, que fingiam estar coberta de leques. Descreviam as cores, as particularidades. De seda ou
de papel, flutuavam abertos. Ficavam ambas tristes quando, pouco a pouco, afundavam.  sua volta, damas de honra e aafatas, a corte de damas do Palcio, se acotovelavam
ao longo do rio, sondando a gua.
H uma bandeja com figos em minha mesa de cabeceira. Esto arranjados sobre as folhas, ainda incrivelmente cheirosos. O Palcio de Solido, o Teatro da Memria fechou-se
ao meu redor. "A senhora se lembra?"
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NOS PEQUENOS APARTAMENTOS DA RAINHA ASSISTO, SEM QUERER, A UM ENCONTRO DA RAINHA COM SUA FAVORITA (UMA HORA DA TARDE)

- Ah! senhora, imaginara outra acolhida, outras circunstncias.
A Rainha apontou para uma arca, um ba e alguns sacos entreabertos. Eles tornavam quase impossvel mover-se naqueles cmodos to minsculos, guarnecidos ainda com
cortinas, tapetes e pequenos mveis cobertos de retratos, caixas, vasos, bibels, cestos de flores em madreprola, em marfim, em bano, em porcelana, em plumas e
em seda. Mas Gabrielle de Polignac, esguia e airosa, no teve dificuldade para passar entre a bagagem, agora intil. Aos olhos da Rainha ela era agora um estorvo
ainda maior, pois lembrava seu fracasso. Gabrielle, com a tez plida, o cabelo esvoaante na altura dos ombros, usava um vestido verde. Um cinto largo realava-lhe
a cintura. A jovem era mida, de contornos suaves. A suavidade e a placidez de sua personalidade haviam encantado a Rainha. A favorita tinha uma beleza natural,
um frescor que adquiria um surpreendente fulgor no seio de Versalhes, onde reinavam a maquiagem e os brilhos sofisticados. Ao lado de Gabrielle, as outras mulheres
da corte pareciam autmatos, com gestos duros, caminhar mecnico, fala imperiosa e aguda. Ao mesmo tempo, a voz era meiga e a postura, modesta. Chamava ateno precisamente
porque no fazia qualquer esforo para tal. Seus olhos claros no se demoravam em ningum. O contraste com o cabelo castanho os tornava ainda mais claros e acentuava
nela um qu de inapreensvel.
Gabrielle fez uma reverncia to leve e rpida que mais pareceu o primeiro tempo de uma dana. Ia recome-la, mas a Rainha ergueu-se e tomou-a nos braos. Estava
trmula e cambaleante. O breve claro de serenidade produzido por minha leitura se esvanecera.
- Queria tanto partir! Jamais quis tanto alguma coisa; e no consegui. Sofri uma mortificao sem precedentes.
A raiva parecia voltar  tona, mas, sob o efeito da presena da amiga, a ternura e a tristeza ganharam terreno.
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- Se o Rei tivesse aceito, estaramos salvas, a senhora e eu. Quando voltssemos, posso assegurar, os rumores infames teriam cessado, assim como esse delrio que
toma conta dos franceses. Eles no sabem, no compreendem o que est acontecendo. Ouvem gritar, e, antes de refletirem, o grito j est neles. Um grito s no pas
inteiro. Mas qual grito exatamente?
Gabrielle de Polignac no tinha resposta e no fez o menor esforo para encontr-la. Lanou um breve olhar a um espelho, viu os dois rostos, ou apenas o seu, e tocou
uma rosa presa em seu cabelo. Mexeu a cabea para se assegurar de que a flor estava bem presa. Era um gesto mnimo. Suficiente, no entanto, para quebrar o encadeamento
de preocupaes da Rainha, a ameaa do mundo externo. A bagagem tinha perdido todo o significado. No passava de demonstrao de um capricho.
A Rainha fez a amiga sentar a seu lado, em uma poltrona da mesma altura que a sua, um assento que at ento apenas o Rei tinha ocupado. Inclinou-se para Gabrielle:
- Alma querida... preocupava-me tanto; temi que a impedissem de vir me ver, que a tivessem aprisionado ou que estivesse doente. Idias terrveis me perturbaram.
Mas est aqui, resplandecente!... Como est bonita neste vestido verde, verde-claro... verde-gua, verde-tlia?
- No sei, Majestade, essas nuanas me escapam.
A alegria de seus olhos, de sua boca, de uma sombra de covinha na face esquerda mostrava bastante bem que ela pouco se importava com as nuanas; para ser mais exata,
que ela pouco se importava com qualquer coisa. Mas deu prosseguimento  brincadeira, pois sabia que, como a Rainha no conseguia dar muita seqncia a suas falas,
ela no devia ir muito longe. De qualquer maneira, apesar de no ter a mesma paixo por tecidos, agradava-lhe bastante falar de moda. A Rainha, por sua vez, lanou-se
com ardor  frivolidade.
- Seria meu vestido verde-amndoa, verde-broto-de-bambu, verde-jade ou verde-crocodilo?
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- Engana-se, minha bela - riu a Rainha -,  to pouco verde-crocodilo quanto verde-espinafre ou verde-cido...
- Ou verde-inveja, um verde horroroso.
- Imundo.
- Uma cor nada franca.
-  um sentimento, minha querida, que nunca aflorou em seu corao. Por isso v-la  precioso para mim - inclinou-se um pouco mais e acariciou-lhe o rosto, no qual
uma covinha se esboara. - De fato, acho que a inveja  o sentimento mais difundido. Cada qual cobia o lugar acima do seu. Ela  o nico motor das aes: as pessoas
se mexem para satisfazer a prpria inveja, mas assim que conseguem o que tanto desejaram, descobrem a posio superior. Esta,  claro, as fascina, e l vo elas
de novo ao ataque. Que tormento deve ser essa perptua necessidade de luta e a simultnea deteriorao de toda a satisfao! Eu conhecia a ambio dos cortesos,
nunca imaginara a ambio do povo.
-  toda uma programao...-respondeu Gabrielle de Polignac, com um tom perfeitamente desatento.
- Nossos sditos pretendem eleger quem os dirige.  uma estranha concepo! Acham que amaro esse chefe por terem-no escolhido... mas como amar um chefe que no 
se
conheceu em criana? O Rei Lus XV contou-me esta cena de sua infncia. Foi durante a regncia de Filipe de Orlans; ele habitava as Tulherias. Quando ia brincar
em uma varanda, acima dos jardins, a notcia logo se propagava. Os parisienses acorriam e se juntavam. Permaneciam horas a fio com a cabea erguida, na esperana
de ver o pequeno Rei brincando. Os parisienses... mudaram muito! A senhora, no entanto, apesar de no ter tido uma infncia alegre, no  nada invejosa. rf muito
cedo, sem recursos, poderia invejar a sorte de outros.
- Eu? Talvez. Nunca pensei nisso - respondeu Gabrielle de Polignac. E afastou, por sob a rosa presa no cabelo, um cacho que lhe escondia o rosto.
- Conte-me, conheo-a no fundo to pouco. E se devssemos, um dia... Fale mais, querida - pediu a Rainha como se estivesse
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diante de uma fonte de candura da qual gostaria de beber cada vez mais.
- Estou, Majestade, perfeitamente satisfeita com meu destino. Acho que sempre fui assim.  uma caracterstica minha. Mas graas  generosidade de Vossa Majestade
hoje em dia meu contentamento no tem limites.
Gabrielle de Polignac parecia no querer que a conversa enveredasse por esse terreno mais ntimo. No gostava de falar de si e, sem dvida, preferia voltar ao jogo
de apontar as cores. Mas, por insistncia da Rainha, precisou evocar a me, morta bem moa, fato que, na poca, no lamentara. Mesmo enquanto viva, sua me fora
ausente. Lembrava-se muito pouco dela. Havia uma mulher esbelta, belissimamente vestida, que dizia adeus... Inclinava-se para ela e, antes que tivesse tido tempo
de responder ao adeus, j no estava mais ali. Havia o som fragmentado de seus passos na enfiada de quartos sombrios de um palacete provinciano e s isso.
- Quando morreu, senti-me livre daqueles adeuses interminveis. Por fim, ela conseguira mesmo partir. Meu pai tambm desapareceu. Antes de se casar novamente, confiou-me
a uma prima. Ela tambm vivia em um palacete de provncia, igualmente amplo e sombrio, mas quase sem mveis. E isso me agradava, aquelas peas todas vazias. Quando
fiz catorze anos, deixei aquela parenta e passei a ser criada por uma tia, a condessa d'Andlau, que tinha uma situao na casa da condessa de Artois. Foi quem me
casou, quando tinha dezessete anos, com o conde Jules de Polignac. E... no tenho muito mais a contar, pois a partir da s tive felicidade.
Gabrielle de Polignac riu; a Rainha tambm, sem muita convico.
- Mas sua me era gentil ao pensar na senhora quando partia.
-  pena que s pensasse nesses momentos. Mas no posso critic-la, simplesmente no a conheo.
Ficaram ambas pensativas, e Gabrielle, repentinamente, lembrou-se de uma imagem, distante mas precisa.
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Devia ter cinco ou seis anos quando uma camareira veio especialmente
prepar-la para uma festa, a ela, que passava dias inteiros abandonada! Lavou-a e penteou-a, vestiu-a de branco, colocou-lhe uma estrela nos cabelos e,
supremo prodgio, duas grandes asas. Foi levada para um imenso salo, onde todo mundo danava. Primeiro sentiu medo, mas todos foram to delicados com ela, felicitando-a,
afastando-se para abrir passagem, tomando cuidado para no amassar sua bela plumagem! O baile, afinal, terminou. A garotinha carregou durante vrios dias as asas
pelos corredores. Quando afinal encontrou a me, esta lhe disse:
- Como assim, senhorita, continua fantasiada? No sabe que um baile de mscaras, como tudo, chega ao fim?
- Senhora - choramingou -, ningum me ajudou a tirar estas asas.
- No tem problema, Gabrielle, vou ajud-la, meu anjo. E sua me despegou, ela mesma, as asas.
- Foi somente a - concluiu a senhora de Polignac - que uma tristeza absoluta tomou conta de mim. Uma tristeza mortal.
A mesma tristeza estava de volta. E envolveu a ambas.
Em certo momento, falaram dos ltimos mexericos sobre a princesa de Lamballe. Dizia-se que Louise de Lamballe estava grvida. Para desmentir o boato, a princesa
estava o tempo todo a cavalo. Andava moda de dores.
- No deveria: tem dores contnuas nas costas.
- Di ainda mais ser difamada. Creio ter visto a querida Lamballe h pouco, na sada do Conselho. Pareceu-me, de fato, bastante adoentada. Mas na multido ansiosa
que nos emboscava, ela no era exceo. Somente a senhora consegue manter essa aparncia resplandecente.  um osis de luz entre essas figuras desoladas. Que nem
sempre o so por compaixo.
Gabrielle de Polignac aproveitou para se desculpar pela ousadia da quebra do luto. No era propriamente um atrevimento de
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sua parte, mas um gesto para que a Rainha, em meio a todo o negrume que a circundava, pudesse, em sua intimidade, repousar os olhos e o corao em uma cor pastel,
o verde, a cor da esperana...
- Perdi toda a esperana. No entanto, alegra-me que tenha pensado em mim enquanto escolhia a cor do vestido; o verde, minha cor preferida... Vestiu-se para mim...
Que atencioso de sua parte, Gabrielle, quanta generosidade! Sua proximidade me faz sentir menos desolada pelo fracasso de meus planos. Pelo horror da situao. Atravessamos
uma fase infeliz. Veremos seu fim? Tenho dvidas. No entanto, devo esperar, a senhora tem razo. Devo acreditar nesta cor... verde-osis... quase a mesma cor deste
vaso... - Pegou sobre o rebordo da lareira uma taa de jade. Enquanto falava, girava-a entre as mos. - Que maravilha haver cores! Deus poderia perfeitamente ter
criado um mundo sem cores. No tinha obrigao nenhuma... Um mundo sem cores... como saberamos, ento, onde acaba uma rvore, onde comea o cu? Tudo se confundiria
num branco indistinto. Enxergaramos sem fazer separaes nem perceber limites. Seria repousante. Talvez. Ou enlouquecedor... Um eterno dia de neve... A menos que
criasse um mundo todo negro, um eterno dia noturno, como o de hoje...
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A Rainha detestava o negro. Considerava-a uma cor nefasta. Mas o negro no cessava de envolv-la. Apesar da graa de Gabrielle, apesar do verde-claro do traje caseiro,
apesar do prazer daquela conversa interminvel, do encadeamento de palavras sem finalidade... Elas gostavam tanto de conversar entre si-sobretudo a Rainha, mas talvez
as duas - que passavam tardes e noites inteiras em conversas privadas no vilarejo de Trianon, escondidas na gruta ou fechadas no pequeno teatro dourado e azul, o
pequeno teatro de bonecas de Maria Antonieta. Gostavam tanto de falar por falar que, quando de fato tinham algo a dizer, era necessrio um tempo enorme para consegui-lo.
Talvez no fundo nunca conseguissem... Gostavam do trajeto, no da chegada... Mas, naquele momento, tal luxo estava proibido.
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Eu as observava nessa proximidade, a Rainha to fascinada pela amiga que, sem perceber, a imitava (assumia, de repente, o mesmo ritmo lento - que no costumava
ser o seu - ou o mesmo franzir do nariz, que no lhe caa nada bem, mas que era charmoso no nariz pequeno e um pouco empinado de Gabrielle de Polignac, um nariz
obstinado). E pronunciava certas frases, por exemplo: "Para mim tanto faz",  maneira de Gabrielle, o que irritava Diane de Polignac, para quem, apesar das declaraes
favorveis aos filsofos, a igualdade no existia. Gabrielle tinha um modo definitivo de dizer aquilo. Ela semicerrava os olhos, falava com toda a suavidade: aquilo,
de fato, lhe era indiferente. Era intil insistir e tentar lev-la a escolher. Entretanto, quando a Rainha dizia "Para mim tanto faz", a frase no tinha o mesmo
sentido. Tinha quase o sentido oposto. Ela a proferia para que triunfasse o seu desejo. Havia outra frase tpica de Gabrielle, repetida tantas vezes que se tornara
uma espcie de divisa: "O que diz est acima de meu alcance". No entanto, qualquer que fosse o grau de mimetismo da Rainha, ela nunca faria essa confisso por conta
prpria. Gabrielle de Polignac, sim, desmanchando-se de simpatia, atenta, inclinada na direo do interlocutor, como para ensin-lo a se ater ao pouco que ela era
capaz de entender. Achava engraado que pudessem t-la imaginado mais inteligente do que era, pressupondo-lhe um embrio de esprito que fosse. Muito, muito acima
de seu alcance.
- Meu Deus, como o mundo  grande! - exclamou a Rainha num repente. - Eu nunca vi o mar, por exemplo - acrescentou, tentando talvez obter uma reao de Gabrielle,
a quem a observao precedente no havia em absoluto sensibilizado.
- Eu tambm no.  uma coisa assustadora, acho. Muito salgado e faz as pessoas ficarem descrentes.
- O Rei j viu, quando foi a Cherburgo. No sei se molhou a mo. No me disse. Mostrou-me o mapa para chegar l. Mas no
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consigo imaginar nada a partir de um mapa, enquanto a partir de uma rvore ou de uma flor, sim. -Pensei comigo mesma, como pequeno consolo, no ter sido to grave
minha incapacidade para desenhar um mapa... - Basta que me sente  sombra de meu cedro-do-lbano para viajar ao Oriente.
- Trianon contm todo o universo; para que se dar ao trabalho de viajar?
A pergunta veio em m hora. Gabrielle percebeu, mas no pde corrigir a indelicadeza. A Rainha conseguiu dizer:
- As pessoas viajam porque esto entediadas com o que tm, para descobrir coisas ou talvez apenas para se inteirar. Porque as coisas so diferentes no local de origem...
Mas os estrangeiros, os verdadeiros estrangeiros, que vm de muito longe, no conseguem nos fazer sentir esse outro mundo... Alis, eu nunca encontro estrangeiros
assim. Tenho medo dos estrangeiros. No sei o que dizer, como quando me propuseram conhecer Voltaire.
- Est se esquecendo, Majestade, da visita dos trs enviados de Tipoo-Sab, no ms de agosto do ano passado... Todos minsculos, liliputianos. Quando se curvavam
em reverncia, s se viam os trs turbantinhos...
- Ah,  verdade, os enviados de Tipoo-Sab, sulto de Mysore... Sua vinda suscitou graves problemas de etiqueta. O Introdutor de Embakadores consultou seus tratados
e encontrou apenas estas palavras: "Para os embakadores extraordinrios da Moscvia, da Turquia ou outros a quem o Rei queira mostrar sua grandeza, nada h de escrito".
O Rei quase no os recebeu. S aceitou porque tinha perguntas de geografia a fazer.
- Onde fica Mysore? O Mysore? A Mysore?
A Rainha esboou um gesto de ignorncia. Era curioso... por mais que tivesse examinado aqueles seres de perto, e os tivesse inclusive representado em cera para divertir
a filha, ela no conseguia lembrar dos rostos. Eram exticos demais para que os registrasse. No se pareciam com ningum mais. No havia comparao. Quanto  culinria,
a deles queimava, s isso.
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- Ah! sim, lembro vagamente de um deles, que me ofereceu
uma roupa de musselina. No primeiro dia, os trs tiveram comportamento bastante correto. No dia seguinte, nada mais os interessava. Durante a visita aos jardins,
no pararam de cocar a batata da perna... Riram.
- Passaram os dez dias seguintes trancados nos aposentos de Trianon, esperando voltar para a... o... Mysore.
- Eram como Vossa Majestade, temiam os estrangeiros.
- Deviam mais ainda temer o sulto. Quando voltaram, Tipoo-Sab mandou cortar-lhes a cabea.
- Nunca iremos a Mysore.
Permaneceram em silncio. A Rainha estendeu a mo para a amiga. E assim ficaram muito, muito tempo, como se no houvesse mais qualquer urgncia, nenhuma presso,
nada a debater... No entanto, houve interrupes, mensagens trazidas  Rainha, mas ela ordenou que as deixassem de lado, que abriria mais tarde. Nada podia quebrar
aquele entendimento, a maneira nica que tinham de estarem juntas.
- Na noite passada - confiou a Gabrielle -, ouvi distintamente cochicharem, bem perto de mim: "V, agora ela est distrada com seus diamantes". Senti no pescoo
o hlito de um assassino. s vezes me pergunto se no estou ficando louca, se no exagero o dio que me cerca.
- Acho que sim, que Vossa Majestade exagera. O cansao a faz ver as coisas com mais gravidade do que elas realmente tm. E nunca deve se esquecer: estarei sempre
perto, ao lado, para compartilhar todas as provaes. No a deixarei na adversidade. Ns no a deixaremos. A senhora tem amigos fiis e reconhecidos.
Ao ouvir essas palavras a Rainha olhou demoradamente aquela a quem chamava "minha alma" e a quem, como tal, amava. Fixando-a com desesperada intensidade, disse-lhe:
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- No exagero o dio. Ao contrrio, creio que no percebo sua verdadeira intensidade. Mas estou certa de uma coisa: arrastei-a comigo. Por minha culpa o povo quer
sua morte. Os franceses pedem sua cabea. Na verdade, eis o que quero lhe dizer desde o incio: uma coisa horrvel se passou. Uma mulher foi apunhalada na carruagem.
Por engano. Os criminosos confundiram-na com a senhora. Estamos cercadas, a senhora e eu. Nossas imagens foram queimadas em Paris. Agora no se contentaro mais
com imagens. Querem pessoas de verdade, querem-nos em carne e osso. Por isso, querida Gabrielle, para sua salvao, peo com a alma dilacerada: deixe a Frana, parta
imediatamente. O que no posso eu fazer, faa-o a senhora. Fuja com sua filha, com Diane. Se no partir, ser massacrada. Juntamente com a famlia. Mas primeiramente
a senhora, talvez apenas a senhora...  preciso tomar a dianteira sobre a violncia que se vai abater sobre todos ns.
A Rainha falou com prudncia e emoo. Ela lanara a proposta, que sabia inaceitvel, e esperou para combater os argumentos da amiga.
Entretanto, Gabrielle ouviu sem a menor perturbao. Em vez de protestar, abraou de imediato a idia. Estava de acordo, deviam partir. Era uma deciso dolorosa
mas sbia. Seria, de qualquer maneira, uma partida provisria, logo estariam de volta...
A Rainha estremeceu. Palavras assim to calmas, to desapaixonadas aterrorizaram-na. Gabrielle percebeu os tremores dos lbios de Maria Antonieta. Constrangida,
desviou o olhar. O silncio, pesado, tornou-se intolervel. Apenas para dissip-lo, acrescentou palavras que lhe pareceram andinas, mas que magoaram profundamente
a Rainha. Enfim, sem tirar os olhos da ponta dos ps cobertos por sapatilhas bordadas, enumerou, num flego s, tudo que precisavam para partir, carruagens, passaportes,
letras de cmbio. Nomes, nmeros so precisos. Tudo estava previsto. Uma vez transmitida a mensagem, Gabrielle ergueu os olhos. A Rainha tinha ainda a boca aberta,
os lbios, descontrolados, tremiam. Tinha o ar suplicante de uma mulher espancada. Gabrielle
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ia acrescentar algo. A Rainha fez sinal para que no continuasse. Levantou-se para sair. Gabrielle seguiu-a, gemendo, mas parou quando a Rainha tomou-a pela
cintura e encostou a cabea em seu ombro. A Rainha, mais vez, estava belssima. Gabrielle suplicou:
- No deixe que eu a abandone.
- J est feito - disse tranqilamente a Rainha. - J est feito, j me abandonou.
Diferentemente da senhora Campan, eu no conseguia estar num mesmo cmodo com a Rainha e me sentir transparente ou inexistente. Por isso, sentia-me terrivelmente
perturbada pela cena e cada vez mais incapacitada para fazer outra coisa que no escutar. Aquela situao era insustentvel, e eu apenas esperava o momento de poder
ir embora, no ouvir mais, no ver mais. A duquesa de Polignac se retirou. Sua reverncia me pareceu menos ligeira do que quando chegou, mas talvez fosse uma iluso...
A Rainha chorava. Como choram as crianas diante da brutalidade de uma dor absoluta. Estava inteiramente entregue  infelicidade. A senhora Campan trouxe-lhe os
sais e ps-se a cuidar dela. Eu no sabia o que fazer. Para parecer ocupada, pus-me a empurrar, com toda a lentido, uma arca. Avanava a passos de formiga. No
tirava os olhos da senhora Campan, que procurava tranqilizar a Rainha, consol-la. Com um sobressalto, a Rainha ergueu-se, segurou a taa de jade e lanou-a contra
um espelho. O quarto inteiro encheu-se de estilhaos de vidro. Restou-nos apenas varr-los, tomando todo o cuidado, a senhora Campan e eu, para no nos cortar. Ela
reclamou: "Ai, ai, ai, que dia! Varrer nunca fez parte de minhas tarefas, no que eu saiba".
Se no fosse pela presena da senhora Campan eu pensaria ter sonhado essa cena entre a Rainha e Gabrielle de Polignac... Como esta outra cena, que acontecera meses,
anos antes? Foi no Petit Trianon, no salo de msica do andar trreo; havia tambm uma testemunha comigo, o baro de Besenval. Ambos emudecidos, no
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arriscvamos qualquer movimento. Gabrielle de Polignac estava deitada sobre a Rainha. Apoiava-se nos dois braos, fincados no cho. A Rainha se debatia sob o corpo
da amiga. Tentava tir-la da posio vitoriosa.
- Diga - dizia Gabrielle, resfolegante. - Diga: "A senhora ganhou, a senhora  mais forte".
- Nunca. Nunca direi tal falsidade. Foi pura crueldade. A senhora emprega meios desonestos...
E foi tomada por um riso que impedia qualquer defesa. Mas Gabrielle, por sua vez, deixou-se contagiar pelo riso e relaxou a posio. A Rainha soltou uma das mos
e conseguiu inverter a situao.
O baro de Besenval observava sem rir. Talvez a conscincia daquela presena masculina atenta, silenciosa, as tenha feito cessar a brincadeira.
A Rainha levantou-se, repentinamente grave, e disse:
- A senhora, no entanto,  mais forte. Admito.
- No quero sua piedade - respondeu Gabrielle languidamente. - Que Vossa Majestade me poupe de sua magnanimidade.
- Magnanimidade - repetiu a Rainha com aplicao, como se descobrisse uma nova palavra.
Ficaram srias e deixaram o salo sem sequer se voltar para ns. O baro de Besenval morria de vontade de segui-las. Deu alguns passos naquela direo, mas conteve-se.
Voltou-se ento para mim, bem insolente e arrogante: "Pois bem, bela leitora, o que diz?". Queria, foi o que senti, vingar-se do desprezo das duas amigas; eu simplesmente
escapuli.
A senhora  mais forte infelizmente se confirmava. No era tanto a fora de Gabrielle de Polignac que aparecia (ela apenas aceitara, uma vez mais, ser a mandatria
de seu marido e de Diane), mas a incrvel fraqueza da Rainha diante dela: mal os pedidos de Gabrielle se exprimiam sua nica preocupao era satisfaz-los... Eu 
no
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sabia mais em qual direo ir. Estava exausta, desanimada. Honorine, tomada pelo trabalho com a senhora de La Tour du Pin, tornara-se invisvel. Jacob-Nicolas
Moreau devia estar no gabinete de trabalho. Eu, sombriamente, deixava-me levar pelos acontecimentos. Os horrios estavam revirados, mas a etiqueta, bem ou mal, era
respeitada. No entanto, no se podia pressagiar nada de bom.

A MISSA NA CAPELA DO PALCIO (TRS HORAS DA TARDE)

Houve missa aps o almoo. Antes, o Rei havia estado nos Apartamentos da Rainha. Estavam a maqui-la.
Durante a visita do Rei, nada de muito notvel se dera, foi o que me contou a senhora Vacher, uma criada particularmente estimada da Rainha. O Rei anunciara a temperatura
que havia constatado no final da manh. Estava coberto de poeira. Uma teia de aranha se dependurava no colete. Ao sair do Salo de Apoio, subira ao sto. A Rainha
no escondeu a exasperao ao v-lo em semelhante estado. No suportava aquela mania de andar pelo forro do palcio. Detestava o que ela chamava "passeios de prisioneiro".
O Rei gostava disso e de andar pelo prprio telhado do edifcio. Esse era um dos raros momentos em que podia escapar da vigilncia dos cortesos, junto com o tempo
dedicado  caa, aos trabalhos manuais e s refeies. Mas ele preferiu no discutir. A briga esfriou rapidamente. Reconsideraram a questo da partida. O Rei, que
no Conselho fora categrico, perguntou se havia tempo para mudar de idia... A Rainha, no entanto, que havia defendido com tanto vigor seu projeto e tivera tanta
dificuldade para desistir, no queria rediscutir a deciso... As malas tinham sido desfeitas, as roupas de viagem no estavam prontas, no havia nenhuma carruagem
com o tamanho e o conforto necessrios e as pessoas que
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deveriam acompanh-los no haviam sido nomeadas... Partir sem squito, s escondidas... Havia nisso tudo algo de apressado e de improvisado que no causava boa impresso.
No fundo, o Rei concordava... Deviam ficar. Mas ento a Rainha, insegura, pensou em voz alta que partir talvez fosse a nica salvao... O Rei, afinal, colocou uma
questo:
- A seu ver, senhora, o que significa isto? Soube pelo senhor de Noailles, que me confiou a informao quando me deitava, que o povo no quer apenas po, quer tambm
o poder. Confesso que tal insanidade muito me confunde. Sempre acreditei que o poder fosse um pacote herdado de deveres e de responsabilidades, um peso que aceitamos
por humildade e por respeito, submissos quele que nos designou. Uma espcie de maldio disfarada sob manto de arminho. Estou enganado? Pode-se desejar o poder?
Na missa, observei uma excessiva languidez nos movimentos e at mesmo nas oraes. As pessoas, alis em pequeno nmero, pareciam extenuadas. O Rei e a Rainha mostraram
uma contrio e uma dignidade exemplares. Tambm Monsieur, mas o conde de Artois estava disperso. Era bem de seu feitio. Celebrou-se so Camilo de Lellis, a quem
o Rei estimava dada uma particular devoo de suas tias. Fundador da Ordem dos Padres da Boa Morte, Camilo de Lellis tornara-se, no correr dos anos, o santo mais
venerado pelas duas idosas senhoras. Elas possuam, em saquinhos, um pouco de poeira tirada de pedras da cela do religioso. Nunca a tinham sequer tocado e s o fariam
se estivessem realmente muito doentes. Poderiam, quem sabe, faz-lo naquele dia, pois as filhas de Lus XV demonstravam extrema fadiga. No conseguiam mais dormir.
Queixavam-se de estar rodeadas de conspiradores e at mesmo de ouvirem falatrios antimonarquistas vindos dos quartos do entressolho, bem acima de seus aposentos,
que ficavam no trreo. Segundo a senhora Adelaide, isso as colocava na linha de frente. "Eles" precisavam apenas quebrar umas vidraas e para ter acesso a elas...
Mas, na prtica, onde estavam "eles"? A frgil confiana que eu sentira pela manh havia
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se esvado. Mendigos, arruaceiros, dementes se aproximavam em bandos, isso era certo. Seu exrcito no cessava de crescer com novos recrutas. Mulheres e crianas
aderiam. Haviam pilhado o Arsenal e o Palcio dos Invlidos. No lhes faltavam armas. E nem dio. As mulheres da feira do Halle vinham na frente, de faca na mo.
Novamente cantou-se Plaudite regem manibus. Ningum aplaudiu.

O ALMOO DO REI, SEU TRMINO TO BRUSCO QUANTO DESASTROSO (QUATRO HORAS DA TARDE)

O almoo foi servido com um atraso considervel. O cortejo das carnes do Rei esperava na escada h pelo menos duas horas. Eu morria de fome e no era a nica na
mesma situao. Mas em vez de corrermos para nos restaurar, pelo menos uns vinte de ns, que assistamos  missa, preferimos assistir ao Repasto do Rei. Isso no
fazia parte da etiqueta. Primeiro porque, normalmente, algumas das pessoas presentes no seriam admitidas quela cerimnia; alm do mais, estvamos em uma quinta-feira,
dia de Pequeno Servio. No havia nenhuma razo para ficar, como fizemos, obstinadamente alinhados  frente da mesa retangular toda coberta de branco em que o Rei
e a Rainha se instalaram. Nenhuma razo a no ser - e falo por mim apenas,  claro - por uma espcie de superstio, de comportamento infantil e louco: desde que
soubera que a Rainha estava decidida a fugir, assim que no a percebia no horizonte, receava t-la perdido para sempre. Enquanto a via, mesmo no estando totalmente
tranqila, a inquietude era suportvel. Talvez o mesmo se passasse com o restante daqueles pobres espectadores. Como eu, sentiam o mundo desabar. Ver o Rei ou a
Rainha era reconfortante. Sem dvida por terem sentido isso, nem o Rei nem a Rainha pediram que os deixssemos em paz. O Rei poderia nos dizer: "Senhoras e senhores,
passem", mas absteve-se.
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De qualquer maneira, nesse jantar a etiqueta sofreria maiores abalos. Nossa presena ali no foi o pior...
Tudo comeou bem. O Rei e a Rainha sentaram-se lado a lado, na bela sala azul e dourada em que a mesa fora servida. O Capelo ordinrio, padre Cornu de la Balivire,
benzeu a mesa e Suas Majestades fizeram o sinal-da-cruz. Em seguida, apresentaram-lhes uma toalha mida e perfumada, na qual limparam as mos. Cessou a a participao
da Rainha. Ela no tocou no copo de gua que tinha diante de si e no fez meno de sequer precisar de um prato. Como no pediu nada, o criado se manteve totalmente
imvel atrs de sua poltrona, o que tornou ainda mais visvel sua prpria imobilidade. Triste, com os olhos baixos, ela esperou, resignada, que o apetite do Rei
se satisfizesse. Sabia que isso levaria algum tempo. Para ele, era o incio de uma festa da devorao. "O apetite de Sua Majestade merece passar  posteridade" era
uma das frases que circulava em Versalhes. E enquanto no acontecia nada do lado da Rainha, do lado do Rei uma intensa movimentao se iniciava. Apesar de um grande
nmero de criados do palcio ter desaparecido, os da Boca do Rei haviam permanecido fiis. Por isso  que, de incio, tudo me pareceu em ordem. O atraso no acarretara
qualquer desorganizao. A cerimnia do Repasto, sempre grandiosa, prometia mais uma vez no decepcionar. Ao que parecia, o Rei comera estufados de vitela e costeletas
no desjejum, engolidos na obscuridade da aurora, na pressa pesadelar provocada pela reunio do Conselho. Inquieto e ruminando o dilema "Devo partir ou ficar?" ele
reclamara: "Estufados de vitela e costeletas, isso  muito pouco, preparem-me ovos na mostarda". Seis, achou melhor precisar. E uma garrafa e meia de vinho da Borgonha.
Mas isso j passara. As horas difceis e as duras emoes haviam aberto seu apetite. Bandejas, carrinhos, mesas inteiras cobertas de pratos se revezavam. O Rei devorava
tudo. Entradas, pratos de carne e de peixe, edifcios de legumes. Primeiro, segundo, terceiro servio. Carne de vaca malpassada, canja de galinha, picado de caa
 turca, faiso-d'gua, fgado de raia, fricass de
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cervo, lngua de lebre, chourio de carneiro, galinhas gordas, galetos, frangos  vestal, bolinhos fritos de alho-por, de
couve-flor, oceanos de petit-pois.
Ele comia, bebia e calava. S falava para pedir um pouco mais de pombo, de enguia e de aranha-do-mar, de caranguejos, de cabea de porco e de patas de peru. Depois
de um tempo, no pedia mais nada; zonzo, com o colete e o palet desabotoados, apenas apontava montinhos tremelicantes de gelatinas verdes e brancas, manjar branco
e fios de ovos, conglomerados de ovas de peixe e orelhas de coelho de todo tipo. Cerimnia impecvel, satisfao plena, mas l pelo final, chegado o momento das
musses e dos docinhos, deu-se um incidente. Houve uma inexplicvel espera. Ningum veio retirar os pratos. Aps um longo momento, o Rei achou melhor que o Chefe
Ordinrio das Bebidas fosse se informar. Ele no mais voltou. O Rei enviou o GuardaLoua das Bebidas, acompanhado do Oficial da Boca e das Bebidas. Tambm eles no
voltaram. Com o rosto roxo, o Rei disse algo  Rainha, que mal respondeu. De repente, como um meteoro, apareceu em desabalada carreira uma criatura desalinhada,
toda salpicada de fuligem. Estava coberta apenas por uma saia suja e um avental que deixava os seios  mostra. A mim pareceu algum que tivesse escapado de uma dessas
danas do fogo, que, atiadas por feiticeiras, ignoram o socorro da Religio e atravessam as pocas com gritos, saltos, correrias, disparadas. Ela irrompeu em linha
reta, trazendo uma bandeja imunda na ponta dos dedos; a boca desdentada se escancarava at as orelhas, num ricto perverso. Aproximou-se do Rei, que aguardava rodeado
de todos os pratos, entre os quais sobressaa um enorme osso rodo, uma cabea de coelho, uma pirmide afundada de sufl de aipo, algumas cascas de siris, umas coroas
de salmonetes e um monte de peles e gorduras... Colocou  frente um prato de ferro em que estava arranjada uma espcie de crista, sob a qual havia um tapete de cascas
de ma previamente banhadas em cinzas, amarrados de plos e um rato morto. Ela explodiu de rir e desapareceu. Houve um burburinho na pequena assistncia. Mas ningum
ousou se mover. O Rei,
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depois de examinar por vrios segundos o horror que fechava seu cardpio, levantou-se. Com dificuldade, mas levantou-se.
Como fez pela manh ao sair do Conselho, mas com passos bem mais inseguros, dirigiu-se ao Salo de Apoio, no intuito de se informar da temperatura. O caderno estava
aberto no lugar. Mas o criado encarregado da inscrio dos nmeros no se encontrava mais. Permanecia o grande termmetro de cristal, suspenso em uma janela. O Rei
inclinou-se para l-lo. Teve dvidas quanto a anotar ele prprio a temperatura no caderno. No o fez.
A Rainha sara na direo de seus aposentos. Foi o que pensei, mas na realidade ela se encaminhara para os de Gabrielle de Polignac.
Em cmodo algum as flores haviam sido trocadas. Disseram-me que sequer nos Apartamentos da Rainha.

FUI TOMADA PELO PNICO (SEIS HORAS DA TARDE)

Eram muitos sinais funestos se acumulando. Notei tambm uma singular agitao no palcio, mas no dei ateno. s seis horas da tarde normalmente todos se recolhiam
s suas habitaes, jogavam, tocavam msica, liam e, sobretudo, preparavam-se para a noite. Era a hora em que os atavios passavam entre as mos das elegantes, em
que comeavam, num ritmo apressado que no se acalmaria at a meia-noite ou mesmo mais tarde, as visitas de uma famlia a outra, de um aposento ou de um bloco a
outro. Para mim, era a hora prosaica de procurar o que comer e de ver se Honorine estava disponvel. Queria contar a ela tudo que tinha visto: sobretudo o episdio
da sobremesa repulsiva me impressionara.
Honorine estava disponvel e pde, inclusive, convidar-me para jantar. O aposento do senhor e da senhora de La Tour du Pin tinha esta raridade: uma cozinha ampla
e vrios fornos. Uma vez alimentada, quis confiar  amiga minhas ltimas descobertas, mas
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nada pude contar. Pareceu-me indiscreto falar da entrevista da Rainha com Gabrielle de Polignac. Quanto  concluso do Almoo do Rei, tive medo de, ao contar,
propagar o malefcio. Assim, foi ela que me deu as ltimas notcias de Paris. Retomamos a tapearia inacabada. Nuanas de verde para os musgos, os fetos, as altas
matas, e branco e marrom para um veado  beira de um laguinho. Bordar tem efeitos calmantes para mim:  o equivalente diurno da recitao de listas. No entanto,
depois do que Honorine me contou o remdio no funcionou. A vitria levou os parisienses a delrios. Tinham matado os guardas suos da Bastilha e, na agitao,
at alguns prisioneiros. Subverteram o exrcito, despavimentaram a cidade, procuravam armas em todo lugar, fabricaram bombas, atearam fogo ao Faubourg Saint-Germain.
Andavam por sobre as muralhas da cidade, berrando canes assassinas. O prncipe de Lambesc, expulso por esses furiosos, viera para Versalhes com seus oficiais.
Piquei um dedo e abandonei a tapearia. Ergui os olhos para o parque e vislumbrei uma imagem perfeitamente atemporal: vi passar, precedido por dois acompanhantes,
o velho e paraltico duque de Reybaud. Todos os dias,  mesma hora, quando o tempo permitia, ele era levado ao Bosque do Salo de Baile. Para todos os efeitos, o
senhor de Reybaud podia ser considerado um semimorto. No fundo das retinas destrudas s aparecia um brilho de vida quando podia contemplar aquela obra prima de
L Ntre. O que ele tanto admirava naquele bosque? A claridade da gua nas pedras, o frescor da fonte, alguma lembrana do passado? Estava acompanhado da mulher,
muito moa, e de uma das filhas de um casamento anterior, bem mais velha. Fiquei aturdida.
- Olhe - disse a Honorine -, olhe, ali, perto dos Cem Degraus, o senhor duque de Reybaud. Ele ignora todos os acontecimentos calamitosos. Cumpre o passeio de todos
os dias e de toda a eternidade.  o mais feliz de ns todos.
- Talvez - respondeu minha amiga. Ela continuava a trabalhar na tapearia. - Mas ignorar a existncia de uma coisa no
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faz a coisa deixar de existir. Em Paris, o povo tomou a Bastilha. Est armado. Nada mais o pode parar. Em Versalhes, a Assemblia Nacional obteve duas vitrias sobre
o Rei. Lus XVI dispensou o exrcito e despediu os ministros. No sei o que se trama no palcio. Segundo a senhora de La Tour du Pin, nada de bom. O medo da ltima
noite apenas piorara. No temos aqui nenhuma voz de comando para levantar o nimo. O senhor de La Tour du Pin est disposto a no abandonar o palcio e a lutar,
mas so poucos, receio, os que tm a mesma determinao.
L fora, o alquebrado cortejo prosseguia. Em um ritmo prprio. Sem pressa. Para qu, alis? Conheciam de cor seu destino. O Bosque do Salo de Baile estaria sempre
ali para acolh-los. Vazio para as duas mulheres e para os criados, mas efervescente, animado de msicas e festas para o velhote, que s se locomovia em suas lembranas...
Honorine no me convencera. Eu me mantinha partidria da vontade de ignorar. No falemos mais, no pensemos mais, isso me parecia suficiente para abolir uma fonte
de perturbao... Pensei em alguns temas, meu olhar vadiou pelo cimo das rvores, pelo terrao da Orangerie... Mas... ali estava, de volta, a criatura desalinhada,
com o cabelo vermelho e os braos estirados  frente. Mal encostava no cho. Oficiara o transtorno nas cozinhas e agora perambulava pelos jardins. Enveredou na direo
do cortejo do velho duque, mas desviou antes de chegar.
-  isso! Honorine, ela  o Pnico!
Tarde demais para mim. Estava sob seu jugo. Avanava  velocidade do desastre, com o cabelo embebido em sangue e a carne obscena, ainda mais obscena por causa das
vestes em farrapos farrapos de cena de teatro. Desembocou no terrao, projetou-se entre os patamares do canteiro aqutico, enviesou ao longo da Orangerie, em direo
 piscina dos suos, subiu at a fonte de Latona, que, fulminante e punitiva, virava as costas para o palcio, sem nunca deixar de clamar pela clera dos Deuses.
De Latona, o Pnico desceu pelo Salo da Colunada at  piscina do Carro de Apoio, girou sobre de si mesmo e, com a velocidade redobrada pela decepo de
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encontrar o espao deserto de seres humanos, arremeteu na direo norte, varrendo tudo com seu bafo poderoso, reconhecendo vagamente a fonte de Enclado, os
amores da Ilha bem-aventurada, o amplo lago, de Netuno, escavado para as horas mais clementes do dia. No se interrompeu; furioso, voltou ao terrao para tomar posse
do palcio. Dessa vez, no se contentaria apenas com as cozinhas...
O Pnico investia s cegas, sem olhar para trs, sem sequer gozar dos frutos da tempestade que provocava. Assim, no viu o terror do velhote abandonado no alto da
escadaria. Aos primeiros deslocamentos de ar, os criados fugiram. Um deles quase foi atropelado por um carro que vinha a galope. A mulher do duque, quase to rpida
quanto os dois gaiatos, ergueu o vestido at o meio das coxas e alcanou em poucas passadas a esttua do Menino e a Esfinge. A filha tambm o abandonou, mas, reumtica
e encanecida, capengava mais atrasada. O Pnico no perdia tempo. Ele reina em um buraco do tempo em que precipita tudo que fisga.
Logo compreendeu. No havia ningum no parque. Precisava voltar ao palcio para agir. L as vtimas se contavam s dezenas, s centenas, todas fceis. Eu fui a primeira
a me entregar. O cabelo nojento de sangue me tocou. No fez uma mancha, nem mesmo uma marca, mas no tecido fino demais de minha saia de vero apareceu um ponto vermelho,
como um defeito de fabricao, como um fio estranho na trama.
Esqueci Honorine e suas palavras sensatas. Pus-me a correr sem direo, a subir e a descer escadas. Voltei por onde tinha vindo, abri bruscamente uma porta. No
sabia mais onde estava. Queria ser de vidro e me partir. Queria ser o vaso que a Rainha espatifara. Ser reduzida a nada.
Nas horas seguintes, s percebi o Pnico por seus estragos. Cessara de se manifestar "em pessoa". Diante de mim, pelo menos. Pois Versalhes era to vasto que no
era difcil supor outros campos de ao. O que no tinha dvida  que atacava em conluio com o povo rebelado.
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Estava do lado deles e contra ns: naquele momento, era nisso que eu acreditava; depois entendi que o Pnico agia, igualmente, nos dois lados; mas era impossvel
para mim, naquele lugar fechado e indefeso, naquela ratoeira que era Versalhes, chegar a tal concluso... Eu no conseguia conceber a idia, infernal e incrvel,
de um povo forte o bastante para ousar atacar e conquistar a Bastilha (recentemente o conde de Sgur escreveu a esse respeito: "Aquela loucura em que me custa crer
mesmo agora, enquanto a narro"). Trata-se de um acontecimento natural. Os parisienses se armaram, a cidadela estava mal protegida, tomaram-na de assalto. Eram mais
numerosos, tinham muitos fuzis e canhes para vencer, repetia para mim mesma. Era lgico, embora doloroso. Esse raciocnio no surtiu efeito. Eu os vi lanar um
desafio ao cu e o cu desabou no fragor de trovo da queda das torres da Bastilha. O povo tinha tomado de assalto o cu. E o cu cara. Dizia-se que, desde 14 de
julho, demoliam a Bastilha noite e dia. Maldito canteiro de obras! As pessoas punham as pedras nas costas e iam vend-las no interior do pas! Vendedores ambulantes
do cu desabado. Diziam vender as provas do feito! Para mim, essas notcias eram francamente inimaginveis. Tentava pensar em qualquer outra coisa para me distrair,
mas voltava a elas. S pensava nelas... e no pensava em nada. Era um outro modo de agir do Pnico. No apenas colocava as pessoas em fuga, mas confrontava-as com
algo em que no conseguiam pensar, substituindo a inteligncia por um turbilho...
Eu ia e vinha, quase enlouquecida. No reconhecia lugares nem pessoas. Falava com os rostos pintados em quadros nas paredes. s vezes ria e escondia os olhos com
as mos. Falava em voz alta. Mas o Pnico afrouxou as garras. Uma fora mais poderosa interveio.
A vida na corte e a constncia de minha preocupao com a Rainha haviam desenvolvido em mim, junto com a arte de nunca perder uma ocasio para contempl-la, a misteriosa
capacidade de perceber sua presena bem antes de avist-la. De repente eu sabia
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que ela estava por perto, que iria surgir. Como acontecia? Como sabia? Que capacidade era essa? Eu sentia um calor brusco, uma fraqueza agradvel, meu corao
batia rpido. As pessoas ao meu redor se misturavam, recuavam. Tornavam-se um fundo vago e indistinto sobre o qual, de repente (pois os sinais precursores de sua
chegada em nada diminuam o inopinado de sua apario), ela se destacava.
Foi assim, de forma mgica, que ela surgiu ali.
Eu estava no trreo, em um corredor no qual desembocavam vrios aposentos ocupados por seus amigos. Vi a Rainha de costas. Estava sozinha, com um castial na mo,
parada diante de uma porta. Pedia que lhe abrissem. Aps uma certa espera, tentou outros amigos. Diante de cada porta, era acolhida pelo mesmo silncio. Ento perdeu
a pacincia, indignou-se, lanou imprecaes. Sua voz se abrandou quando, ao sacudir uma porta, constatou que ela estava trancada com um cadeado. As outras tambm.
Cadeados colocados s pressas em quase todas as portas brancas e douradas do corredor, como em casinhas de jardineiro.
Eu conhecia na Rainha duas maneiras de andar: a oficial, lenta, estudada e que a engrandecia; e a outra, ntima, vivaz, harmnica e com um ligeiro balano de quadril
que dava vontade de cantar. J aquele andar pesado, os ombros cados, a hesitao, uma espcie de aparvalhamento que lhe tolhia os movimentos eu no conhecia. O
andar da infelicidade. Da descoberta de que sua infelicidade aumentara um grau. Acreditara poder contar com os amigos, que eles a ajudariam a suportar a distncia
de Gabrielle de Polignac, mas eles no responderam. Pela primeira vez, os papis se inverteram. Ela lhes pedia algo. Ela precisava dos amigos.
A Rainha ignorava o avesso da obscuridade daqueles corredores, daqueles sales, daqueles gabinetes. Nunca antes tivera diante de si uma porta fechada. Sequer precisara
abrir ou mesmo tocar em uma porta. Havia algo errtico e desvairado em suas maneiras quando
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voltou para os Apartamentos Reais. Tambm parecia no saber exatamente onde se encontrava. Apressava-se, mas, em certos momentos, parava. Como se temesse que uma
ameaa, bem prxima, a espreitasse. Perambulou inutilmente, sem conseguir despist-la. Acabava de entrar no Salo da Guerra. Ergueu bem alto o castial, precavidamente
iluminou um canto, atrs de um biombo. Poderia ir ter com o Rei e pedir-lhe proteo. Mas fez o inverso. Virou-lhe as costas. Nesse instante, uma corrente de ar
apagou-lhe a vela. Ficou imvel, paralisada, defronte  soleira intransponvel da imensa Galeria. No havia mais guarda algum para anunciar A Rainha. Corteso algum
que se comovesse. Sua presena no produzia nenhum efeito. Tudo estava suspenso  espera do gesto que ela no conseguia fazer. Deu um passo, recuou. Estava aterrorizada
diante do abismo de sombras. Devia saltar. Decidiu avanar sozinha por entre os espelhos sem imagens.
Ouo o roar de seu vestido sobre o piso, vejo seus dedos, cobertos de anis, entreabrindo as duas folhas das altas portas. Sinto sua respirao, que dispara. Em
frente, ondulante, tentadora e prfida como uma superfcie lquida cuja opacidade dissimula abismos, estende-se a Galeria dos Espelhos.
Ela no sabe mais andar. Sozinha, no sabe andar.
Penso: Ela no o far. No ter coragem. E a Rainha, em minha perturbao, junta-se ao paraltico, o velho duque de Reybaud, esquecido em sua cadeira.
Fecho os olhos.
Choro por ela, por todos eles.
Estamos perdidos. Meu amigo tinha razo. Tudo estava perdido, no havia volta.
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NOITE 

O REI INCUMBE O HISTORIGRAFO DA FRANA DE UMA MISSO SAGRADA: REDIGIR UMA "CARTA PASTORAL" (SETE HORAS DA NOITE)

- A Rainha est s - eu disse, entrando no gabinete de Jacob Nicolas Moreau.
-  o apangio da grandeza, minha cara. Seu tom surpreendeu-me.
- No me entendeu. Est sozinha diante de portas fechadas. Fere as mos tentando abrir cadeados. Est sozinha na entrada da Grande Galeria.
- Tudo isso  inimaginvel e chocante. E mais coisas inimaginveis e chocantes esto sendo preparadas, sem dvida, prodgios de horror, a menos que...
- O senhor o disse e agora estou convencida: estamos perdidos, entramos na era do castigo.
- Eu o disse, mas talvez haja meio de evitar o pior, de suspender o castigo.
- Pelas armas?
- No, o Rei est disposto a fazer concesses para evitar uma guerra civil.  sua linha de conduta nica. No quer ver os filhos se matarem. Jurou que sangue francs
algum ser derramado por culpa sua. Ele se mantm em oraes. Os espritos esto em ebulio. O povo, seduzido, est fora de si. A verdadeira questo  saber se
ainda h tempo para que volte a si, retorne ao amor de Deus.
- Sem dvida, mas me parece que o senhor encara a questo com uma confiana que lhe faltava ainda h pouco.
- Porque, nesse meio tempo, o Rei honrou-me com uma encomenda. To comovente e caracterstica de sua bela alma que temo, sobretudo, no estar  altura. Mas se eu
for capaz, ao menos em parte, de satisfazer a expectativa de Sua Majestade, os maus espritos podero recuar, e a Revoluo, que, como o nome indica,  um movimento
circular, acabar por nos levar a um tempo de
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obedincia. O povo ficar curado desse estado de combusto, em que deve ser penoso viver e do qual, no fundo, deseja ser libertado. E a nobreza, por sua vez, se
libertar da secura do corao, do cinismo. Atravessamos uma poca de doena da alma, da qual ningum est isento. O retorno  piedade  o nico remdio.
- O Rei j o tinha honrado com uma encomenda especfica, antes da reunio dos Estados Gerais.
- A "Exposio e defesa da Constituio monrquica francesa", em fevereiro ltimo. No fez o sucesso que eu esperava. Ter sido o discurso, ao qual faltou vigor?
Os argumentos que deveriam ter sido mais contundentes? - Neguei-o. - No sei, voltarei a ela quando puder. O que agora me parece claro  que, independentemente de
minhas limitaes como escritor, meu erro maior foi o de me situar em um plano poltico, enquanto o problema  religioso. A poltica  o terreno do inimigo. A f
 o nosso terreno. Devo encontrar as palavras capazes de fazer cessar o estado de incredulidade que tomou conta dos franceses. A dvida ativa e nociva que os devora.
Devo encontrar as palavras que iro abater "a ardileza dos maus", para citar a sublime expresso de Sua Majestade.
- E que escrito  esse? Tem um ttulo? - perguntei timidamente.
- Sua Majestade me encomendou uma "Carta pastoral relativa  instruo para os padres". Ser enviada a todos os bispos do reino, para ser publicada em suas dioceses.
- Que maravilha! Coube, ento, ao senhor mudar o curso da Histria.
O senhor Moreau tremeu de emoo. Pressentia o carter decisivo desse escrito e sabia que todo tipo de mediocridade devia ser excludo. Por essa razo, mesmo tendo
uma natureza pudica, no resistiu ao desejo de ler o incio para mim, pedindo minha opinio. Numa das mos tinha a pluma, na outra, as folhas. Comeou:
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"Instruo pastoral pela qual sero ordenadas oraes pblicas solicitadas por Lus XVI a todos os bispos franceses, no intuito de obter luzes que venham a
esclarecer a Assemblia Nacional e pr fim s perturbaes que j ameaam a Frana".
A leitura do ttulo j me fez tremer. Ouvi-o ressoar no recinto sagrado de uma igreja, proferido do alto do plpito. No tinha a menor dvida de seu poder. Vi a
Frana inteira de joelhos.
- A senhora  excessivamente generosa - gracejou o Historigrafo. Prosseguiu, ainda mais emocionado: "So do vosso conhecimento os atos de rebelio e de banditismo
que se deram na capital. Se tal esprito de sedio vier a se aproximar de vossa diocese ou nela se introduzir, no tenho dvida de que oporeis os obstculos de
vosso zelo, de vossa devoo  Minha Pessoa e, mais ainda,  santa Religio da qual sois Ministro. A manuteno da ordem pblica  uma lei do Evangelho, tanto quanto
lei do Estado; e todo fator de perturbao  igualmente criminoso perante Deus e perante os homens".
Era muito bonito. Bonito e convincente. Eu gostara da "Exposio e defesa da Constituio monrquica francesa", mas a "Instruo pastoral" era incomparvel. Com
aquele texto, naquele momento de crise religiosa e de urgncia nacional, ele atingia o pice do talento. Jacob-Nicolas Moreau se animou. Ia e vinha por entre os
mveis, metia-se pelas estreitas passagens que lhe abriam o pouco espao restante entre as pilhas de livros. A verve de orador no o impedia de tomar cuidado com
as pilhas. Caminhava em um labirinto de colunas de papel, declamando: " importante estar precisamente instrudo quanto aos princpios e aos efeitos da sublevao
parisiense. Esclarecida por vs, deixar de trazer sua sedio e impedir que o povo se torne vtima ou cmplice. A revolta foi incitada por homens estranhos s
parquias, justamente as quais eles vm subverter. Esses homens perversos..."
Parou repentinamente. Precipitou-se para a porta e trancou-a com duas voltas de chave. Permaneceu de costas para a parede, com os braos estendidos.
- Escute-disse-, no ouviu nada?
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Automaticamente eu quis sair para ver o que se passava.
- No saia. So eles. Entraram no palcio.
Ficamos por alguns minutos com a orelha colada na porta. Como estava familiarizada com os barulhos de Versalhes, notei que havia algo diferente.
- Eles puxam canhes?
Jacob-Nicolas Moreau tinha, com cuidado, retirado a chave para espiar pelo buraco da fechadura. O que viu o deixou atnito. Ergueu-se:
- Podemos sair. No h perigo.
De fato, nada havia a temer do bando envergonhado que, tentando ser o mais discreto possvel, fazia exatamente o contrrio. Os cortesos se mudavam. E era notria
sua falta de costume. Na verdade, no se poderia imaginar pessoas mais desastradas, inbeis, aberrantes a carregar mveis e bagagens, pacotes escancarados, mal amarrados.
Deixavam Versalhes s pressas; para alguns, que escapavam de mos vazias, havia uma s idia: encilhar um cavalo, fugir para o estrangeiro. Com certeza, a maioria
reproduzia, de forma abrandada, a indeciso do Rei. Queriam partir logo e despercebidos, mas desanimava-os viajar sem suas coisas. Talvez pensassem tambm que, uma
vez l, no desconhecido em que se lanavam, sentiriam no poder vender a mesinha de pau-rosa, a estatueta de mrmore, o porta-sombrinhas em porcelana de Svres,
o relgio incrustado de safiras que tinham  mo at o momento em que, para sair mais rpido ou porque o quebraram ao passar pelo umbral, haviam-no deixado para
trs. No sem lament-lo. Alis, alguns voltavam para buscar o objeto abandonado, muitas vezes um presente do Rei ou da Rainha. Sobejavam disputas, reclamaes.
Como no havia crianas em Versalhes, os cortesos partiam sem elas, confiantes de que as amas contratadas continuariam a cuidar de seus filhos. Ou ento esqueciam
completamente deles. Transformados em feras, pois acreditavam sentir na garganta a mo dos revoltosos para pendur-los no poste, alguns sequer lembravam ter, um
dia, procriado.
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Uma senhora andava lentamente. O marido passou-lhe  frente.
Inspirada por uma lembrana, pousou no cho a caixa de chapu que carregava e perguntou:
- E o que faremos com Henriette?
- Qual Henriette, senhora condessa?
- Nossa filha, senhor conde.
- Por favor, no vamos misturar todos os problemas. Este  iminente. O povo  uma ameaa tangvel. Os desordeiros esto perto. Querem nos matar. Vo nos matar. Nossos
nomes esto na lista. Talvez amanh, no mais tardar, nada mais sobrar de Versalhes seno runas e um amontoado de cadveres:  o que restar da ltima corte de
Frana. Consegue entender isso, senhora? - O tom era grandiloqente e muito alto, como se falasse com a esposa da outra extremidade da sala de seu palcio feudal.
-  este o destino que deseja? Morrer aqui? Fique  vontade, no a obrigo a me seguir, mas no procure me atrasar com perguntas inteis. Poderia ainda lembrar que
Henriette no  filha nica. A senhora  bem negligente com Aquiles, Modesto, Solstnia e Benedita.
A dama abandonou a caixa junto  parede, bem perto de meus ps. Livre da bagagem e das preocupaes maternas, pde seguir o ritmo apressado do marido.
O problema estava no acmulo de sacos, bas, caixas e trouxas, que muito rapidamente atravancaram a passagem.
Foi das pessoas que partiam com bagagens que guardei a mais viva lembrana. Pela mistura de pressa e embarao, pela descompostura, at comovente, que se mostrava
sem disfarces. Por sua prpria maneira de fugir, elas transgrediam. Estava a, provavelmente, a origem de sua vergonha: no a fuga em si, mas o fato de precisar
fugir nessas condies. Sem um traje de viagem apropriado, como se preocupara a Rainha, algumas horas antes. Muitos, no entanto, ainda mais alvoroados pelo sentimento
de urgncia, partiam de mos vazias. Viam a vida pender por um fio, e pensavam que, se atrasassem a partida, morreriam vtimas de um massacre coletivo. Foi neste
momento, acho, que um ltimo
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boato nos atingiu: dizia-se que os subterrneos de Versalhes estavam carregados de explosivos. O palcio inteiro iria pelos ares a qualquer momento. Nos dias precedentes,
o mesmo terror assolara os parisienses: estavam persuadidos de que monarquistas tinham espalhado bombas e que Paris explodiria. O Pnico voltou a me invadir.
- Minha cara, no se desespere. Se estivermos prestes a ser assim destrudos, j  tarde para prevenir. Estaremos mortos em alguns segundos. Ou j estamos. Deixemos
de lado os boatos e voltemos a meu aposento. Vou continuar a ler a "Instruo pastoral".
- Alguns partem sem bagagem, sem mudas de roupa, sem o mnimo necessrio. Certamente tm a inteno de retornar em alguns dias. Talvez por isso no carreguem nada?
- Como posso responder? Como saber? Talvez seja isso... Logo os veremos de volta, estes que escapam do furor dos sediciosos. Quanto aos outros... Quanto  ns, de
nada serve nos expormos por mais tempo ao tropel do bando. Corremos o risco de um empurro de mau jeito, e, de qualquer forma, esta cena j nos ensinou bastante
sobre a natureza humana.
Nesse exato momento, como para oferecer uma prova suplementar, testemunhamos um homem arrancar da parede um quadro pequeno: Natureza-morta com aspargos. Jacob-Nicolas
Moreau no se conteve.
- Senhor Moreau - respondeu o culpado com seu tom mais arrogante -, o senhor  um escritor honesto, um sbio respeitvel, um bibliotecrio notvel, um moralizador
fora de srie, mas estou me lixando para o senhor. Poder mencionar isso em suas notinhas, para a posteridade.
Gostaria de ter tomado a defesa do insultado; ele mesmo me dissuadiu. "Pode deixar, estou acostumado. Em geral, minhas iniciativas colhem sarcasmos e desdm." Em
seguida, aps um tempo: "O infeliz no mencionou minhas qualidades como Historiografia!"
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Os fugitivos tomavam os caminhos menos expostos. A maioria passava pelos ptios internos, os atalhos, as passagens escondidas. Um antigo preceito de polidez
recomenda: "Quando pretendem ir embora, os visitantes devem faz-lo da forma mais discreta possvel. Evita-se  dona da casa o incmodo dos cumprimentos de despedida.
Para isso, inclusive, so propcios os momentos em que outros chegam". Pois bem, pode-se dizer que, de certa maneira, era exatamente isso o que se passava. Os cortesos
partiam o mais discretamente possvel. Procuravam poupar  dona da casa o constrangimento da despedida. Utilizavam at o artifcio de costume: sumiam encobertos
pelo barulho dos que chegavam. Mas no foi bem por causa da polidez...
O Pnico ignora pausas, no leva em considerao posies sociais e no faz distino entre um "at logo" e um "adeus". Para ele, existem apenas sadas e obstculos.
Pois bem, obstculos imprevistos surgiriam.
O Historigrafo imbuiu-se da fora de quem foi incumbido de uma misso. Sua posio era segura, inexpugnvel (manteve-se sereno e superior aos acontecimentos at
o momento de seu encarceramento na Priso de Rcollets, em Versalhes, em 1793. Por medida de prudncia, pediu ento que a mulher queimasse papis comprometedores.
Assustada, ela jogou ao fogo todos os manuscritos, inclusive o dirio). Sua calma me exclua. Sem nenhuma dureza. Mas eu me sentia incapaz de me colocar na mesma
altura e manter o mesmo nvel de certeza e de resoluo. Eu podia rezar s escondidas, pedir socorro... A voz de Deus no ecoava em mim, certamente pelo motivo sagrado
de ter de ir mais alm, ao corao mesmo da Frana. Confesso que mal podia ouvi-la. Na balbrdia daquelas horas, no reconhecia mais nada de meu universo. Meros
detalhes me ofuscavam. Fragmentos que no conseguia inserir em um conjunto. Estava
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ou prxima ou afastada demais. Seria pelo fato de ter vivido constantemente entre os livros ou naquele paraso de ouro e de flores que era Versalhes? Nas bibliotecas
do palcio nada vinha romper o alinhamento dos livros, as prprias portas davam a impresso de fazer parte da biblioteca. A clausura fora rompida.
Eu via e revia a Rainha batendo  porta dos amigos. Chama-os. Percebe, em seguida, que as portas estavam trancadas com cadeados. Titubeia, prestes a desmaiar. Tenta
agarrar-se aos cadeados. Fere as mos... Os dedos cheios de anis, as mos que afastam as duas folhas da porta da Grande Galeria esto arranhadas.
H nela um fulgor, algo que no se apaga. "A senhora se refere  sua bondade", resume o prncipe de Ligne, quando emprego frases assim to vagas.

Eles fugiram. Mal perderam tempo trancando a bagagem. Deixaram tudo para trs. Tudo e nada. Os cmodos exguos que tanto disputaram no passavam de um local para
troca de roupa. Quatro vezes ao dia. Sem perceber, viram-se sob o teto de um rei vencido, do lado do partido arruinado. Urgia pr entre si e essa derrota a maior
distncia possvel. No naufragar na catstrofe. Desertaram sem qualquer considerao pelos hospedeiros. Mas no foi to fcil assim. Alguns, talvez, estivessem
mais divididos do que pareciam.
Como aquele homem com trajes de montaria e uma sacola na mo, que, passando pelo Quarto do Rei, no deixou de fazer uma genuflexo diante do leito de Sua Majestade.
Exceto pela progresso das frases da Instruo pastoral, a desordem geral aumentava. O barulho se ampliava. O caos imperava. Soube que a sacristia da Capela real
servia de acampamento. Ocuparam os confessionrios. Como? O que diz? Um acampamento? Precipitei-me. Mas no precisei chegar  sacristia para compreender que
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novos elementos intervinham. Havia nas entradas, tanto do lado da cidade quanto do lado do jardim, terrveis aglomeraes. Estranhamente, o palcio, que me parecia
significar o perigo mesmo, a armadilha mortal, o lugar que podia explodir de um segundo a outro e que, em todo caso, seria atacado e destrudo, no causava a mesma
impresso a todo mundo. Para mim, Versalhes inteiro representava a fragilidade. H dois dias ramos confrontados com nossa misria. No fundo, foi essa a nica coisa
que nossos olhos puderam confrontar naquela noite insone. A constatao de um pesadelo. Versalhes estava protegido apenas por cortinas, tapearias e biombos. Era
um castelo de cartas que desmoronava em silncio ao primeiro sopro hostil. Ficar eqivalia a morrer. A fuga desenfreada a que eu assistia transmitia claramente essa
mensagem. Pois bem, essa arapuca, essa ratoeira foi de repente invadida por uma multido de indivduos que procuravam refugio "nesse canto", como se do lado de
dentro das grades, no outro mundo que o palcio encarnava, entrassem em um espao inviolvel. Escrevi "multido".  exagero. Sua agitao e sua aparncia energmena
me fizeram pensar serem mais numerosos do que de fato eram. Comparados ao xodo dos "moradores", os refugiados eram minoritrios, mas, na avidez para chegar ao porto
esperado, no ficavam atrs dos que fugiam em matria de loucura. Reconheci, pelo porte e pelas roupas, serem pessoas da nobreza. Em sua maioria, chegavam em famlia,
alguns com criados - fiis ou simplesmente trazidos pela fora do hbito. Passivamente, faziam nmero. Tinham tambm dificuldades de movimentao. Os que chegavam
e os que partiam trombavam uns contra os outros, enfrentavam-se, defensivos, decididos a no ceder um centmetro. Os empurres que vinham de trs abriam espaos
 frente. Sobre o corpo de um infeliz passava ento um grupo de fugitivos ou emergiam alguns refugiados. Estes, uma vez ultrapassado o gargalo, na iluso de estarem
afinal abrigados, ficavam expansivos. Deixavam-se cair em poltronas, que braos solcitos se prontificavam a carregar. Queriam contar suas histrias. E como no
estvamos em poca de
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muitos prembulos, lanavam-se, ferozes, em narrativas sobre palcios em chamas, pilhagens, caa ao homem. O conde de Grisac, deputado da nobreza nos Estados Gerais,
voltava para suas terras no Limousin. Foi reconhecido pelos camponeses quando j tomava o caminho do vilarejo. Erupo de dio! Brandiram os forcados: "Forca! Forca,
senhor conde! Vamos fur-lo, sangr-lo como a um porco! Vamos arrancar sua pele, arrancar seu corao, fazer barquinhas com suas tripas!".
- Fazer barquinhas com suas tripas? Disseram isso? - perguntou, sem se voltar, uma jovem dama coberta por imenso chapu. Debruava-se sobre uma arca de vime que
tentava
fechar com uma coleira de co.
- No pato deles,  claro.
Dois empregados do palcio que atravessavam o salo de braos dados e pisando forte estouraram de rir (fazer barulho ao andar era, presumo, uma das lies das novas
Instrues  criadagem, do protestante irlands Jonathan Swift; mais adiante, alis, pude perceber alguns que, meticulosamente, quebravam uma perna de cada cadeira).
O conde tinha um rosto airoso e olhos saltados. O riso dos criados o ps fora de si; lanou-se, punhos em riste, sobre os grosseires, que o neutralizaram com poucos
golpes. Ele caiu perto da senhora da arca. Como para impor um limite e deixar claro que no compartilhava das desventuras de um conde decado, ela segurou a saia.
O conde, apesar de bem maltratado, ainda no cho, no conseguia parar de falar. Seu rosto no demonstrava qualquer emoo, enquanto a boca continuava a dizer:
- O pequeno Pierrot, filho do meeiro, um garoto que brincava com meus filhos, conseguiu trepar no degrau da carruagem e quebrar uma janela. Eu conheo bem esse Pierrot,
foi ele quem, no dia do meu aniversrio, recitou um poema especialmente inventado para mim pelos camponeses, pois eles so inteligentes, no so todos uns asnos,
absolutamente...
A mulher fechara a arca. Levantou-se e procurou passar pela porta, de novo bem congestionada. Foi tentando empurrar a arca
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com os ps. Diante do resultado, no tentou mais nada e esperou que o fluxo a carregasse. Mas nada mais se movia. De repente, percebeu uma janela. Desgarrou-se
do grupo de postulantes  sada pela porta e pediu-me que a ajudasse a saltar e lhe jogasse a arca. Afastei, para ela, um pano das cortinas cor de mel que protegiam
a janela e ela pulou. Ouviu-se um barulho e alguns gemidos.
Cada um queria contar sua histria, convencer-se de que estava vivo. Assim, descobri que havia pessoas que chegavam de longe, de palcios situados no campo - e que
quase haviam morrido nas chamas ou estripadas pelos camponeses -, mas que muitos vinham de Paris. Ou de mais perto ainda.
Por falar alto, por ser volumosa e estar vermelha de emoo, uma mulher que vinha apenas de Ville-d'Avray e que mal passara perto do perigo conseguiu, mesmo assim,
interessar a todos com sua epopia. Era viva de um coletor de impostos e, desde a morte do marido, no acompanhava os acontecimentos polticos. Assim, quando na
manh de 14 de julho um estafeta veio de Paris, com um bilhete informando que a capital estava em ebulio e uma tropa de sediciosos partira, durante a noite, para
seqestrar a ela e a seu vizinho, o senhor Thierry, Camareiro do Rei, ela ficou espantadssima. O senhor Thierry, a quem era mais verossmil quererem seqestrar,
desapareceu sem pedir muita explicao. Ela se viu sozinha com a filha. Um calvrio! Viveu um calvrio. Estava escrito no papel que queriam seqestr-la e queimar
sua casa. Era preciso agir rpido. Tomou consigo a filha e apenas uma acompanhante, deixando todos os outros empregados na casa. Haviam comeado a enterrar a loua,
mas, afinal, sem conseguir terminar, pediu aos que ficavam que o fizessem ("Imaginem como tero obedecido!"). Um calvrio! Foi um calvrio! Em dinheiro, ela s tinha
cinco mil libras e tambm uma pasta com papis de valor... No era muito para agentar vrios dias; mas seria uma quantia imensa se a perdesse para os ladres. Durante
toda a viagem, foi apenas nos ladres que pensou. Quando chegaram a Versalhes, o suplcio j atingira as raias do suportvel. Onde dormiram? Trs mulheres, uma delas
empregada
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e terrivelmente vesga... Na primeira noite, aquela Jeannon desgraada as havia levado a um pardieiro, e, na seguinte, antes de sumir de vez, a uma arapuca.
Olhem onde estavam metidas! A que lugar as trouxera aquela suja! No barraco em que pernoitaram, tudo era do partido rebelde: as camas de armar, a sujeira, os percevejos.
Olhem, olhem! Ela mostrava o queixo, que no era bonito. Comearam a querer interromp-la. Mas a enxurrada de palavras se imps. Durante o trajeto, cem vezes pensou
morrer. Cada vez que cruzavam um ou dois camponeses juntos ou que um vendedor as cumprimentava com o chapu, tinha certeza de que as iam trucidar. Continuava convencida
disso. Nada lhe tiraria a idia da cabea: queriam mat-la.
- Eles as pouparam, no entanto. A senhora no est morta eu disse, pois no gostava da maneira como, perturbada por seu calvrio, pendurava-se em mim, torcia-me
as mos da mesma forma como se aperta um leno ou o vestido em crises de desespero.
Minha observao pareceu insolente. Os recm-chegados, que no mostraram nenhuma simpatia pela viva do coletor de impostos enquanto ela reclamava, aliaram-se a
ela depois do que eu disse. Detestavam o ponto de vista dos protegidos. No tnhamos nos mexido do palcio. No sabamos o que se passava l fora. Prova disso: estvamos
a ponto de fugir, preferindo o ataque de bandidos ao conforto da vida palaciana. Eles tinham visto. Tinham o direito de falar. Que nos calssemos e os ajudssemos.
Era s o que esperavam de ns.
Calei-me. A mulher largou-me as mos. A filha abanou-a e instalou-a confortavelmente, para que escutasse em boas condies a terrvel aventura de um deputado da
nobreza. Ele iniciou dando razo  viva. As estradas eram perigosas, os camponeses estavam armados. O pior, no entanto, passava-se na capital, foco da insurreio,
origem daquela tormenta de violncia que ameaava todo o pas. Ao contrrio da dama, que continuava fora de si e no cessara os gemidos, o deputado comeou com certa
frieza, como num discurso pblico bem preparado. Mas sua inspirao se abalou
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logo aps as primeiras palavras. Conseguiu balbuciar apenas que o povo havia parado o fiacre de aluguel que tomara ao voltar da Assemblia. Depois, tudo fora
muito rpido: haviam-no conduzido  prefeitura no meio de uma multido de pessoas armadas. Na Place de Greve, mostraram-lhe o cadver vestido de negro de um homem
decapitado e lhe disseram: "Est vendo ali?  o senhor de Launay. O que resta do senhor de Launay. Olhe bem, pois daqui a pouco estar no mesmo estado".
O homem tremia, misturava palavras desconexas. De um s golpe, sabres cortavam cabeas, mos estrangulavam, cordas eram passadas ao redor de pescoos: para os que
chegavam eram coisas tangveis, concretas. Tratavam-nos de choramingas, de gente imaginativa. Contavam suas histrias para se tranqilizarem e nos persuadir a no
sairmos, a ficarmos onde estvamos, no abrigo. No adiantou muito. Todos os horrores narrados no impediram os fugitivos de querer fugir e nem os recm-chegados,
tarde da noite, de querer voltar.
O Pnico jubilava. Tinha-nos sob seu poder. Manipulava-nos  vontade. A selvageria ganhava terreno. Apesar de avisados do que os esperava, os que partiam estavam
frenticos. No diferenciavam mais posio social, sexo e nem idade.
Com um joelho implicante, um arteso bloqueava a passagem de um venerando idoso. Uma altaneira viva aceitava ser ultrajada por uma borgonhesa espalhafatosa, mas
cogitava voltar atrs: "Eles tm meus pais como refns e degolaram diante de meus olhos sua dama de companhia". Um duque e gro-vassalo era abraado por um obscuro
burgus que, at ento, sequer cruzaria seu olhar. Era em conseqncia da quantidade, mas tambm
- e sobretudo - pela fora das revelaes que agora expulsavam com formidvel energia os cortesos para fora do palcio. Um impulso inverso ao da paixo que durante
anos os mantivera acorrentados, incapazes de se afastar.
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Os recm-chegados se tinham confrontado com o horror. Podiam testemunhar que, contrariamente ao que muitos se obstinavam em repetir, a insurreio ultrapassara a
capital; mas no tinham ouvido, como os apavorados que abandonavam o navio Versalhes, o mastro estalar, o cho fugir sob seus ps, inclinando-se para o abismo; no
tinham visto, ao anncio do sacrifcio do exrcito e dos ministros pelo Rei, as vagas se abrirem e sculos de dinastia a naufragarem. A corte se rendeu definitivamente
naquela manh. A derrota estava consumada. Os desertores a sentiram nos ossos. E ela os liberou do cdigo de honra e no lhes deixou outra sada seno a fuga.

Eu me deslocava com dificuldade no meio de semelhante desordem. O palcio no tinha uma entrada digna de seu esplendor, gostava de repetir o senhor de La Chesnaye.
Tratava-se, agora, mais de uma sada... Uma janela abriu-se com estardalhao. Uma mulher com uma touca estampada debruou-se e pendurou uma gaiola com um papagaio
em um dos batentes da janela. Com o choque, o pssaro ficou mudo.
Pssaros eram abandonados nas gaiolas, filhos eram esquecidos. Para no acrescentar mais peso  expedio, os negrinhos carregadores de sombrinhas eram deixados
- eles morreriam de frio no inverno seguinte, e, paralisados, com os olhos arregalados, talvez j pressentissem seu fim. Os ces farejavam a traio e uivavam desesperados.
Enfiavam-se pelos corredores, corriam em matilha pelas escadarias.
Eu estava cada vez mais confusa. Diziam-me para partir. Suplicavam que ficasse. Descreviam-me a carnificina l fora. Lembravam que eles se aproximavam. Um galope
de cavalo no ptio me fez parar o corao. A Rainha, diziam, descera para junto do Delfim. Preocupava-se muito com o filho. Conseguira, ento, atravessar
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sozinha a Grande Galeria. A menos que tivesse dado a volta. Eu me inclinava a acreditar na segunda hiptese. Estava enganada. A senhora  mais forte tinha se invertido.

LTIMA LEITURA PARA A RAINHA (DAS OITO S NOVE HORAS DA NOITE)

Passei pela biblioteca "da senhora Sophie" e entrei sem rudo no cmodo azul-lavanda, o banheiro de seu novo apartamento, no trreo. A princpio achei que estivesse
vazio, pois no vira a Rainha deitada em seu leito de repouso. Estava coberta por um robe de cetim branco sob o dossel azul-noite, estendido. O leito era alto, estreito,
orientado na direo das janelas, que davam para o Ptio de Mrmore. Para fugir dos olhares curiosos, a Rainha fizera plantar ali uma sebe de flores e uma cerejeira.
As janelas estavam fechadas, mas as cortinas, abertas, substitudas que eram pelo entrelaamento das folhagens e flores que se moviam do lado de fora com rudo abafado,
um rudo furtivo de passos. A Rainha estava deitada de lado, de costas para mim. Pareceu-me imensa, comprida, com quadris altos e tornozelos extraordinariamente
finos. Lembrei que era a primeira vez que via seus quadris, pois as saias rodadas dissimulavam essa parte do corpo. Como eu fazia quando tinha a oportunidade de
sentir o cheiro de sua pomada de flor de jasmim, tentei no respirar, para no violar aquela intimidade fantstica; tentava tambm no olh-la. Fiz um esforo: desviei
os olhos do corpo de sereia estendido na penumbra azulada. Fixei-os na janela, em que se moviam sombras escuras. Em seguida, voltei-me para ela. No dormia. Com
a ponta do dedo, seguia o desenho de cisnes e conchinhas que decoravam o forro de madeira da parede. Punha nisso toda a ateno, como quando se absorvia na contemplao
do "Caderno de adornos". Mas agora parecia em vias de decifrar um novo alfabeto.
- Pode deixar seus livros, senhora, tenho comigo o que gostaria que me lesse.
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Ela voltou-se e apontou, sobre uma mesinha, em uma pasta, um mao de cartas. Emanava da Rainha uma impresso de fora e de segurana. Sem que se movesse, tive a
estranha sensao de escapar da fora gravitacional num movimento espiralado. Estava sendo tragada. Todo receio de perturbar sua intimidade me abandonou. Peguei
as cartas e lhe entreguei. Ela escolheu uma sem hesitao. Conhecia as cartas de cor. A Rainha sorriu. Pareceu-me uma giganta terna e tranqila. Beijei-lhe a mo.
Sorriu-me com delicadeza ainda maior. O ar tinha uma leveza sobrenatural. Sentei-me junto  mesinha. Quatro velas estavam acesas. Comecei:
"Senhora filha querida,
Ontem estive mais em Frana do que em ustria e recapitulei o tempo feliz que ficou para trs. Apenas a recordao consola; fico contente pelo restabelecimento de
sua filhinha to meiga e por tudo que me contou de sua relao com o rei. Aguardemos os resultados. Confesso que no sabia, positivamente..." Diminu o ritmo nesse
ponto, sem saber se devia ler tudo, mas ela me fez sinal para continuar. "... que no dormiam juntos, mas desconfiava. Posso apenas achar vlido o que me diz, mas
teria preferido que se relacionassem  moda alem, com a intimidade dos que vivem juntos.
Encanta-me que pense em assumir a pura representao em Versalhes: conheo bem o tdio e vazio disso tudo, mas, creia-me, os inconvenientes resultantes de uma conduta
diferente so bem mais importantes que os pequenos incmodos da representao, sobretudo em uma nao to viva quanto a Frana. Bem que eu queria, como me deseja,
que o inverno tivesse feito cessarem as viagens do imperador; mas ele est preocupado com uma viagem aos Pases Baixos, no incio de maro; permanecer fora todo
o vero. O problema piora a cada ano e assim aumentam meus males e minhas inquietudes. Em minha idade, necessito de ajuda e consolo, mas, aos poucos, tenho perdido
tudo que amo; ando sobrecarregada..."
A Rainha tinha se sentado, apoiando-se no encosto do leito, sempre maravilhosamente gil e ereta. Repetiu para si mesma: "Aos poucos, tenho perdido tudo que amo.
Viena, 3 de novembro de 1780".
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Nas ltimas semanas, eu a tinha visto tantas vezes desfeita em
lgrimas que esperava seu pranto. No entanto, manteve absoluto controle de si mesma. Com uma certa satisfao misteriosa. Apoiou um ombro na parede azul com detalhes
de cisnes e conchinhas. E mais uma vez foi subjugada pelo sentimento que me invadiu quando a vi pela primeira vez. Ela se imiscua em nossas vidas por prazer, por
bondade; na verdade, pertencia a uma outra ordem de coisas, movia-se em outra esfera, a mesma das esttuas do parque e das deusas que emergiam das piscinas. Branca
e comprida, flutuava diante dos meus olhos com a mo a suspender o cabelo. E sua voz, que me atraa e me chamava para perto, repetia meigamente, sem nenhuma hesitao:
- Perco tudo que amo e estou sobrecarregada, mas no me deixarei dominar por esse peso. Seguirei, como sempre, o exemplo da Imperatriz minha me. - E acrescentou,
como se acabasse de descobrir o revestimento da pea de banhos: - O Rei adora os cisnes, como eu.
Em seguida me fez ler no outra carta de Maria Teresa de ustria mas as Regras a serem lidas todos os meses, que a me lhe dera quando deixou Viena, ainda muito
jovem.
Ela recitava em voz alta, junto comigo, e retomava, em certas palavras, o sotaque austraco. Sua voz no tinha mais qualquer suavidade. cida e envelhecida, impunha-se
pelo terror. Um temor louco invadiu-me. Agarrei-me  mesa, no terminei o texto. As chamas erguiam-se altas. Na sombra em que a Rainha se mantinha, eu nada distinguia.
Mas sua voz: "A senhora se recolher durante o dia o maior nmero de vezes possvel, sobretudo na santa missa. Espero que a assista uma vez por dia e duas vezes
aos domingos e dias santos, se tal for o costume em sua corte. Assim como desejo que se ocupe com oraes e boas leituras, peo que no pense introduzir ou fazer
o que no for costume em Frana; nada deve pretender nada de particular, nem citar os hbitos daqui, nem pedir que os imitem. Pelo contrrio, deve se adaptar inteiramente
ao que a corte est acostumada. V, se possvel, aps o almoo e, sobretudo,
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todos os domingos, ao oficio da tarde e s vsperas. No sei se  costume, em Frana, recitar o ngelus; recolha-se, ento, se no em pblico, pelo menos em
seu corao. Faa isso no cair da noite, ou passando diante de uma igreja, ou uma cruz, sem qualquer gesto externo que no os de costume. Nada impede que o corao
se concentre e faa suas oraes interiormente; para isso  necessria apenas a presena de Deus. Seu incomparvel pai possui essa qualidade  perfeio. Ao entrar
nas igrejas, assuma uma postura respeitosa e no se deixe levar por curiosidades que causam distraes. Todos os olhos estaro fixados em sua direo e a senhora
no deve ser assunto de rumores e nem motivo de escndalo. Seja piedosa, respeitosa, modesta e dcil. Mas, sobretudo, piedosa. Direi, enfim, para resumir, certa
de que se seguir meus conselhos nada de mau poder acontecer: ajoelhe-se quanto puder, filha".
- Vamos, preciso me vestir.
Essas palavras, pronunciadas com sua voz normal, dissiparam a ordem que atravessara os sculos, na voz da me e da morte, que jamais vacilam. Ela no desapareceu,
de modo algum. Continuava ali, eu sabia, mas no se tornaria mais audvel.
- Preciso reunir a famlia Polignac e fazer esses excelentes amigos partirem. Seu bom corao os impede de obedecer. Quanto  senhora, senhora Laborde, tenho igualmente
um pedido a fazer e espero que seu bom corao no se oponha. Se a lembrana no me engana, a senhora afirmou anteontem que viajaria para longe se fosse do meu agrado.
No  hora de se desdizer. Faa essa viagem, parta. Ir com o grupo do duque e da duquesa de Polignac. E como esta , infelizmente, muito clebre e injustamente
mal-afamada, peo que vista as roupas dela e ocupe seu lugar no carro. Ela se disfarar como burguesa, como dama de companhia ou como simples criada. O essencial
 que passe despercebida. E que, se por infelicidade, o grupo for parado pela Guarda Nacional, a senhora de Polignac tenha a vida salva.
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Eram quase nove horas. Mal teria tempo de pegar minhas coisas antes de ser engolida pela noite.
Pessoas fugiam, outras chegavam. Estas traziam no semblante marcas de insultos e agresses. No havia grande diferena entre se preocupar com a idia de ser atacada
e a de se jogar s garras do inimigo.
Voltei ao meu quarto. Queria levar apenas o que me fosse mais caro. Entretanto, ao olhar atravs das lgrimas o que durante todos aqueles anos fora o cenrio ntimo
de minha vida, tudo me pareceu igualmente precioso. No podia salvar o pequeno vaso de mrmore branco sem levar tambm o mao de papel amarelopalha em que se inscreviam
meus versos. Queria o espelho, por ser o primeiro que possu e por dele sempre me aproximar com o tremor do pecado. Queria a colcha bordada que me acompanhava desde
o pensionato e que j estava transparente pelo desgaste.
Queria, na verdade, levar meu quarto.
O quarto do Sono Perfeito.
Meu gabinete do Poente e do Levante.
Minha biblioteca e meu Quarto de Banhos.
Meu boudoir de Conversas.
Meu quarto ris e branco. Meu quarto.
Era to apegada a ele que, certas noites, podia preferi-lo aos mais belos espetculos da pera do palcio. Repousava nele deliciada. Preparava as leituras da Rainha,
lia, sonhava, desfiava minhas listas. Na mansarda, seguia as metamorfoses das nuvens. Naquele espao, exatamente por sua exigidade, sentia-me inatingvel. Tudo
isso me fizera escapar do frenesi de mudanas que agitava os cortesos.
Eu gostava de ouvir, ainda dormindo, o choque dos cntaros no corredor, o som do manuseio de armas no ptio.
Gostava tambm de, meio dormindo, pegar um livro, ler algumas pginas e voltar a dormir. Muitas vezes Honorine vinha me acordar. Comevamos a rir, antes de dizer
qualquer coisa.
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Minha colcha de cama estava gasta at quase se esgarar, bem de acordo com o volume de sono que comigo atravessou. Trazia estampadas as mil marcas de minha vida
de sonhos, invisveis para todos, menos para mim.
No abandonaria minha colcha.
Nem a colcha nem o castial...
E meus livros? Comecei a encher a sacola de veludo, mas ficou muito pesada e no havia mais lugar para as roupas. Tentei contrabalanar. Tinha dvidas. Sentia perfeitamente
que naquela viagem em que a Rainha me lanava eu no devia pesar. Abandonei os livros. Peguei apenas algumas roupas, que enrolei num xale.
Na sacola, enfiei dois chapus, meias grossas e duas botinas.
Encontraria o restante onde chegasse.
Onde?
Fui me despedir de Jacob-Nicolas Moreau. Ele abriu a porta parecendo algum que no se encaixa muito bem no que faz. Convencido da grandeza e da gravidade de sua
tarefa, no parar de trabalhar no discurso.
- Meu amigo! Desmanchei-me em lgrimas.
Tomou-me nos braos. No conseguia explicar minha partida. No fugia por medo, mas por dever. Apenas obedecia. Mas j nesse momento algo me dividia, dilacerava.
Eu poderia, deveria ter me furtado quela ordem, ter me esquivado. J que eu ia tomar o lugar de outra pessoa, fazendo-me passar por ela, podia ser substituda.
Importava pouco que fosse eu... Obedeci rpido demais, deveria ter parado, pensado. Mas no podia mais faz-lo agora, estava sendo velozmente carregada, e por paixes
que no eram minhas... Em vez de confessar meus escrpulos, preferi perguntar como ia a Pastoral aos bispos de Frana.
- Reli e admito que no estou descontente, embora no me entusiasme tanto quanto a senhora. Os perodos tm estilo, calor,
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e um autntico fervor anima estas pginas. Estas duas pginas, mais exatamente. Esse  o problema. Confesso que minha ansiedade  grande. Tenho muito pouco
tempo para cumprir esta misso. Estou esgotado. Meu stimo volume da Histria da Frana extenuou-me. Ultimamente, minha pluma se cansa depressa. Agentar o ritmo?
Precisa ser veloz e irrefutvel. Precisa atropelar a propaganda dos meliantes. Ainda  cedo, tenho uma longa noite de trabalho pela frente e uma boa proviso de
velas, mas a energia comea a faltar. Minha pluma pede repouso.
- Deixe-a repousar e amanh...
- Ah! amanh! O que ser o amanh, querida Agathe? Onde estar a senhora?
Com o xale e a colcha em uma mo e a sacola de veludo estufada na outra, parei ensimesmada. Tentava mais uma vez imaginar o mundo fora de Versalhes. No conseguia
ver nada.
Versalhes era minha vida"E assim como com a vida, nunca havia realmente pensado como seria o ltimo dia. Nem mesmo que haveria um ltimo dia, com uma manh, uma
tarde, uma noite e nada ao fim da noite. Nada que conhecesse, em todo caso.

A FUGA. MEU MEDO NOS SUBTERRNEOS. A MENSAGEM RECEBIDA POR ENGANO (DAS DEZ HORAS  MEIA-NOITE)

" verdade, e damos graas  Divina Providncia: dentre os habitantes deste reino, uma minoria aderiu  tropa dos sediciosos. Aqueles que no sufocaram o grito da
conscincia e que sentem todo o custo da manuteno da ordem e da submisso ficariam envergonhados de se juntar aos instigadores de uma revolta to criminosa perante
Deus quanto perante os homens." Eu repetia as ltimas palavras da "Pastoral", apressando-me na direo dos aposentos
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de Diane de Polignac, para permanecer mais tempo na companhia de meu amigo, para me dar foras, para conjurar o demnio de Diane. Ela chamava Deus, o Grande
Malabarista. Era sua cmplice em malabarismos e acrobacias. Encontrava sempre novos artifcios; para ela, no havia diferena entre malabarismo e passe de mgica.
A bola que jogava para cima se transformava em pomba. Em tempos normais, Diane inspirava medo em Versalhes. Eu a tinha visto deambular boa parte da noite. As declaraes
ostensivas de fidelidade e as admoestaes, comparadas  mesquinhez de meus pensamentos, fizeram-me afundar em vergonha. Durante o dia, sumira. No entanto, no era
difcil adivinhar, pelas maneiras de Gabrielle, a verdadeira preocupao de Diane. Altrusmo algum, nem sombra de generosidade. A salvao da famlia real, contrariamente
ao que nos fizera crer, no era sua prioridade. Devia estar pensando em fugir desde a noite de 14 de julho. Seu belo discurso pretendia evitar que o movimento se
ampliasse: para obter inteiro apoio da Rainha, interessava que sua partida fosse exceo, a menos que tenha representado a farsa do sacrifcio pelo puro prazer de
enganar. Diane tinha uma s meta: seu bem pessoal. Servia a uma causa nica: a sua. Com avidez e talento raros. E eis que, subitamente, via-me a embarcar com semelhante
monstro. Era em sua canoa que eu me salvava do naufrgio.
O grande salo em que penetrei era palco de febril atividade; mas enquanto o restante do palcio dava a impresso de total desordem, de fuga desvairada ou de agrupamento
catico, ali estavam pessoas que no tinham sido pegas de surpresa. Que estavam preparadas, de certa forma, para toda eventualidade. Inclusive aquela.
Seis ou sete pessoas se encontravam na sala. O estado-maior habitual de Diane: o conde de Vaudreuil, o duque de Polignac, o duque de Coigny, o padre Cornu de La
Balivire, Capelo Ordinrio do Rei, que se tornara ntimo do grupo por sua paixo pelo jogo. Ali estava tambm Gabrielle de Polignac. Ela descansava, lnguida,
em um sof.
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Tinha o rosto oculto por um leque. A seu lado, a filha, senhora de Gramont, olhava com tristeza o filho recm-nascido, de quem se separaria. Gabrielle de Polignac
e a filha representavam, no conjunto da cena, um reduto de inrcia e de melancolia, que os demais personagens contradiziam vigorosamente. No centro, Diane governava.
- Prefiro perder a pele do que acabar em uma estao de cura!
Peremptria, Diane de Polignac jogou o corpo um pouco para trs e cruzou os braos. Esse ar duro, as maneiras autoritrias, a brusquido... eu me afundava em timidez.
Suas mos curtas, com dedos quadrados, pareciam partes destacveis de uma mquina de desferir bofetadas. Era prdiga nisso. Por temor, e no por respeito, seus empregados
evitavam se aproximar muito. Traziam-lhe as coisas mantendo a distncia de um brao, um pouco de vis, prontos para se esquivarem. A vigilncia nem sempre os punha
 salvo dos golpes violentos e precisos que os deixavam no s mortificados, mas tambm convencidos de que emanavam de um poder demonaco. Sem dvida, havia algo
disso em sua pessoa.
- Para Spa! - uivou Diane. - Spa!  para onde quer nos levar! No h nada mais mortificante do que a estada em uma estao de guas. So lugares que cheiram a ferrugem
e a ovo podre. Fica-se  merc dos mdicos, esses sanguessugas. Alguns no pensam duas vezes antes de mandar nos despirmos.
O conde de Vaudreuil riu. Examinava, junto com o duque de Polignac, vrias roupas de pano escuro, como as que os comerciantes usam. De p, apoiado na mesa de bilhar,
interessado no movimento de uma bola, o padre refletia, ao mesmo tempo, quais seriam os melhores destinos. A sugesto de uma estao de cura certamente viera dele.
- No vou sair de Versalhes, onde costumam no me contrariar, para me colocar sob a tutela de mdicos. No vou a Spa, como no iria a Plombires e nem a Vichy. Nesses
lugares h apenas pessoas que se acreditam  beira da morte. Perseguem-nos
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contando suas desordens fisiolgicas. Ouvi-las por uma hora  o suficiente para envelhecer dez anos! A conversao  nula, a freqncia insustentvel.
- Recordo-me, porm, de uma estada em Bath... - interferiu o duque de Guiche.
- Cale-se, Mimi. Estou falando do perigo dos mdicos e de seus doentes imaginrios para no ter que evocar o tdio do convvio social com putas e embusteiros. Nas
estaes de cura transita a mais vulgar sociedade. Sem contar que a gua envenena. Por conseguinte, nada de Spa, senhor reverendo.
O padre inclinou-se. Era um belo homem, na flor da idade. Grande caador, jogador impenitente, no raramente deixava a mesa de jogo para ir direto ao altar rezar
a primeira missa do dia. Os comungantes diziam perceber na maneira como manipulava as hstias a destreza do embaralhador de cartas.
- Estou pouco ligando para o destino preciso - continuou Diane. - O que importa  ir embora. Colocar uma fronteira entre os canibais e ns. Qualquer uma. Se necessrio,
para que tenham alguma coisa para mastigar, lhes deixamos um osso. - Senti um calafrio; o mal-estar que experimentava por me encontrar naquela companhia, sem f
e sem lei, acentuou-se. - J resolvi a dificuldade essencial, ou seja, carruagem e cavalos. Agora devemos pensar nas roupas. No esqueamos que, mesmo sendo Gabrielle
a mais visada, estamos todos em perigo.
Diane sentou-se em uma poltrona, que ocupava como um trono. Habituada a organizar os dias dos parentes e cmplices, no lhe era difcil organizar o exlio. De repente,
s pancadas vindas de um aposento vizinho juntaram-se gritos de socorro.
- Que algum v ver - ordenou Diane. Em outros tempos, que ela ainda no compreendera muito bem constiturem o passado, bastaria que gritasse uma ordem para algum
execut-la. Mas agora ningum se mexeu. A ordem se dissolveu no ar e a balbrdia, donde quer que viesse, ampliou-se. Diane largou os papis que estava examinando,
olhou ao redor, viu apenas parentes,
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pessoas de seu sangue e de sua posio, pessoas a quem tinha o hbito de governar e at mesmo tiranizar, mas que no podia ir mandando assim... Foi quando
me descobriu num canto, com a trouxa na mo. - Ah, senhora, poderia lhe pedir que...
L fui eu, em direo  barulheira. Quando cheguei  porta sacudida por pancadas, atravessada por gritos, pude ouvir: "Rondon de La Tour, conde de uma figa, liberte-me,
pelo amor de Deus. Sou eu, La Joie, seu criado. Voc me esqueceu, miservel! Cai fora e abandona o escravo. Estou aqui suando com esse 'Horscopo contrariado'. Espremendo
alexandrinos. Viro-me. Desanco-me:

Senhora, em vo ao vos fazer a corte         
Outrora, vos confessei o meu amor. 
Em vo tendo erees, sem ousar vos dizer, 
Pensei: com astcia vos farei entender.
No destes ouvidos  minha entonao 
E assim queimastes meu incenso e corao. 
Mas o tempo passou, no sois mais donzela, 
Mesmo que sempre fresca, amvel e bela.

 bonito, hein? hein? HEIN? Jogou-se contra a porta. Teria escrito isso? Voc? No, diabo! NO! NO! NO! No entanto,  seu. Ser seu. Vai assinar e diro que Rondon
de La Tour acaba de desovar mais uma obra-prima. 'O horscopo contrariado'  um monumento das belas-letras. Escute, Rondon, porra, voc me largou! Tarado! Por que
desapareceu assim, conde sifiltico? Est claro que vou lhe dar uma bordoada quando o vir, pois no  assim que vai tomar ch de sumio. Algo terrvel acontece...
H um silncio apavorante neste barraco. Os carcereiros, parece, foram degolados. Socorro! Socorro!" A porta, afinal, cedeu. E com ela veio junto o camareiro do
conde Rondon. Calou-se, enfim, porque a mesa a que estava acorrentado lhe caiu por cima.
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Nem Diane nem ningum de seu grupo deu um segundo de ateno ao incidente. O destino fora escolhido: a Sua. Como sempre em se tratando de decises graves, a inteligncia
estratgica e o senso prtico de Diane de Polignac propagara-se pelo cl. Cada um se preparava para a partida. O padre remexia dentro de um ba. Posso rever precisamente
o ba vermelho embaixo do retrato da senhora Adelaide, bem jovem. A filha de Lus XV posava em grandes trajes de corte.
Diane vestiu um costume de homem, de burgus, sbrio, de cor escura, e que caa bem em suas formas atarracadas. Olhei com curiosidade as pernas musculosas, cujas
formas vigorosas transpareciam nas meias de algodo. Tomou meu olhar por elogio e respondeu com um de seus sorrisos breves e brilhantes, que constituam, junto com
a inteligncia, a chave de sua ascenso. Aqueles trajes de homem devolviam-lhe sua verdadeira natureza. O vestido, cado a seus ps, mais parecia uma roupa emprestada.
Empurrou-o com o bico da bota. Imaginei que, em sua cabea, Versalhes era como aquele vestido: bastava-lhe o tempo de desatar o espartilho para jogar no cesto todos
os anos vividos na corte de Frana. Por isso andava com impacincia de um lado para outro do grande salo de seus aposentos, transformado em camarim no qual se agitavam
os membros da trupe, candidatos forados ao exlio. O senhor de Vaudreuil contemplava, com olhar morto, o casaco com que devia se abrigar. "Cor lama-de-paris",
gracejou. " o caso de dizer que  da cor dos que nos perseguem." O senhor de Polignac, s voltas com o bordado das botoeiras do colete, no tinha vontade nenhuma
de rir. Puxando com brusquido, rasgou os laos de seda. "E agora?" perguntou, tirando o colete e mostrando uma faustosa camisa de renda.
"Isso no  uma camisa de comerciante", disse Diane de Polignac, exasperada com a falta de cuidado. Era a nica a ouvir a aproximao dos passos do povo a clamar
por vingana. Era a nica a estar realmente convencida de que os panfletos no mentiam.
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Misturada ao medo e impulsionada pela inexperincia, uma atmosfera de ensaio teatral tomou o cl Polignac. O padre de La Balivire tambm queria se fantasiar.
Sugeriu viajar vestido de freira. " perfeitamente apropriado", observou Diane.
O senhor de Vaudreuil mostrava o dorso branco, com o peito afundado, e, encarapitado em saltos altos, ia e voltava na frente de um espelho; queria incluir Diane
em seu desfile, puxando-a pela mo. Ps-se em seguida de joelhos  sua frente, em sinal de adorao. "O senhor  impossvel", disse ela, mas estava encantada. Ele
ergueu-se, segredou algumas palavras ao padre de La Balivire, que logo voltou com garrafas de champanha. A espuma escorreu e nos respingou. O padre jogou um pouco
no escapulrio. Taas apareceram. "Festa em honra do restabelecimento da deusa Fortuna", proclamou o senhor de Vaudreuil. Em um piscar de olhos, vestira a roupa
de comerciante, mas tinha as bochechas cobertas de ruge e uma mscara sobre os olhos.
"Celebremos a deusa Fortuna, isso  muito importante. A deusa no gosta de brincadeiras." Era flagrante a volta da alegria, e eu vi na fisionomia e nos gestos dos
trs homens a mesma vontade de rir, de tocar, de se despir; em seguida passaram a lamentar ser preciso deixar tudo aquilo e partir. Durante alguns minutos, porm,
o desejo de uma ltima comdia se reanimou.
Puxaram uma mesa para o centro do cmodo, para transform-la em estrado. Cobriram-na com um tapete vermelho. Quiseram tomar o trono de Diane, mas ela os ameaou
com a espada. Foi preciso se contentar com uma poltrona menos prestigiosa, que foi colocada em cena. Gabrielle de Polignac sentou-se, um pouco esticada, apoiada
nos braos da cadeira, com a cabea jogada para trs. O Destino, o senhor de Vaudreuil, postou-se  sua frente. Ele sorria. A Fortuna, Gabrielle de Polignac, devia
se reanimar pouco a pouco. Enquanto isso, j com a espinha dorsal curvada no incio da cena, a Adversidade, o padre de La Balivire, muito doente, entre o Destino
e a Fortuna, sacudiu-se com espasmos e, afinal, caiu ao cho. De p, pronta a passar sobre o
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cadver da Adversidade, Gabrielle de Polignac foi se unir ao Destino, cujo sorriso, de tanto querer parecer triunfante, comeava a dar a impresso de crueldade.
Ela tinha gestos de sonmbula. Atordoada pelo vinho da Champanha, continuava a estender a taa, que continuava sendo servida. Encostando a cabea no peito do Destino,
perguntou: "Quais so as novidades? Por que voltamos a ter sempre novidades?".
Encorajada pelo Destino, Gabrielle de Polignac opunha sua indolncia ao Acontecimento. O senhor de Vaudreuil, sonhando com a ausncia de Fama, enrolava no dedo um
de seus cachos. E ento a Rainha entrou. No foi preciso v-la para saber. Antes que falasse, a enormidade de sua mgoa e de sua reprovao nos atingira.
"Por favor, no interrompam. A cena  comovente. Representam-na, ambos,  perfeio." No era tanto o que dizia que petrificava, mas o fato de ter entrado sem ser
anunciada. Olhvamos incrdulos em sua direo, estupefatos. Diane foi a primeira a se recompor. Gabrielle se ps aos ps da Rainha. Ela se enterneceu. Articulou,
com toda a suavidade: "Deve pensar em partir. Isso  provisrio, tenho certeza. Logo voltar para mim, mas agora, por favor, apresse-se".
A Rainha abaixou e ajudou Gabrielle a se levantar. "Deixe-me auxili-la, senhora." Num silncio mortal, ela prpria retirou o vestido verde-claro da amiga, comeou
a abotoar-lhe uma saia e quis, inclusive, calar-lhe as meias. Era ela, agora, quem estava de joelhos, aos ps de Gabrielle. Tinha o rosto decidido, fechado. Uma
espcie de energia, de preciso do desespero a animava. Gabrielle, branca e doce, frgil como a nudez de uma menina, chorava baixinho.
Com o perfeccionismo que a invadia quando se tratava de vestimentas, a Rainha cobria com uma manta os ombros da amiga, quando uma voz de trovo anunciou a vinda
do Rei. Era a mesma que, na sada do Conselho, havia vociferado: "Senhores, o Rei". Devia ser um substituto. Todos nos curvamos em reverncia. Quando nos erguemos,
o Rei j estava no meio da sala, com vrios
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passaportes, que estendeu a Gabrielle de Polignac. Ela, porm, inconsciente, perdida, levada pela fora de uma dor recm-descoberta, no os via, nada enxergava.
As lgrimas inundavam seus olhos, escorriam pelas faces, perdiam-se em manchas escuras na manta gren. E a Rainha,  sua frente, conservava a expresso escultura!
- uma expresso no limite do humano, ou humana apenas pela intensidade dos olhos, pela extrema concentrao em olhar, para nunca esquecer quem ela perdia.
O Rei, como sempre acontecia quando se encontrava na presena da Rainha, viu-se de imediato ofuscado. No amor e no medo, ele tudo esperava dela. Isso sistematicamente
esvaziava os gestos e as palavras destinadas aos outros. Foi assim que entregou os passaportes, com uma emoo sincera, mas sem ultrapassar os limites protocolares.
Como Gabrielle de Polignac no reagia, ele se voltou, com um ar inseguro, para o marido. O duque de Polignac se adiantou, clere, desfazendo-se em palavras de agradecimento.
A musiqueta da polidez recitava suas notas. Diane prestamente apoderou-se dos passaportes e das letras de cmbio. Esquecida em um canto, vesti o traje faustoso que
me disfararia de pessoa de qualidade. Nesse momento, um clamor que, pela violncia, parecia vir de bem perto, rasgou os ares. Um grito, um urro que nos paralisou.
Todos se entreolharam, surpresos. O clamor aumentou ainda, frentico, todo-poderoso. O Rei, que buscava em vo uma resposta para o duque de Polignac, disse apenas:
"So os deputados, acabam de ser informados de que ordenei a readmisso de Necker. Amanh irei a Paris".
O Rei calou-se e manteve a cabea um pouco inclinada, numa atitude protetora que lhe era comum. A Rainha se manteve a seu lado. Ela nos olhava. De repente, teve
um estremecimento, ficou muito plida e disse: "Vamos.  passada a hora". O Rei nos deu sua bno, enquanto ela, um pouco voltada para uma janela, com a silhueta
clara contra a sombra densa dos jardins, murmurou com a voz seca, curiosamente marcada por um sotaque h muito tempo abandonado: "Adeus. Eu levo infortnio a quem
amo".
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Mal deixamos a Galeria pelos corredores tantas vezes percorridos, a "rua dos Noailles", depois de alguns desvios de rotina nos perdemos. "Meu nome  Ddalo", brincou
o senhor de Vaudreuil, mas a vontade de gracejos tinha desaparecido. No decorrer daquele dia, esvaziando-se das pessoas que o habitavam e perdendo os ritos e os
ritmos em que vivia, o palcio havia pouco a pouco perdido seu aspecto familiar. No entanto, continuava igualmente impressionante. No mais como o milagre de luxo
e de requinte que me cativou desde o primeiro instante e do qual mais tarde, pela leveza de meu corpo, pela ausncia de gravidade de meus passos, compreendi fazer
parte, mas como as runas de um desastre j ocorrido. Esforvamo-nos,  claro, pela discrio. Andvamos junto s paredes. Tomvamos cuidado para no esbarrar em
mveis, no derrubar um vaso ou uma esttua. Falvamos baixo, apenas para comunicar as informaes indispensveis. Dispnhamos de um mapa dos subterrneos. Chegar
 entrada no parecera ser um problema. Mas essa segurana foi abalada pelo primeiro erro, que nos levou a um corredor obscuro e sem sada. Mas o senhor de Vaudreuil
foi to rpido na mudana de rumo que mal notamos o erro. Avanvamos muito juntos, com um passo demasiadamente furtivo e apressado para que no despertssemos desconfiana
em quem quer que cruzasse conosco. Ao mesmo tempo, a aparncia geral era digna. Espontaneamente, graas ao comportamento automtico que fazia com que em Versalhes
ningum se imaginasse a salvo de um olhar, ao sair dos aposentos e lanar-se ao perigo, todos estavam prontos para se exibir. Gabrielle de Polignac, ainda ensimesmada
em sua dor, mantinha a mo no cabelo. Estava contrariada por se mostrar em trajes de domstica. Diane empinara-se. Podia imagin-la na obscuridade, vida para receber
as homenagens a que se acostumara. No pas inteiro seus nomes eram malditos, suas cabeas postas a prmio. Fugiam em desespero de causa. Mas naquele preciso momento
era ainda o orgulho de corteso que predominava. Ele se mantinha pela proximidade dos objetos, das salas que, durante tanto tempo, haviam refletido sua
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glria. No precisavam ilumin-las para reconhec-las. Todas aquelas salas que homenageavam as vitrias de Lus XIV serviram de cenrio para suas prprias
vitrias. Como deixar, de um dia para outro, de se acreditar dono do mundo? Continuariam sendo os senhores e os donos, mesmo que, simples concesso, deixassem o
lugar... Essa convico estava se revigorando. A seus olhos, isso dava  fuga um verniz de estratgia. Mesmo assim, cada minuto era importante. O senhor de Vaudreuil
estava completamente perdido. O duque de Polignac no era de nenhuma ajuda. O desnimo tomou conta do grupo. Todo trao do orgulho corteso desaparecia. Eram fugitivos
a correr abertamente pelo terreno do inimigo. "Mas onde est a sada?", exclamou Diane. Tomou as rdeas da situao. Devamos nos separar, deixarmos isoladamente
o palcio. Repetiu-nos o lugar de encontro e todos desapareceram.
Antes que pudesse compreender, vi-me em um subterrneo. Uma vaga luz enevoada mal me permitia avanar. Por pouco no tropecei nos blocos de pedra desalinhados. O
ar, muito rapidamente, tornou-se irrespirvel. Havia nele uma umidade que congelava o corao. Mas o horror maior era o barulho dos ratos que passavam entre meus
ps. "Tome cuidado com as patrulhas de guardas e seus ces", tinha dito Diane, despachando-me sob a terra. Por dentro, eu rezava para encontr-los. Que me prendessem,
que fizessem o que fosse, mas que me salvassem dos ratos!
Eu tinha algumas indicaes. Segui-as mal, e, em vez de desembocar numa entrada privada do teatro da senhora Montansier, emergi num estbulo. No estava sozinha.
Escondida na penumbra, pude distinguir dois homens que se enfrentavam. Tinham-se precipitado, ao mesmo tempo, sobre um cavalo. Era um animal de belo porte, brilhantemente
equipado. Assustado, empinava e despedia coices. Os dois homens eram bem diferentes. Um trajava roupas da corte e conseguia controlar a impacincia. Estava pronto
a argumentar. Decerto queria o cavalo, mas dentro das boas normas. O outro, macio e enrolado em uma capa negra, com o chapu enterrado na cabea, no dizia uma
palavra.
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- Senhor - argumentava o homem vestido de seda -, eu o vi primeiro, tenho certeza. Muito pouco tempo antes do cavalheiro, reconheo. No entanto, na presente situao,
bastante confusa e desagradvel, esta pequena prerrogativa merece crdito.
Resposta alguma vinha da parte do homem envolto em negro. Ele simplesmente no reagia. J para o sujeito falante, rosado e fantasioso, que estava visivelmente preparado
para honrarias, era importante convencer o rival de seu pleno direito. No era, de modo algum, um ladro de cavalos.
- No sei como, minha carruagem, que ficara no Ptio do Louvre, desapareceu. Preciso urgentemente voltar para casa e, sem este cavalo, vejo-me desguarnecido. Tinha
encontro marcado com o senhor baro de Breteuil, velho amigo e homem cuja pontualidade...
A massa escura se moveu. Com a mo at ento escondida sob a capa, o homem desferiu um tremendo golpe com um cacete. Ouvi um barulho pavoroso. O homem corts estava
ao cho, com a cabea esmigalhada.

Eu, na verdade, estava bem prxima do local de encontro. Quando cheguei, meus companheiros e duas berlindas de seis cavalos esperavam. A condessa de Polastron, a
marquesa de Poulpry e a marquesa de Lage de Volude tinham se juntado ao grupo. Estavam conosco na evaso. s vezes, ouviam-se clamores de festejo ao regresso de
Necker. "Perfeito. O entusiasmo os ocupa e diminuir a vigilncia", disse algum. O senhor de Vaudreuil nos deixara. Partiria com o conde de Artois, que ia fugir
durante a noite, assim como o duque de Bourbon, os prncipes de Conde e de Conti, os Castries, os Coigny, o prncipe de Hnin, o conde de Grailly e todos os membros
do governo. Eu me sentia tolhida em minha roupa de princesa. Tinha uma sede profunda, a boca ressecada e amarga, a garganta irritada. Atrevi-me a pedir o que beber.
"Mais tarde", respondeu Diane, e fez-nos entrar num dos carros. Ela prpria se colocou no banco, ao lado do cocheiro. Eu s o tinha visto de costas, mas quando
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ouvi o caracterstico "Qu'sabe?" no tive dvida: era Fchs. Gabrielle e a filha sentaram-se em dois assentos dobrveis. O senhor de Polignac e o padre se
enfiaram ao fundo, com pacotes sobre as pernas e nos ps. Tomei o lugar que me cabia pela distribuio dos papis. Instalei-me junto a uma janela. No momento em
que o carro estremeceu e partiu, pareceu-me ouvir, num intervalo de calma entre os clamores, trechos de uma litania: "Maria Amlia, Maria Ana, Maria Carolina, Maria
Antonieta, minha Rainha". Os nomes esvoaavam, disformes, levados pela voz rouca do senhor de Castelnaux, sua pobre voz de amor e de loucura.
- Esse a - proferiu o senhor de Polignac, mostrando uma pistola -, se o vir eu abato.
Foi muito mais adiante, quando o medo de sermos perseguidos mantinha todos silenciosos e tensos, que fomos alcanados por um homem a galope. A janela estava entreaberta.
Ia fech-la quando, sem sequer diminuir o passo, o homem jogou um rolo, que peguei com a mo. Era uma mensagem, uma folha simples, amarrada com um aro de ouro.
Abri o papel e li:

"Adeus, mais querida das amigas. A palavra  horrvel, mas necessria. Tenho fora apenas para beij-la. Maria Antonieta."

Estendi a missiva para Gabrielle de Polignac. Sentada, encolhida  minha frente, chorava em silncio, e as lgrimas corriam com uma regularidade assustadora - como
se viessem de uma fonte estranha, que brotara em algum ponto seu e com a qual teria de conviver da para a frente.

Viena, janeiro de 1811

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Lembro de nossa alegria, no instante em que cruzamos a fronteira sua. Estvamos salvos. Eles haviam ficado do outro lado. No podiam mais nos causar mal.
Abraamo-nos. O regimento alemo, que nas ltimas horas nos tinha acompanhado, seguiu seu caminho. No sabiam por que tinham vindo  Frana. Tambm no sabiam por
que se iam. Estranha expedio. Sem combate, sem inimigo... E eu sabia por que estava ali? Terminados os abraos, a louca alegria, observei tudo como se estivesse
a grande distncia. Vi os cavalos esgotados, encharcados de suor, a tremer, a berlinda grotescamente sobrecarregada de bagagens, os pequenos personagens no cho,
agitando-se. Iam um em direo ao outro, abraavam-se. Da distncia em que os observava, os gestos pareciam febris, incompreensveis. Fchs no se movera de seu
banco. "Qu'sabe?" Ao redor, havia apenas prados, bem verdes, belos, abundantes, como os da Mnagerie. Exceto pelo silncio e pelo vazio. O cu estava cinza, quase
branco. Eu tinha atravessado a fronteira, aquela que separa a vida do vazio.
Como guia, os Polignac seguiam as indicaes das letras de cmbio. A agulha da bssola fixava-se numa s direo: o dinheiro. A dinmica da poca, conforme Diane.
E a poca que se iniciava agradava-lhe tanto quanto a precedente. Ou ainda mais, pois o dia-a-dia seria trepidante, o horizonte, imenso. Um mundo em guerra convinha
a seu temperamento. Para mim, confuso e vazio so idnticos, matar  um ingrediente inspido para o sabor da vida, mas  por isso que os que comeam no conseguem
parar.
Atravessamos a Sua, passamos uma temporada na Itlia, em Roma, por comodidade. Era uma existncia flutuante. Na verdade, no nos pnhamos em asilos ocasionais.
Improvisvamos acampamentos em palcios desabitados. Graas ao gnio de Diane para os expedientes, o exlio mais parecia um refinamento da arte de viver. A provao
lhe aumentara ainda mais a autoridade e a crueldade e ampliara a concepo que lhe permitia, enquanto meditava sobre um tratado de D'Alembert, obter subsdios do
Papa, do Rei da Inglaterra e do Imperador da ustria.
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Sob sua tutela, borboleteavam o conde de Polignac e o duque de Vaudreuil. Gabrielle chorava. Todos compreendiam tratar-se de uma postura elegante, mas a insistncia
cansava. Eu tambm pensava assim. Alis, sentia-me to triste que a tristeza dos outros, mesmo a de Gabrielle de Polignac, no me sensibilizava. Lia o tempo todo
e apenas para mim mesma. Em minha cabea, o monlogo incessante e mudo de tantas histrias diversas acabou por me convencer que eu mesma no tinha uma histria.
Perdida nesse estado de ausncia, nem tentei compreender porque trocamos Roma e Veneza por Viena, onde ficamos. Mas em Viena o grupo se desfez. O prncipe de Ligne
tomou-me sob sua proteo: deixei de depender dos Polignac. Foi um alvio. Continuei a v-los, mas como visitante e no mais como agregada.
Pela primeira vez h muito tempo - desde o tempo em que vivi em Versalhes - o inverno me parece benfico. L fora o frio  feroz. A cidade - suas runas - transformou-se
num de gelo. Ao menor raio de sol, os galhos das rvores, cobertos por uma camada de gelo, cintilam. "A cidade brilha", disse-me uma vizinha. E repetiu "Der Frost",
maravilhada. "Irei ver", respondi, mesmo sentindo-me incapaz. Mas isso no me incomoda. Estou muito bem onde estou. No falta nada. Com as cortinas puxadas, o fogo
aceso, cobertores e edredons sobre meu corpo, no me movo. Apenas minha mo escorrega sobre a pgina e, sobre um fundo de chamas ligeiras, uma seqncia de cenas
se perfila no presente - todas no presente.
Coloquei ordem onde no havia. Introduzi uma continuidade naquilo que, numa avalanche catica e devastadora, me assombrava. Fao como se o calendrio dissesse a
verdade. E  esse mesmo o caso, embora seja terrivelmente desagradvel admitir. Sob o peso de seu manto de gelo, os galhos se quebram. Florestas se despedaam. Paredes
racham. Nas casas, fogo algum basta para aquecer o ar. Mesmo as pessoas que tm lareiras grandes o bastante para at
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dormir dentro delas se encontram na mesma situao. Quando sopro, uma nuvem sai de meus lbios; para aquecer as mos e assim retomar o trabalho, que anda a
passo de tartaruga, preciso enfi-las sob as cobertas.
Estamos no comeo do ano. Aproxima-se a poca dos bailes da Rainha, como nunca deixa de lembrar o prncipe de Ligne. Os bailes da Rainha...  difcil, hoje em dia,
medir a importncia daqueles eventos, a magia dessas palavras. A estao dos bailes da Rainha se anunciava com semanas de antecedncia. Era perceptvel para todos,
punha o palcio inteiro febril, mesmo aqueles que no participavam. A efervescncia dos preparativos no se fazia ver apenas pela multiplicao dos concilibulos,
mas tambm, pela circulao frentica dos pajens. Eles corriam de um aposento a outro levando e trazendo mensagens, encantados consigo, com as perucas curtas e as
roupas com enfeites brilhantes. Desprendia-se de seus rostinhos redondos e zombeteiros um perfume de alegria que, para mim, se confundia com a essncia de lils
dos pajens da Rainha. Alis, estes eram sempre os mais notados. Eram vistos em todo canto com a roupa de veludo vermelho e gales dourados. Penetravam na multido
rpidos como azougue. Para eles, tudo no passava de brincadeira. Transformaram as correrias, proibidas, em uma forma mais engraada de andar: alternavam a um passo
normal dois passos maiores. Segundo a urgncia das mensagens, o encerado dos pisos ou a pressa, esses passos maiores podiam fazer com que atravessassem de uma s
vez o comprimento de um salo... Os pajens percorriam Versalhes confiantes no navio que os transportava, ignorando o vasto oceano que nos envolvia. Transmitiam com
a mesma alegria o bilhetinho amoroso e a ordem de exlio.
A meu ver, h uma imagem simblica da felicidade dos pajens, da conscincia trepidante de sua Sorte. Eles tinham acesso aos bailes da Rainha. Faziam maravilhas a
oferecer os sorvetes e a acompanhar senhoras. Como eu prpria no tinha acesso aos bailes e adorava laranjas acima de tudo, o jovem de Bigny marcava de me encontrar
ao amanhecer, na entrada do salo, para me presentear
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com belas frutas. Ele cumpria a promessa, mas vrias vezes encontrei-o dormindo nos degraus com os bolsos do casaco cheios a ponto de estourar. Eu pegava as laranjas
com precauo, passava-as para a sacola. Descascava uma voluptuosamente e descia para ir tomar o caf no Grand Commun. Nas carruagens estacionadas durante a noite,
era possvel ver um ou outro casal abraado.
Outros sinais tambm indicavam a aproximao dos bailes da Rainha. A costureira Rose Bertin tinha hora marcada com Maria Antonieta todos os dias. Trabalhavam juntas
e produziam vestidos maravilhosos. Como no podiam ser observados em detalhes, eles eram adivinhados atravs dos amplos panos de tafet que os ocultavam e lhes davam
um aspecto de fantasmas, de silhuetas perdidas  procura do encanto que lhes devolvesse a vida roubada. Os vestidos novos da Rainha, que s faziam a apario oficial
por ocasio do baile, viajavam assim encobertos, a qualquer hora do dia, atravs dos corredores, dos boudoirs, dos pequenos e grandes sales. Por ordem da Rainha,
que, sem dvida, temia que se estragassem na passagem estreita de alguns corredores, eles nunca deviam andar por caminhos secundrios. Os manequins surgiam a qualquer
momento. Barulhentos, vazios, ocupavam bom espao, causavam congestionamentos. Eu os chamava, em segredo, de sombras brancas. Todos se afastavam para dar passagem,
mas com mau humor manifesto. Nunca vi ningum agir de outra forma, em sua "presena". Mesmo que o tom fosse o de brincadeira, por alguns segundos, enquanto passava
o precioso despojo, os rostos ganhavam visvel ar exasperado. Depois, tudo retomava o curso normal, como se nada tivesse acontecido. Eu, pelo contrrio, tinha particular
afeio pelas sombras brancas da Rainha. Gostava de estar em seu caminho e seguir atrs, no espao que elas abriam. Pensativa, satisfeita, seguia o manequim quanto
pudesse em seu percurso at os Apartamentos da Rainha. Esperava o momento seguinte ao fechar das portas para saborear bem o luxo e a suavidade que emanavam dali...
S conheci, dos bailes da Rainha, sua sombra, e, pela amizade de um pajem, algumas laranjas.  pouco e ao mesmo tempo tanto!


Notas do tradutor

19 Diretor e chefe da guarda da Bastilha.

Sumrio

04 VIENA, 12 DE FEVEREIRO DE 1810
19 VERSALHES, 14 DE JULHO DE 1789
20 A primeira missa (seis horas da manh)
22 Sesso de leitura no Petit Trianon: Flicie, de Marivaux, flores e luares de vero, a Rainha e o "Caderno de adornos" (das dez s onze horas da manh)
28 Almoo em Pequena Veneza (uma hora da tarde)
29 Visita ao capito de Laroche, Capito-Guardio da Mnagerie: "No falemos mais disso" (das duas s quatro horas da tarde)
40 Conversa -toa e bordado com Honorine (fim da tarde, antes da ceia)
41 Uma noitada no Grand Commun
44 15 DE JULHO DE 1789 MANH E TARDE
45 Algum ousou interromper o sono do Rei
48 O Rei e os irmos vo  Sala do Jeu de Paume; A Rainha na varanda (onze horas da manh)
52 Entusiasmo da multido. Imaginei um triunfo (tarde) NOITE
54 No gabinete de estudo do Historigrafo da Frana (das nove s dez horas da noite)
59 Insnia da corte. Andanas ao redor dos Apartamentos Reais (das dez horas  meia-noite)
63 A lista das 286 cabeas a serem abatidas para que se operem as reformas necessrias
63 Em outros tempos, na poca das belas tradies
69 Diane de Polignac
76 Com a Rainha no Grande Gabinete Dourado. Preparativos para a partida (da meia-noite s duas horas da manh)
85 Esgotamento, aurora sinistra (das duas s quatro horas da manh)
89Fechar as grades
94 16 DE JULHO DE 1789 MANH E TARDE
95 Do lado de fora, sob as janelas do Quarto da Rainha (entre cinco e seis horas da manh)
96 Um silncio inquietador
100 A alegria dos vitoriosos (por volta das oito horas da manh)
109 Para mim: angstia e confuso. O encontro com uma mulher de bom senso. A presena do Apaixonado da Rainha
115 A sada do Conselho (dez horas da manh)
129 A clera da Rainha por no partir (onze horas da manh)
133 Hoje, a chuva, a dvida e minhas folhas espalhadas pelo cho. Depois, com a volta do sol, minha estada na casa do prncipe de Ligne (Viena, junho de 1810)
140 Nos Pequenos Apartamentos da Rainha assisto, sem querer, a um encontro da Rainha com sua favorita (uma hora da tarde)
152 A missa na capela do palcio (trs horas da tarde)
154 O Almoo do Rei, seu trmino to brusco quanto desastroso (quatro horas da tarde)
157 Fui tomada pelo pnico (seis horas da tarde) NOITE
164 O Rei incumbe o Historigrafo da Frana de uma misso sagrada: redigir uma "Carta pastoral" (sete horas da noite)
178 ltima leitura para a Rainha (das oito s nove horas da noite)
184 A fuga. Meu medo nos subterrneos. A mensagem recebida por engano (das dez horas  meia-noite)
197 VIENA, JANEIRO DE 1811
203      Notas do tradutor

Fim
